O que sei de Martha Medeiros? Ainda muito pouco, mas estou a buscar e conhecer esta autora de viés feminista, mas não excêntrica. Sua linguagem traduz os desejos femininos e principalmente as possibilidades e escolhas da mulher (não mais submissa e ingênua) no sexo, no casamento, na vida cotidiana, na profissão…

Conheci a autora há pouco tempo por meio de uma amiga. Logo, ao ler o poema “Persona non grata”, percebi que tinha algo ali que me chamava a atenção, mesmo sendo homem. Nos caminhos da poesia de Medeiros, começo aqui não com o poema título deste texto mas com um outro em que termina com a epígrafe “Estou sempre de olho na outra margem do rio”. Incluído no livro de mesmo título “Persona non grata”, o poema começa: “Dos habituais comportamentos contemporâneos, optar é deles o mais desumano”. Percebe-se aí que Martha, assim como em toda sua obra, discorre sobre as escolhas, a liberdade de escolha e traduz em seus poemas uma luta engajada pela emancipação da mulher.

Percorramos os versos de “Persona non grata”. “A todos trato muito bem/ sou cordial, educada, quase sensata”. O que lhe vem à cabeça quando lê estes versos? Em mim o enunciado que repercutiu da reportagem da revista Veja com Marcela Temer “Bela, recatada e do lar”, mas aguarde pra ver. “Mas nada me dá mais prazer/ Do que ser persona non grata”. A mulher pode sentir prazer? Há bem pouco tempo, não. Com a pílula anticoncepcional, o sexo se desvinculou de vez do “único” objetivo – procriação – e a mulher sente sim prazer, das mais variadas formas, a sexualidade é pra ser trabalhada, pensada, ressignificada. “Expulsa do paraíso/ uma mulher sem juízo, que não se comove com nada”. Vem aí o discurso bíblico. Eva é duramente criticada. É a mulher que faz Adão comer o fruto proibido. Não poderia ter sido o contrário?. Não é tantas vezes o homem que proíbe a mulher de ser Mulher? Não é o machismo de nossa sociedade que segrega a mulher a um lugar escondido, que lhe dá os menores salários, que a coloca como culpada em casos de estupros por que estava usando uma roupa, digamos, um pouco mais sensual?

“Cruel e refinada/ que não merece ir pro céu, uma vilã de novela”. Não merecer ir por céu, há aí uma crítica à religiosidade exagerada, ao excesso do pecado, e a tradição que coloca a mulher como necessária em ter pudor e ser comedida, o seu lugar é o céu. A vilã de novela, na maioria das vezes é mulher mesmo, e é sempre excêntrica, com os desejos mais sórdidos. “Mas bela, e até mesmo culta/ Estranha, com tantos amigos/ e amada, bem vestida e respeitada”. Como é possível a mulher ser tudo isso? Como é possível a mulher ter um dia exaustivo de trabalho, cuidar dos filhos e ainda estar bela para o marido à noite? Como é possível ser estudada, ler bons livros, ter um repertório cultural de bom nível? Às vezes ela é estranha: “hoje não quero gozar”. Às vezes nem sabe. Algumas vezes é amada, e em outras tem que estar bem vestida, por que senão… Respeitada! É o que todas desejam. Poucas são.

“Aqui entre nós/ melhor que ser boazinha é não poder ser imitada”. A identidade da mulher! Até que enfim! Quem é ela? Quem é a mulher do final do século XX e agora do século XXI. Uma mulher que não se imita. Que é única. Persona non grata. Essa expressão latina quer dizer de uma pessoa que não é bem-vinda, que causa estranhamentos. Essa é a mulher. O estranhamento de ser feliz, livre, de ter possibilidades e poder escolher! Não mais submissa ao seu marido. Não ser imitada é ser quem se é, por que se quer. Com Martha Medeiros refletimos questões complexas de um jeito leve. Leia você também. Tire suas conclusões. Para mim o poema aqui tratado é salmo para todas aquelas que querem se conhecer!

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