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Era meu desejo, desde há muito tempo, ler “Confissões”, de Santo Agostinho. Neste ano, consegui realizar a leitura da obra que pode parecer difícil, mas é de uma grandeza enorme. Não poderia deixar de rasurar algumas linhas sobre o que li, vivi e aprendi e talvez entendi da filosofia agostiniana. Quem foi, onde viveu, qual seu legado?

Conhecido como Santo Agostinho, ou Agostinho de Hipona, este doutor da Igreja Católica nasceu em 13 de novembro de 354, em Tagaste, hoje Souk-Ahrás na Argélia, África do Norte. Foi em Hipona que se tornou sacerdote e bispo desta localidade, marcada pela pobreza. Foi casado e teve um filho, antes de se converter totalmente ao Cristianismo e ao Catolicismo. Vivia inquietamente e somente em uma tarde de silenciamento e, talvez oração, num jardim, ouviu um chamado dizendo “Toma e lê”, onde descobriu as Cartas de São Paulo, leu-as e descobriu que é no seguimento de Cristo e não nos prazeres do mundo que se encontra a Vida Eterna.

Escreveu muita coisa, pois achava que orar e escrever era aquilo que o preenchia. Entre suas obras duas se destacam mais pela grandiosidade e também pela popularidade dentre os interessados nos assuntos da Católica e assuntos de fé e filosofia. São elas “A Cidade de Deus”, que representa a primeira tentativa de fazer uma interpretação cristã da história, e “As Confissões”, onde Agostinho manifesta sua fraqueza, que gera o mal, e a Deus, fonte de todo bem e Verdade absoluta. Segundo o site da Ordem dos Agostinianos no Brasil: “as ‘Confissões’ são um louvor à Graça de Deus. A obra e o pensamento de Agostinho ultrapassam os limites de sua época e exercem uma grande influência na Idade Média e também na nossa época. A influência de Agostinho acontece nos diversos campos do pensamento, da cultura e da vida religiosa. Agostinho morreu no dia 28 de agosto do ano 430 e seus restos, depois de longa peregrinação descansam na cidade de Pavia, no norte da Itália”.

Na introdução da edição que eu li, a 28ª da Editora Vozes e Editora Universitária São Francisco, intitulada “As confissões: uma caminhada da libertação”, escrita por Emmanuel Carneiro Leão, em 1987, podemos perceber que a filosofia de Agostinho se preocupa com a liberdade, a verdadeira liberdade em Cristo: “A liberdade só se dá como conquista, a liberdade só existe como empenho de libertação, a liberdade só se presenteia no e como desprendimento da verdade” (p.23). “A liberdade nunca é uma propriedade do homem” (p.23).

O livro “Confissões” é dividido em duas partes. A primeira contém 9 livros: A infância; Os pecados da adolescência; Os estudos; O professor; Em Roma e em Milão; Entre amigos; A caminho de Deus; A conversão; O batismo. A segunda contém 4 livros: O encontro de Deus; O homem e o tempo; A criação; A paz.

Logo no início, o objetivo de se confessar: “Louvarão o Senhor aqueles que o buscarem” (Sl 21, 27). No primeiro momento está uma descrição de sua vida, do seu processo de conversão e das orações de sua mãe Santa Mônica, que orou piedosamente pela sua conversão.

“Alguém pode ser artífice de si mesmo?”, nos pergunta. Pesquisando as acepções de dicionário para a palavra artífice, creio que o autor lhe atribui o significado de “criador”, visto que em sua originalidade artífice se associa a artesão, obreiro. O tema da criação é constantemente presente em “Confissões”, sendo um dos livros dedicado a ele, na segunda parte. A pequenez do ser-humano deve ser evidenciada, quando há Deus, superior a todos nós, que nos criou.

O homem busca os prazeres e acha ingenuamente que se pode preencher-se por eles e através deles. “Que há de mais digno vitupério do que o vício?”, pergunta novamente. “Amamos, portanto, as lágrimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraza ser desgraçado, apraz-nos contudo o ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor?” (p.64). Mas é através da oração, que encerra a ânsia de chegar até Deus, que Agostinho se confessa e nós também devemos nos confessar. O gênero confissão é muito comum na literatura. A escrita também tem esse papel de deixar a alma transbordar em si numa escrita de si (Cf. Foucault).

De tudo, “Confissões” encerra a síntese da Filosofia de Santo Agostinho que é: “Que me conheço a mim, que te conheço a ti, Deus”. Portanto está em acordo com toda a dinâmica da fé, da esperança e da caridade: conhecer a nós mesmos, para que através do nosso esclarecimento busquemos amar nossos irmãos como a nós mesmos e assim conheceremos a Deus. Por isso para o Bispo de Hipona, “a memória é como ventre da alma”, é nela que se registram as reminiscências de nossa alma. Contudo, esta, a alma sofre quatro principais perturbações: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza, que são vivenciadas e consubstanciadas pela trindade universal: existir, conhecer e querer que se resume na trindade Católica Cristã: Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. A nossa consciência, a nossa mente, a nossa alma, enfim, o nosso Espírito eterno Confessa e em Jesus aprendemos: “Espera no Senhor!”
Referência Bibliográfica:

HIPONA, Agostinho de. Confissões. Trad. J. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 28. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2015.

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