Merli

Foi por meio de uma reportagem da revista Nova Escola que descobri a série da Catalunha, Merlí. Com a primeira temporada disponível no Netflix, a série tem o nome do protagonista, o professor Merlí Bergeron, um revolucionário. Pai de Bruno, adolescente na descoberta da sua homossexualidade, Merlí é irreverente no modo de ministrar suas aulas. A Filosofia, disciplina do professor, é o mote para cada episódio, que na primeira temporada tem, cada um, o nome de um filósofo ora clássico, ora moderno.

Com um roteiro bem elaborado, a série aborda questões da sexualidade, convivência, aprendizado e relações profissionais e também pedagógicas. Merlí será o substituto de Filosofia do Instituo Angél Guimerà. Quando chega à sala de aula tem notícia de um aluno que está afastado das aulas devido a uma crise intensa de agorafobia e que um professor, o Eugeni, vai até a casa de Ivan Basco, o então aluno, para que ele não perca o ano letivo. Porém, o acompanhamento de Eugeni não está dando muito certo e Merlí se oferece para acompanhar Ivan, que faz sucesso. Aos pouco, mas não sem dificuldades, Ivan vai se libertando. E Eugeni vai ser o grande perseguidor de Merlí. Ele é um professor de Literatura, carrancudo, adeptos das pedagogias tradicionais e pouco simpático e sem a confiança dos alunos.

Mas assim como Ivan vai se libertando, também se liberta o pensamento dos adolescentes e de toda a escola. Ao mesmo tempo com uma carga muito grande de reflexão e envolvimento com a transformação da sociedade, a série também é apimentada com cenas de sexo quente e o carisma de Merlí por seduzir mulheres divorciadas ou mesmo em relacionamentos conflituosos. Seduzir é também o verbo de ação para o pensamento. Os nossos pensamentos têm de seduzir e nós devemos seduzir os outros não só pela maneira que pensamos, mas também pela forma como agimos. E a forma que agimos muitas vezes parte da forma que pensamos. Estaria aí um eixo da vertente da terapia cognitivo-comportamental?

Outro foco da série é a homossexualidade de Bruno, que ao mesmo tempo lida com preconceitos enraizados e comete um bullying tremendo ao professor Santi, obeso e glutão confesso. Até que Santi morre vítima de um infarto fulminante. Seria aí a janela da alma de Bruno?

Quando Olíver, outro aluno homossexual, que é transferido para o Angél Guimerà, chega à escola, Bruno vê nele tudo aquilo que gostaria de ser. Totalmente aceito em sua sexualidade, livre e sem amarras morais e ideológicas.

Por fim, a série é de grande veia de sensibilidade e nos mostra a importância da Filosofia e do pensar. Do livre pensar. A educação é, assim como já concebera Paulo Freire, prática da liberdade. Ela tem que ser um ato emancipatório que promova a autonomia do indivíduo e o diálogo com os outros e com o mundo. Assim é que a Filosofia tem como papel, despertar para que, estudando as ideias filosóficas, conheçamos a nós mesmos – como diria a máxima socrática – e possamos ter a certeza de que nada sabemos, mas estamos em busca de saber, de conhecer e de viver. É assim que fico feliz ao saber que Merlí tem a segunda temporada, que ainda não está disponível no Netflix, e este professor um homem maduro, bonitão, galante e sexy, vai continuar a nos mostrar que é possível a liberdade de pensar.

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