4 luas

São quatro histórias. São quatro fases da lua. Maurício é um garoto de aproximadamente 10 anos que se interessa pelo primo mais velho – Lua nova. Fito ou Adolfo e Léo são jovens que cursam a faculdade e os dois se descobrem apaixonados, mas Léo tem uma dificuldade em aceitar a homossexualidade – Lua crescente. Andrés e Hugo vivem um romance de 10 anos e, de repente, se veem em crise devido ao interesse de Hugo por um outro rapaz – Lua cheia. Por fim, Joaquim Boco é um idoso e se interessa, numa sauna, por Gilberto, um novato garoto de programa – Lua minguante. Este é o enredo do filme Cuatro Lunas (Quatro Luas), um filme de produção mexicana lançado no Brasil em 2016 e que foi dirigido por Sergio Tovar Velarde.

A lua é a metáfora do desejo. E assim como o satélite natural, em cada fase, nos seus diversos ciclos durante o ano, aparece de uma forma no céu e que tem todo um simbolismo e ao mesmo tempo atuação gravitacional na força das marés, superstições (ou não) com influência no poder do corte de cabelos e vários outros, representa também o desejo sexual do ser humano que aparece em cada fase da vida de um jeito, mesmo que no filme é abordada a questão do sexo entre dois homens e também da homossexualidade enquanto afetividade e sociabilidade entre dois homens.

O filme nos mostra diversos conflitos entre viver uma identidade sexual ou uma prática sexual. Nos casos em que estão na ponta – os da lua nova e da lua minguante – a homossexualidade é vista como o desejo proibido. Maurício é escrachado quando é entregue pelo primo que um dia a noite, num jantar em família, sozinhos no quarto Maurício pede para ver o órgão sexual de seu primo e ainda o acaricia. Logo depois, é descoberta a homossexualidade de Maurício, mas no princípio ela é negada. Ao mesmo tempo, um desejo reprimido a vida toda por um escritor de poemas é colocado para fora junto a um garoto de programa, com o qual se cria uma afetividade depois.

Na lua crescente – a dúvida e o desejo se misturam. Mas não há como negá-lo. A afetividade encontra-se aqui o ápice, pois o relacionamento de Fito e Léo é uma grande amizade, permeada de amizade e concretizada na simbologia da lua crescente, a construção de todo relacionamento e a construção da homossexualidade em nossa sociedade contemporânea. Ela é continuum marcado pelo preconceito, pela exclusão, mas também pela conquista de direitos, pela compreensão de que é uma vertente natural da afetividade, da sexualidade e da sociabilidade humana e que se manifesta também de outros modos em outras espécies animais.

Se a lua crescente é o ápice da afetividade, a lua cheia – Andrés e Hugo – é o ápice do desejo e das dificuldades de todos os relacionamentos humanos. A vida tem sabores. A vida tem fases. O desejo também. Viver o desejo traz consequências. Reprimi-lo, também. E aí o que seguir? Razão e emoção se conflituam. Os sentimentos podem ser volúveis ou ganhar um ar de mais estabilidade.

A metáfora da lua relacionada ao desejo e ao ser humano é antiga, mas o efeito de sentido gerado ao abordar a relações homossexuais é novo. Não sei porque, mas ao assistir ao filme surgiram as perguntas e reflexões: cabe a você fazer a parte que lhe cabe. Dá para ser ou o que é ser feliz neste mundo de hoje? Quatro luas e uma questão de desejo. Há uma linha de temática também sobre o “sair do armário”. Dá para algum homossexual ficar nele? Em algum momento o desejo vem à tona e a lua aparece no céu para todos em diversas fases. A lua e o desejo.

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