É certo que a literatura com temática gay é um tema propício para discussão. Até pouco tempo bastante negada pelos clássicos literários, ou então quando se abordava a questão a obra caía na crítica negativa. Até hoje, mesmo na literatura e na teledramaturgia ou no cinema ainda se dá preferência para os casais heterossexuais ou, muitas vezes, o gay é representado como figura caricata com deboche e sarcasmo.

Em outros momentos a expressão da questão homossexual é tema para materiais com forte conotação erótica e até mesmo pornográfica. Talvez o primeiro romance com temática assim que eu tenha lido foi “A Confissão de Lúcio”, do português Mário de Sá-Carneiro. Depois tive o prazer de ler o livro “O Terceiro Travesseiro”, do autor Nelson Carvalho que é diga-se de passagem um tanto excêntrico, picante, mas que aborda a questão com necessidade e urgência para a época em que foi escrita, sobretudo quando se fala da dúvida, do desejo negado e ao mesmo tempo vivido, da dificuldade do homossexual em se assumir.

Recentemente tive contato com o conto “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu que está no livro “Morangos Mofados”. Adorei o conto. A sensualidade é posta à prova. Pode-se excitar-se o tempo todo com a escrita, mas sem ser algo vulgar ou banal. Ao mesmo tempo, o conto coloca o sofrimento de jovens e adultos homossexuais no tempo da ditadura (mesmo sem mencioná-la diretamente) e ainda o preconceito quando Raul e Saul – colegas de trabalho – são mandados embora da firma em que trabalham por se amarem (o amor entre dois homens).

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O fato é esse colocar acima de tudo “o amor entre dois homens”, pois “qualquer maneira de amor vale a pena” e o amor é o sentimento sem sexo, gênero, idade e para alguns “não ousa dizer o nome”.

No artigo do professor Antônio de Pádua Dias da Silva da Universidade Estadual da Paraíba, intitulado: “A história da literatura brasileira e a literatura gay: aspectos estéticos e políticos” fiquei conhecendo que o mais provável é que a obra “Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha, publicada em 1895 tenha sido a pioneira em abordar a relação entre dois homens. O artigo traz apontamentos importantes inclusive sobre a questão da denominação de literatura homossexual, homoerótica ou gay, sendo que optei no título deste artigo pela denominação “gay” por englobar o viés político. O importante é falar sobre os relacionamentos que fogem do padrão heteronormativo.

O livro “Morangos Mofados” não trata somente desta questão. Tem diversos contos e os que mais chamaram a atenção para mim é o já citado “Aqueles Dois” e “Sargento Garcia”. Se naquele era bem evidenciado o sentimento e o envolvimento não só sexual, neste já se tem mais a carga erótica, o que não perde o seu valor pelo fato de o homossexual ter também que lidar com seus desejos, suas vontades e que quase sempre isso acaba por ser negado e ter que ser negligenciado e escondido da sociedade.

A literatura gay tanto nos “Morangos Mofados” quanto em tantos outros cumpre o seu papel se bem trabalhada e articulada. Já anotei diversos títulos constantes na bibliografia do professor Antônio, aos quais quero ter acesso e fazer a leitura.

Por fim, concluo que o espaço de inserção não só do sujeito gay, mas da própria apropriação, incorporação e registro da homossexualidade como uma expressão sadia da sexualidade pela literatura tem acalentado o meu coração e pode acalentar o coração de muitos. A literatura com suas funções estéticas, catárticas, mas também político-social é uma ferramenta para o combate da exclusão, da segregação e do dizer aberto e franco de uma forma poética, mas também realista e que coloque sentimento e amor e não só erotização do sujeito gay como é muito feito na mídia.

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