Em meio à tremenda crise da democracia brasileira, fiquei pensando qual contribuição eu poderia dar para as manifestações que se desencadeiam contra um governo que quer negar os direitos dos brasileiros.

Pensando também em associar cada vez mais as temáticas à língua, linguagem e literatura me veio a noção de “campo semântico”. Quando diversas formações discursivas se unem, temos a consolidação de um campo semântico que na Análise de Discurso Francesa seria o interdiscurso. Desloquei a atenção para esta outra denominação de campo semântico por pensar em outras perspectivas.

Temos percebido diversas enunciações na política que nos faz elencar unidades de sentido como: esquerda versus direita; corrupção; crise. Todas essas formações nos levam a perceber uma política, de fato, em crise. A identidade da política brasileira não se consolidou e hoje temos além de direitos negados, pessoas que defendem um misógino, um defensor de torturas que é o deputado Jair Bolsonaro, que provavelmente irá se candidatar às eleições presidenciais.

Mas o que me leva a citar o caso dessa referida persona totalmente non grata? Para mostrar que o campo semântico da política brasileira está confuso e misturado. Não se trata mais de ser de esquerda ou de direita, mas de perceber que os rumos do país está nas mãos de uma elite que não está preocupada ao mínimo com o futuro de milhares de eleitores, querem apenas o seu voto.

Fora isso a educação política – que eu mesmo não tive e não tenho, e por isso talvez este texto não tenha a sua qualidade como deveria ter – é negada a todos e pouco conhecemos sobre este assunto e sobre este campo semântico. Ficou mais confuso agora conhecê-lo, pois misturam-se num furacão vozes contraditórias. Tenho medo de onde vai parar o Brasil em termos da sua política.

Nesse turbilhão de enunciados de negatividade, a mídia brasileira, principalmente o oligopólio da comunicação televisiva que é a Rede Globo, contribui para consolidar o campo semântico político brasileiro no viés das FDs de corrupção, delação premiada, neoliberalismo. Um fato que comprova esta minha tese é que as manifestações que ganharam as ruas no dia 15 de março não ganhou espaço na TV brasileira e quando muito pequenas notas foram editadas. Chegou-me ao conhecimento um informativo institucional do SENGE-MG (Sindicato dos Engenheiros) em que uma das matérias principais traz a manchete: “Manifestações sinalizam a insatisfação da população com plano de governo Temer”, isso não é mostrado. Há aqui uma ruptura e um deslocamento. Pois até é mostrado estatísticas que demonstram a insatisfação com o governo, mas não com o seu plano. Um plano que não foi votado. Que não foi eleito. As manifestações parecem não ter força, mas tem. Chegamos a ficar descrentes e a pensar: “ir às ruas para quê? Se nada adianta, se fazem o que bem querem?” Porém a atuação política do povo nas ruas arquivará a memória política, social e histórica deste momento. O futuro está por vir. E a política é movimento, é fluxo. Os mesmos que elegeram Temer como vice, pois foi para isso que ele foi eleito, podem nunca mais votar nele.

Para piorar, me chega uma foto do Jair Bolsonaro sendo batizado nas águas do Jordão pelo Pastor Everaldo, o próprio que foi citado em delações premiadas. Que as águas do batismo lavem o misógino, terrorista (ele sim é terrorista!) e que elas lavem a população, porque partícipes de um campo semântico que é passado pela mídia massiva, a aceitação desta figura zoomórfica que é Bolsonaro está cada vez maior. E aqui não se trata de direita ou esquerda, de populismo, mas trata-se de fascismo e nazismo (por que não?) que ele pratica e trata-se aqui de perceber-se imerso num campo semântico político quando a Política na verdade tem outras enunciações que não são mostradas. O exercício político liberta e promove a cidadania.

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