Como pensar no exercício da arte literária e da dramaturgia no movimento do conceito de “sociedade do espetáculo”? O que é preciso pensar e refletir sobre os “produtos culturais” (livros, peças de teatro, novelas, filmes, minisséries…) quando feitos com o principal objetivo de gerar consumo? O texto é feito como uma entrevista, com perguntas e respostas, só que sem nenhum entrevistado, sou eu mesmo Danilo Vizibeli, que respondo as questões.

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O que é a sociedade do espetáculo?

A sociedade do espetáculo é um conceito que surge e ganha força no final dos anos 1960, mais precisamente em 1967, com a publicação homônima de Guy Debord, numa análise marxista sobre a (s) sociedade (s) modernas. Está diretamente ligado ao consumo e se refere aos laços sociais que se organizam por meio da linguagem excêntrica, trabalhando e inculcando desejos e valores, fomentando as emoções humanas para o êxtase, a curiosidade e o desejo de controle e vigilância sobre tudo e todos, expondo a tudo e todos, por meio de dispositivos de comunicação.

Como o conceito conseguiu chegar à literatura e à dramaturgia?

Como tanto a Literatura quanto a Dramaturgia são também elementos de comunicação, não ficaram imunes à espetacularização. Na Literatura, isso se deu a partir do aquecimento do mercado editorial com o avanço das tecnologias da imprensa, e mais recentemente com o desenvolvimento de livros digitais, que passou a produzir obras vendáveis, com alta lucratividade e que muitas vezes antes de serem produzidas buscam, por meio de pesquisas de mercado, trazer do leitor e do consumidor seus desejos mais íntimos, suas fantasias, suas elucubrações. Na Dramaturgia, está muito ligada com a formação de novos atores e com a ebulição de padrões estéticos voltados para os corpos perfeitos e a plasticidade da figura humana.

Mas, todo livro não é feito, realmente, para vender?

A partir do momento em que a produção de bens culturais se intensificou, se industrializou e se massificou é realmente fato notório que as pessoas passaram a consumir este tipo de produto o que gera receitas e lucros. Porém, uma obra literária não tem como único objetivo a sua comercialização. Vai muito além disso. Walter Benjamin e os estudiosos da Escola de Frankfurt chama de aura, o caráter único e singular de cada produção artística. Esta aura tem se perdido cada vez mais. O fato não é produzir o livro para ele ser vendido. Mas produzir o seu enredo para ser vendido, consumido e depois esquecido. Por exemplo, estou pensando comigo o que eu vou fazer com meus exemplares da saga Crepúsculo. Ler novamente, eu não vou mais. Se eu doar para uma biblioteca, corre o risco de ele ser esquecido nas prateleiras. Porque ninguém mais se interessa por este enredo. Já deu. Já foi. Já teve seu momento, passou. E agora surgem outros e outros produtos para a venda, como é o caso do 50 tons de cinza e Como eu era antes de você. Amanhã serão novos e mais novos produtos que vão caindo no esquecimento. Agora pergunto, quem já se esqueceu de Capitu, de Machado de Assis? Quem se esqueceu de Gregor Samsa e sua metamorfose em barata? Quem esqueceu Os Três Mosqueteiros? Essas obras foram vendidas e vendáveis? Foram sim (e muitas ainda são). Mas a preocupação de sua produção não foi só por isso. O objetivo da verdadeira obra literária é outro. As obras vendáveis da contemporaneidade tem muita ligação com o efêmero e o rápido proporcionado pelas tecnologias, pelas redes sociais e pela internet. Muitas vezes na internet a gente lê determinado assunto e quando procura novamente ele já não está mais ali. Não sou contra as tecnologias, mas a forma de registro é muito complexa.

O que é de fato o espetáculo e como ele está presente na dramaturgia?

O espetáculo é definido dicionaristicamente como aquilo que chama a atenção e prende seu espectador. Numa certa media o espetáculo é extremamente importante e produtivo. Veja por exemplo, o circo. Até bem pouco tempo ele era talvez o único produto cultural que a grande massa tinha acesso. O problema é quando o espetáculo se torna o único meio de entretenimento e diversão e quando ele é usado somente para isso. Transformar tudo em espetáculo é um grande risco que corremos em deixar de dar valor às pequenas coisas da vida, às sutilezas. Nosso dia a dia, por exemplo, não é feito de espetáculo. Acordamos, tomamos café, vamos trabalhar e assim todos os dias… As pessoas já têm perdido muito o bom o senso, a cortesia, a finesse. Falam o que querem. Dizem que o outro está gordo na cara dura. Já escrevi sobre isso há um tempo. Num texto que falo que quando você perceber algo de diferente em alguém não comente. Na tela da TV no meio deste povo, é sempre tudo exposto, tudo mostrado que eu quero mostrar no dia a dia também. Vivemos o tempo da exposição, da falta de privacidade. E aí, neste ponto o espetáculo é totalmente contraproducente. Na dramaturgia e, principalmente, na teledramaturgia o espetáculo joga com o jogo de imagens. Com câmeras cada vez mais equipadas, o desenvolvimento da TV digital, aparelhos de áudio e luzes (para citar o caso do Teatro) promovem a mostra dos corpos nus. O espetáculo é portanto uma repetição de roteiro, temas e sequências e parece que o consumidor está cada vez mais inferior intelectualmente (para não dizer burro) porque ele assiste sempre o mesmo roteiro, mas porque mudam luzes, cores, sombras, ângulos etc… ele vive na ilusão de estar sempre diante de um novo espetáculo.

Para finalizar, seria necessário associar melhor a literatura, a dramaturgia e o espetáculo…

Como sou um pesquisador que trabalha com as práticas de leitura e a literatura no mundo virtual e digital, estou sempre pensando na formação de leitores e no processo de apropriação da leitura. Hoje lê-se muito mais, mas a capacidade interpretativa está cada vez mais aquém. Assim é preciso pensar numa tentativa de desacelerar os processos, a velocidade da informação que temos hoje. Acredito que o professor é uma peça chave. Quando ele lê e passa suas leituras para o aluno ele contribui para esta “desespetacularização” da literatura, da dramaturgia e das artes. O problema não é nem o vazio provocado pelas “obras” vendáveis, mas a falta de debate sobre elas. Nisso a internet pode e tem contribuído bastante, ao promover grupos de discussão. Nessa associação de literatura, dramaturgia e espetáculo é preciso pensar e levar em conta a criticidade e a formação crítica, pois um leitor seletivo saberá escolher e também dar o destino correto a uma obra vendável ou não.

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