Famoso e conhecido, da autoria de Carlos Drummond de Andrade, o que poderia nos representar o poema “Sentimento do Mundo”, nos dias de hoje? E será que nosso mundo lá tem sentimento(s)? Pode-se dizer mais em o sentimento do mudo, do que do mundo. Aquele que tenta falar, mas não emite som algum.

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo” – que poeta besta, meu Deus! Só para parafraseá-lo. De besta nosso querido Drummond não tinha nada. Mesmo que não haja ser humano com três mãos, a representatividade ao dizer que se tem apenas duas, muita coisa não se pode fazer… Quantos e quantos braços e mãos são necessários para erguer uma ponte, uma casa, construir um carro? E o ser humano ingrato e insensível, com apenas duas mãos, pequeno e medíocre, quer ainda se emparelhar num pedestal de arrogância. O sentimento do mundo que o poeta tem é o choro que todos passavam na Segunda Guerra Mundial, mas o sentimento do mundo de hoje é de não só uma, mas de várias guerras: civis, contra direitos humanos, preconceitos, misoginia, fome, e por aí vai…

“Mas o corpo transige na confluência do amor”. É a única esperança que resta, ah! o amor! E o que é a confluência? A junção de dois rios. A junção, aqui, de dois corpos, nus, voluptuosos a arder de paixão e a se encaixarem.

E quando o poeta se levanta, pois foi derrotado, ou estava acuado para não ser massacrado na Guerra, quando ele se levanta, tudo já é destruição e caos. “Os camaradas não disseram que havia uma guerra”. Ah! Como essa palavra – camarada – é usada sarcasticamente! Porque no popular é aquele com quem temos mais afinidade, coleguismo, o bon vivant que paga a birita no bar para o companheiro; mas aqui o nosso sentimento do mundo mostra esse sujeito vil e pérfido a espreitar quem ele traz para a Guerra ou a guerra: a ganância, a cobiça, o dinheiro, o ouro, o poder, a dominação.

Memórias mais sublimes são desatadas após os corpos passarem – “da viúva, do sineiro e do microscopista”. O que é um microscopista? Seria aquele técnico de laboratório que examina os mais minúsculos seres? Creio que sim. Pois se o microscópio é o instrumento para enxergar objetos ou seres minúsculos, o microscopista é aquele que o usa. Mas e o sineiro? Já o sineiro trabalha com o címbalo, com o ruído, a reverberação e a viúva com a saudade e a nostalgia e, ao mesmo tempo, com o gosto do pecado de não ter feito o que queria fazer. E suas memórias: o índice (o microscopista com os rastros de suas pequenas criaturas), o símbolo (com a viúva e suas lembranças, fantasias e imaginações) e o ícone (com o sino a marcar e entronizar – os nascimentos e as mortes).

Porém, “esse amanhecer mais noite que a noite”. Aqui, me faz lembrar outro poeta que dizia: “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou…” Tá difícil minha gente, todo dia quando acordamos queremos luz e vemos luz, temos esperança, temos desejo do melhor… Mas ao passar das horas, o céu escurece e a tempestade chega… Cada notícia, uma bomba; cada acontecimento, uma guerra, pólvora, fogo e trovão a dilacerar o mundo. Por isso como ainda intitular meu texto como “Sentimento do Mundo”? O poeta Drummond esse sim podia fazê-lo, pois ele viveu o(s) Sentimento(s) do mundo. Eu não. E por isso prefiro dizer o “sentimento do mudo” e ficar e estar (sempre) mudo, para novamente parafrasear Drumondinho (posso assim chamá-lo, pois é meu amigo íntimo): “sei que estarei mudo mais nada”. Mas eita, hoje eu tô para uma paráfrase hein! Por hoje é só, quem sabe amanhã a polissemia me apareça!

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