Colaborou: Gisele Oliveira

Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Clotilde, Lúcia Miguel Pereira, Pagu, Rachel de Queiroz, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Lygia Bojunga Nunes, Marina Colasanti, Ana Maria Machado, Geny Guimarães e tantas outras. Quem são elas? Autoras brasileiras. No último dia 8 de março, foi comemorado o Dia Internacional da Mulher. Nesta data, diversas foram as homenagens e é, portanto, um momento propício para a reflexão da escrita de autoria feminina. Qual o lugar a mulher ocupa hoje na Literatura Brasileira?

Colocar em evidência a Literatura de autoria feminina produzida em nosso país, significa trazer para um espaço central uma escrita que historicamente foi colocada à margem pelo cânone nacional. Foi somente no século XX e, principalmente, a partir da sua segunda metade, que a mulher ganhou prestígio no cânone literário brasileiro e foi reconhecida. No século XVIII, algumas manifestações apareceram, mas é difícil até de termos conhecimento hoje em dia dessas produções, quão subjugada era a mulher não só nas Letras, mas na vida da sociedade como um todo. No século XIX, podemos perceber alguns nomes como Nísia Floresta (1810), Maria Firmina dos Reis (1825), Júlia Lopes de Almeida (1862) e Francisca Clotide (1862). Fato curioso é o caso de Júlia Lopes de Almeida que, apesar de participar das reuniões para formação da Academia Brasileira de Letras, não pode fazer parte desta, pois à época a Academia não admitia mulheres. Há rumores de que seu marido Filinto de Almeida só tenha sido eleito para a ABL em homenagem a ela.

Na segunda metade do século XX, a produção literária de autoria feminina se intensifica e ganha notoriedade. Apesar desse avanço conquistado, ainda atualmente, os números revelam uma grande discrepância no número de obras publicadas por homens e mulheres em nosso país. De 1990 a 1995, 72,7% dos romances publicados foram escritos por homens. Com relação ao reconhecimento não se pode observar muita equidade também. Nos principais prêmios literários brasileiros (Portugal Telecom, Jabuti, Machado de Assis, São Paulo de Literatura, Passo Fundo Zaffari & Bourbon), entre os anos de 2006 e 2011, foram premiados 29 autores homens e apenas uma mulher (na categoria estreante, do Prêmio São Paulo de Literatura).

Por isso, falar sobre esta questão é mais do que necessário e perceber também nas temáticas das produções a força da mulher e sua luta pela garantia dos seus direitos, da equidade com os homens e do reconhecimento do seu trabalho com as Letras. As vozes poéticas que ecoam dos poemas, contos, crônicas e romances das mulheres brasileiras transmitem o sentimento e a construção da identidade feminina que é diversa, plural e, ao mesmo tempo, singular. É o reconhecimento de diversos posicionamentos, atitudes, ações que colaboram para a emancipação feminina e também para o conhecimento e a reflexão dos leitores que também buscam nas vozes das autoras a sua voz ao dizer da mulher para representá-la e expressá-la que deve ser feito com respeito e admiração pelo chamado “sexo frágil”, expressão que já caiu por terra, pois este sexo é muito mais do que forte, tem representatividade e autonomia e precisa reconhecê-las.

É colocado abaixo uma pequena relembrança da trajetória de algumas escritoras a partir do século XIX. Mulher e poesia: vida e alma. Alma nas letras, poder no lugar conquistado, sabedoria a ser transmitida

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

CASTANHEIRA, Cláudia. Escritoras brasileiras: percursos e percalços de uma árdua trajetória. NIELM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura). Disponível em:http://www.unig.br/cadernosdafael/ARTIGO%20CADERNOS%208%20CLAUDIA%20CASTANHEIRA.pdf > Acesso em 19 out. 2016.

Mulher e Poesia

DO SÉCULO XIX AO SÉCULO XX: ALGUMAS AUTORAS BRASILEIRAS

Nísia Floresta. Nascida em 1810, Nísia foi escritora, educadora e poetisa. Destacou-se principalmente por sua contribuição à escrita feminista de sua época, escrevendo textos para jornais de grande circulação e também livros, dos quais o primeiro Direito das Mulheres e Injustiça dos homens é um dos mais famosos.

Maria Firmina dos Reis (1825) escritora negra teve que enfrentar o preconceito quanto à raça e ao gênero. Pode ser considerada um marco na literatura brasileira por publicar um dos primeiros romances de nosso país: o romance Úrsula, cujo enredo abordava temática abolicionista.

Júlia Lopes de Almeida (1862). Romancista, poetisa teatróloga foi uma das poucas escritoras de sua época a receber reconhecimento por parte da crítica literária. Ainda assim, apesar de participar das reuniões para formação da academia brasileira de letras, não pode fazer parte desta, pois à época a Academia não admitia mulheres. Há rumores de que seu marido Filinto de Almeida só tenha sido eleito para a ABL em homenagem a ela.

Francisca Clotilde (1862) – Poetisa, contista e cronista, destacou-se principalmente pelo romance A Divorciada, que apesar do tom moralista chocou a sociedade por tratar de um tema na época considerado tabu.

Lúcia Miguel Pereira (1901) – Além de seu trabalho com a escrita e a crítica literária ficoou conhecida pelas diversas biografias que publicou dentre elas a de Machado de Assis.

Pagu (Patrícia Rehder Galvão) (1910) – Além de jornalista e uma das grandes escritoras do movimentos modernistas Pagu também ficou conhecida pelo engajamento político e pela busca incessante da liberdade feminina de uma forma global

Rachel de Queiroz (1910) – Uma das mais importantes representantes do Romance de 30 (segunda geração do Modernismo), autora de obras consagradas como o Quinze e Memorial de Maria Moura, Rachel foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1977.

Carolina Maria de Jesus (1914) – Poetisa e escritora, Carolina ficou conhecida a partir da publicação de Quarto de despejo: diário de uma favelada, em que narra de forma crítica e com uma ironia apurada o cotidiano e as dificuldades da vida na favela.

Clarice Lispector (1920) – produziu uma literatura ímpar ao construir sua narrativa a partir do fluxo de consciência apresentando, assim inovações formais e de linguagem, tudo com a intenção de desvendar com profundidade o ser-humano naquilo que ele possui de mais íntimo.

Lygia Fagundes Telles (1923) – Membro da ABL e da Academia de Ciências de Lisboa as narrativas de Lygia surpreendem por serem engajadas e ao mesmo tempo intimistas, configurando o que Massaud Moisés denominou de realismo intimista.

Lygia Bojunga Nunes (1934) – Escritora infanto-juvenil consegue sensibilizar e tratar de temas importantes da realidade que nos cerca através da fantasia e também do humor.

Marina Colasanti (1937) – Artista plástica, escritora, poetisa, acumula diversos prêmios. Em sua produção podemos destacar os contos de fadas, que reelaborados pela autora fogem da estrutura tradicional, sendo usados para trabalhar temas existenciais fundamentais como a solidão e as crises de identidade humanas.

Ana Maria Machado (1941) – Membro da ABL, a qual presidiu de 2011 a 2013 é considerada uma escritora extremamente versátil. Escreve para crianças e adultos, sendo a questão de gênero um tema recorrente em ambas vertentes de sua obra.

Geny Guimarães (1947) – Com uma obra fortemente marcada pela ternura, a escritora que também é professora, Geny aborda muitas vezes acontecimentos autobiográficos em sua obra trazendo à tona questões como o racismo e da importância da valorização da identidade negra.

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