Pensar o mercado editorial e, principalmente o brasileiro, exige fôlego, pesquisas e bastante reflexão. Em plena era digital, a publicação de livros em papel ainda é grandiosa e cresce cada vez mais o número de pequenos escritores que querem ver um exemplar seu na estante.

Mas é aí que reside a polêmica. De acordo com Laura Bacellar, editorialista formada pela USP, surge anualmente no Brasil cerca de 25 mil novos títulos. O número é expressivo, mas para Laura ser publicado não é suficiente. O mercado está atolado de livros e num Brasil que lê pouco, há mais livros que leitores. É difícil divulgar um livro e fazê-lo circular. Aí é que está a diferença. Há editoras grandes, como aquelas que todo mundo conhece, em que o autor não investe nem um centavo do bolso e ainda recebe os direitos autorais. O objetivo delas é, única e simplesmente, vender. Por isso, os livros passam por sérias avaliações e tem que ter pegada comercial.

Já, também segundo Laura, há as pequenas editoras ou prestadoras de serviços, como ela prefere chamar, que editam em pequenas tiragens e entregam o livro pronto e acabado na mão do autor, mas não se preocupam com sua divulgação ou venda. Isso fica por conta do próprio escritor que vai fazer uma noite de autógrafos em sua cidade do interior para vender seus pupilos.

É preciso refletir: até que ponto compensa publicar ou “imprimir” um livro para apenas dizer que se tem uma publicação em papel? Para que um autor se configure como tal é preciso que ele fique conhecido e ganhe renome? Até onde um livro é um objeto cultural e uma obra de arte ou é apenas um produto vendável e consumível?

Para o autor passense radicado no Rio de Janeiro, Alexandre Brandão, o mercado editorial “é concentrado e, nos últimos tempos, graças a tecnologias inovadoras, tem sido invadido por um monte de pequenas editoras”. Ele cita a “Oiro e meio” e a “Patuá”.

Sobre esta distinção entre até que ponto vale a pequena publicar em pequenas quantidades ou se para ser autor é preciso ser renomado ele assegura: “Acho que tem grandes editoras com bons livros, é o caso da Companhia das Letras, da Alfaguara (aliás,  ambas de um mesmo grupo econômico, o que intensifica a concentração econômica) e de outras. Agora existem outras (Sextante) interessadas exclusivamente em best-sellers. E há os escritores interessados em ganhar dinheiro,  em escrever best-sellers”. Ele também concorda que há mais escritores que leitores. Porém, para Alexandre, “mesmo editoras maiores fazem livros custeados pelo autor. No caso delas, às vezes, a diferença é que fazem um controle de qualidade um pouco mais severo ou cobram uma fortuna. O autor irá pagar pela grife”.

Estudioso da literatura e também com obras publicadas , o professor Jorge Luiz Antonio, considera que “o mercado editorial brasileiro é dividido em vários níveis: uma produção editorial apoiada por distribuidores competentes e vinculados à indústria cultural, que costuma vender bastante; uma outra, feita de poucas editoras universitárias ou de editoras apoiadas por verbas de fundações de apoio às pesquisas científicas, cuja divulgação costuma ser muito fraca, tímida, e com pouco resultado financeiro, infelizmente; e, um terceiro nível, que são os abnegados artistas, poetas e escritores que se sustentam em vendas pequenas e de divulgação muito tímida, mas que felizmente existem e produzem arte e cultura”.

Na fala de Jorge há um pensamento interessante em que é preciso perceber qual o objetivo da literatura a ser publicada. Se é ganhar dinheiro, o autor não deve arriscar seu parco dinheirinho numa publicação artesanal, como podemos definir. Talvez seja melhor deixar sua obra bem “polida”, preparada com os interesses mercadológicos e tentar a publicação em uma grande editora. Vá em frente, terá muito trabalho por aí. Agora se é contribuir para a disseminação do conhecimento e fortalecer as vivências dos grupos literários menores que não fazem parte do cânone literário brasileiro, publicar numa pequena editora também é válido. Há muita poesia marginal nas margens de nosso Brasil. E poesia boa. Em Passos mesmo, cidade do interior de Minas, distante há 350 quilômetros da capital, há um número enorme de escritores independentes e que inclusive se reúnem em uma associação, a “Escritores e Companhia

“Vale a pena publicar nossos poemas e nossas prosas de ficção, mesmo que isso signifique um grande esforço e custo, e alcance poucos resultados. Nós não teríamos ótimas publicações se alguns abnegados não gastassem seu tempo e seus recursos para oferecer suas ideias ao público leitor”, destaca Jorge que ainda conclui: “Tanto o livro como mercadoria, quanto o livro como obra de arte, são importantes para o público leitor.  A diferença fundamental é que o livro como mercadoria é um produto filtrado pelo fator lucro e pode não ter um conteúdo válido como obra de arte, porque pode estar diluído pelos critérios da indústria cultural. Prefiro utilizar o verbo “pode”, porque, muitas vezes, é, o livro como mercadoria, um livro de ótimo conteúdo e pode ser considerado como uma obra de arte”.

E aí, vai publicar ou não? O importante acima de tudo nesta questão é que mesmo com mais livros do que leitores, a leitura no Brasil está se expandindo e se já tem mais pessoas que escrevem e ainda querem publicar, o terreno está propício. Com esses livros publicados e expandidos a todos os cantos do Brasil poderemos formar uma nação leitora.

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