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Gregório de Matos Guerra é o ícone do barroco brasileiro. Sua poesia se divide em duas vertentes: a lírica (dedicada à Angela, sua musa inspiradora) e a satírica. Foi por esta última que o autor ficou mais conhecido no Brasil levando a alcunha de Boca do Inferno.

A sátira gregoriana chama a atenção pelo uso de termos chulos e palavrões. Hoje critica-se muito as músicas com este apelo, mas os poetas clássicos também faziam uso destas expressões. Não estou defendendo, nem fazendo apologia à música de má qualidade. O que destaco é que gritar e pôr para fora sua insatisfação com o governo, com a sociedade e com tudo o mais que quiser muitas vezes se faz de maneira grosseira e impactante.

A poesia de Gregório de Matos está atual até hoje ao denunciar a corrupção. No poema intitulado como “Define a sua cidade”, o mote “De dous ff se compõe esta cidade a meu ver, um furtar, outro foder” quando ele fala a respeito da Bahia é colocado sua insatisfação com o roubo das coisas públicas.

Furtar é verbo que está presente nos nossos noticiários atuais a todo momento. Foder mais ainda, pois o cidadão brasileiro está pagando na pele o roubo e a corrupção dos mandatários do país.  O barroco é a linguagem do exagero. Rebuscamento e colocação de opostos como o bem e o mal são marcas da lírica barroca. Na poesia satírica de Gregório de Matos há um apagamento destas características, mas predomina ainda um vômito exagerado por meio do dizer barroco. Em outro texto colocado aqui no blog intitulado “Um dizer barroco” (https://danvizi.wordpress.com/2016/10/07/um-dizer-barroco/), aconselhei: “Escrevamos para por pra fora esse dizer barroco que está engastalhado goela abaixo. Vomitemos para fora isso que exagera em nós por que na dualidade bem e mal, no pecado ou na virtude está faltando um pouco de nós mesmos”. Essa percepção está presente na obra de Gregório de Matos quando o autor não tinha medo de falar. Inclusive pagou suas consequências sendo perseguido pelas autoridades e tendo até que se ausentar do Brasil.

Um dizer que se ressignifica ao longo do tempo e que marca o movimento da luta social em favor dos seus direitos. Exercer a política, na luta ativa do dia a dia e nos dizeres que escrevemos, publicamos e repassamos. Com o advento da internet, temos essa possibilidade de levar nossas reflexões aos quatro cantos do mudo. Podemos romper essa ordem governista que furta e fode conosco. Podemos reformular e repassar os dizeres gregorianos. Este texto é de luta, mostrando a atualidade da poética barroca, que muitas vezes é criticada, mas que é preciso exagerar (quase sempre) para acabar com o “furtar e foder”.

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