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Quando em vida, o autor português José Saramago foi muito criticado por ser considerado ateu e o seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), uma distopia sobre a vida de Jesus, gerou polêmica em Portugal. “Ensaio sobre a cegueira” (1995) foi a única obra que li de Saramago e o primeiro contato, então, com este autor.

Chegou-me às mãos o livro “Saramago – biografia”, de João Marques Lopes. Não hesitei e fiz uma leitura devoradora para conhecer, antes de ir às demais obras, a pessoa de José Saramago. Ele era sim ateu, vindo de uma infância complicada em que a mãe não lhe oferecia afeto e carinho, revoltada com a perda do filho mais velho – Francisco.

Mas, como criticar o seu ateísmo, visto que tinha em si o lado humano? Enorme luta política travou o autor português. Considerado comunista, seu objetivo, se não estou enganado, era condenar, criticar e lutar pela erradicação das desigualdades sociais e das contradições existentes no mundo capitalista.

Antes de começar no mundo das letras, como é apresentado pelo biógrafo João Marques Lopes, Saramago cursou escola técnica de seralheria. Depois, passou por jornais, escreveu crônicas, artigos de opinião e poesias. Com o livro “Levantado do chão” é que ganha prospecção no gênero romance. Logo depois, Memorial do Convento é o livro que por muitos é considerado sua obra-prima. O estilo saramaguiano é único, com ausência de pontuações, travessões entre os diálogos, numa oralidade com a qual ele recomendava: “leiam meu texto em voz alta”.

Já na Ilha Canária de Lanzarote na Espanha, depois de ter deixado Portugal muito chateado com a polêmica que lhe causara “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, com um veto do governo para participar de um importante prêmio, Saramago escreve “Ensaio sobre a cegueira” e começa uma série de distopias e alegorias, fazendo parte do realismo fantástico.

Em 2010, no dia 18 de junho, José Saramago morreu aos 87 anos. O livro que li, parece ter sido escrito antes de sua morte. Dediquei, na época de sua morte, no blog, uma nota com algumas epígrafes de “Ensaio sobre a cegueira”. Saramago era um sobrenome que não era de batismo, ou seja, nenhuma familiar tinha no registro esse sobrenome. Saramago era um apelido crítico que recebia a família, por algumas polêmicas, e que dá nome a ervas amargas. Quando foi ser registrado o funcionário do cartório acrescentou por conta e risco o sobrenome Saramago, e assim registrou-se José de Sousa Saramago. Assim ficou sendo o nome com o qual esse ícone da literatura portuguesa ficou conhecido no mundo todo sendo consagrado em 1998 com o Prêmio Nobel da Literatura, em Estocolmo na Suíça, sendo a maior condecoração literária mundial. Foi o primeiro autor de Língua Portuguesa a receber esse prêmio (e o único? Acho que sim!).
Literatura é paixão. Apaixonado por ela era Saramago. Dava-lhe o título da obra e em seguida começava toda a trama que já estava na sua cabeça e em algumas delas fazia pesquisas, escavações históricas e misturava jornalismo e literatura, mas no seu texto predominava a veia da poética literária no texto narrativo. Assim é que para ele literatura é um trabalho intenso do autor mais o narrador.

A leitura da biografia de Saramago – que ainda preciso pesquisar mais e mais – nos remete a um Nobel da Literatura, que era ateu, mas que era humano! E que humano! Formidável! Essa contribuição às Letras teria que aqui ser registrada e que pensemos neste autor e em tantos outros que nos deixam o legado do aprendizado, da cultura, da consciência e reflexão na Literatura.

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