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Rede ou redes, nunca estes vocábulos foram tão ditos como no auge do século XXI. Neste texto apresento um pouco do que pude refletir na leitura de Manuel Castells e seu clássico “A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade”. Talvez já um pouco desatualizado, visto que a edição é de 2003, mas ainda com reflexões pertinentes, principalmente sobre o que vivemos no Brasil nesta era da sociedade de rede.

Castells termina o livro dizendo: “Se você não se importa com as redes, as redes se importarão com você, de todo modo. Pois, enquanto quiser viver em sociedade, neste tempo e neste lugar, você terá de estar às voltas com a sociedade de rede. Porque vivemos na Galáxia da Internet” (p.230). O pensamento síntese está em concordância com o modo como se organiza nossa sociedade hoje, de fato ela está delineada em rede (s). Mesmo que uma pessoa não seja adepta de nenhuma rede social na internet, mesmo que não tenha aplicativos e nem um smartphone potente conectado a web, ela volta e meia está em contato não só com a tecnologia, mas como essa forma de interligação da sociedade mundial: conectados. Ainda na conclusão do livro, Castells se questiona: quem somos ós na internet? E responde: “‘Nós’ poderia ser ainda nós, o povo, você e eu. Com base em nossa responsabilidade individual, como seres humanos informados, conscientes de nossos deveres, confiantes em nossos projetos. De fato, somente se você e eu, e todos os outros, formos responsáveis pelo que fazemos, e nos sentirmos responsáveis pelo que acontece à nossa volta, nossa sociedade poderá controlar e guiar essa criatividade tecnológica sem precedentes” (p.230).

Essa mesma questão relatei no texto “Nós e os nós da internet: como você define a internet?” (Disponível em: https://danvizi.wordpress.com/2016/05/03/nos-e-os-nos-da-internet-como-voce-define-a-internet/) e que foi escrito no contexto de quando fazia a disciplina “O sujeito do discurso nas malhas do digital”, na USP – Ribeirão Preto, ministrada pela Profa. Dra. Lucília Maria Abrahão e Sousa. Para mim: “No sentido geral a internet é a rede de computadores interligados. A internet é hoje um espaço de múltiplas possibilidades”. Para Castells, essa segunda parte da minha resposta – um espaço de múltiplas possibilidades – é o que prevalece, pois ela não é mais somente uma rede de computadores interligados.

O livro se estrutura e se debruça em diversas questões sobre o apogeu da Internet, mas o ponto principal é sim a economia e os negócios gerados. No capítulo 1, o autor resume a história do desenvolvimento da Internet e as lições que se pode tirar dela. O capítulo segundo junto ao quarto são os que para mim mais chamam a atenção. No segundo, é abordada a cultura da Internet que se define como: “uma estrutura em quatro camadas: a cultura tecnomeritocrática, a cultura hacker, a cultura comunitária virtual e a cultura empresarial. Juntas, elas contribuem para uma ideologia da liberdade que é amplamente disseminada no mundo da Internet” (p.34). E será que temos mesmo toda essa liberdade na rede? E ainda pontua que: “A cultura da Internet é uma cultura feita de uma crença tecnocrática no progresso dos seres humanos através da tecnologia, levado a cabo por comunidade de hackers que prosperam na criatividade tecnológica livre e aberta, incrustada em redes virtuais que pretendem reinventar a sociedade, e materializada por empresários movidos a dinheiro nas engrenagens da nova economia” (p.53). Desta última parte gostei: “materializada por empresários movidos a dinheiros nas engrenagens da nova economia”. Num ponto do texto, Castells vai dizer que o grande impacto e a grande efervescência da Internet se dão porque na maioria das vezes o uso que se faz não é o uso originário para a qual fora criada. Assim, a Internet foi criada como uma ferramenta militar de comunicação em guerra. E hoje, virou um boom! Será que somos totalmente livres nela? Ou somos cada vez mais manipulados num sistema econômico que nos faz dependentes dela? Mas será que podemos viver sem ela? Ela é esse fantasma tão tenebroso?

Sou um idealista, sim, da web. Utilizo muito. E acho que em comunicação, rapidez, encurtamento de distâncias, ganhamos muito com ela. Mas como todo remédio em excesso (ou não) tem seus efeitos colaterais, os laços culturais, a identidade, a subjetividade, as ideologias (por que não?) foram e precisam ser, é óbvio, remodeladas. E nem sempre todos estão dispostos ou preparados para isso. Num país de precária educação, a pesquisa é o principal ponto que sofre, pois o que se acha na Internet é tido como verdade e não se questiona a fonte. Cruzam-se informações, mas não lhes consultam suas origens.

No quarto capítulo sobre as comunidades virtuais ou sociedades de rede é questionado o fator positivo da grande interação ou a causa de um isolamento social muito grande. E a resposta: “se alguma coisa pode ser dita, é que a Internet parece ter um efeito positivo sobre a interação social, e tende a aumentar a exposição a outras fontes de informação (p.102); há alguns indícios, porém, de que, sob certas circunstâncias, o uso da Internet pode servir como um substituto para outras atividades sociais” (p.104). Castells parece ser aquele otimista com os pés no chão. É claro que algumas substituições realizadas nas atividades sociais não foram satisfatórias. E outras foram. Quer um exemplo? A própria questão do selfie. A imagem, a todo custo, tudo tem que ser registrado e há uma crise da imagem e da realidade. O que posto no Facebook sou eu, ou uma projeção do meu eu, do que eu gostaria de ser? Trato desta questão num texto bastante acessado: “Imagem e realidade” (Disponível em: https://danvizi.wordpress.com/2016/09/29/imagem-e-realidade/)

Nos demais capítulos temos: no terceiro, “Negócios eletrônicos e a nova economia”; no quinto e sexto, “A política da Internet”; no sétimo, “Multimídia e a Internet”; no oitavo, “A geografia da internet” e no nono, “A divisão digital numa perspectiva global”. Não me sinto na capacidade de comentá-los e até mesmo para não estender o texto.

Agora chamar o que vivemos de “a galáxia da internet” é um tanto audacioso e dar-lhe o poder que seus desenvolvedores atuais desejam. É menosprezar várias outras ações e feitos da humanidade. Pois, assim considero a Internet um cometa, um satélite, mas não uma galáxia inteira, pois por mais virtual que ela seja, está alicerçada no materialismo, reforça o materialismo histórico e a luta de classes, e segrega e separa cada vez mais os indivíduos em classes sociais.

 

REFERÊNCIA:

CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

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