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Este texto tem por objetivo analisar o conceito de “erótica” ou “erotismo” no que diz respeito ao texto literário, a partir da obra de Roland Barthes “O prazer do texto” (1987), fazendo-lhe uma resenha e ao mesmo tempo problematizando a questão do texto e a sinestesia dos sentidos envolvidos na interpretação. Pode um texto ser erótico e não pornográfico? Há formas de dizer certas coisas que, em um primeiro momento, são consideradas proibidas, mas que trabalhadas no jogo da linguagem seduzem, eriçam os pelos da pele sem parecer grosseria, obscenidade e vulgaridade? A partir de uma leitura crítica, comum ao gênero resenha, pode-se perceber que o jogo com a sexualidade e os prazeres instintivos do homem, vistos não só como o lado das coisas positivas, em se tratando de moral, mas também o roubar, matar, mentir etc., estão sempre em circulação nas mais variadas esferas discursivas.

Nos tempos atuais, com a emergência da internet e seus dispositivos em rede, há uma exibição maior do sujeito em seus pensamentos da ordem do inconsciente, mas que a forma de falar, exibir, mostrar ou mesmo esconder, ainda mexem com a posição-sujeito e implicam na atuação e revelação de uma das funções do sujeito que é a função-autor (Cf. Foucault, 2010). Assim, o prazer do texto reside onde não moram os sentidos e onde aparecem as palavras. O prazer do texto é uma construção no jogo da interação do autor, do leitor e das circunstâncias enviesadas pelo trabalho discursivo realizado pelo narrador.

É possível perceber que toda peça literária, seja ela um romance, uma novela, ou um filme no cinema, mesmo que não tragam cenas de sexo explícito, mas, se apresentam alguma situação de erotismo, de mexer com o prazer da carne, suscitam no leitor a curiosidade, o fetiche e a explosão de sentidos de que há algo proibido ou que não é proibido, mas é segregado. O desejo está no texto, assim como está na vida. Para Barthes a prova maior de que um texto é escrito no entremeio do desejo, da erótica e da sedução da palavra é quando o leitor sente nas palavras que elas lhe voltam, ou nas palavras do autor, que elas lhe desejam. Nessa concepção, ao mesmo tempo que essas sensações são sinestesicamente experimentadas pelo leitor é porque elas foram vivenciadas pelo autor. Não naquele momento em que se escreve, mas em momentos de êxtase da sua vida de prazer.

No auge da indústria pornográfica e de uma liberação sexual vertiginosa, o trabalho com o corpo se despe de amarras e no uso do sexo (aqui entendido como o órgão sexual ou partes corporais íntimas) explícito, perde-se a sombra do desejo, a entrelinha, a cortina fechada de seda pela qual se olha a moça nua tomando banho, tudo é escancarado e mostrado. Corpos malhados, roupas apertadas, fotos sensuais são postadas nas redes sociais. Porém, para Barhes (1987), “o lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre? Na perversão (que é o regime do prazer textual) não há “zonas erógenas” (expressão aliás bastante importuna); é a intermitência, como o disse muito bem a psicanálise, que é erótica: a da pele que cintila entre duas peças (as calças e a malha), entre duas bordas (a camisa entreaberta, a luva e a manga); é
essa cintilação mesma que seduz, ou ainda: a encenação de um aparecimento-desaparecimento”.

É possível perceber que este êxtase experimentado na leitura do texto erótico, ao mesmo tempo que são palavras que parecem proibidas, são também não proibidas e livres para propiciar o gozo. Que homem não ficaria excitado, não teria uma ereção, ao ler palavras bem trabalhadas, conduzidas no entremeio dos scripts da relação sexual, amorosa, afetiva que lhe faz pegar a mão e fazer com ela o que faria na conjunção carnal?

É nessa escrita que a arte literária rompe com os paradigmas da proibição, da interdição e da censura, e num jogo polissêmico instaura pelos textos, as atividades da vida, a experimentação pela palavra das categorias de representação e figurativização, que bem trabalhadas pelo autor causam esse torpor como se ali estivesse acontecendo a cena, o fato narrado.

Nessa perspectiva, se o texto causa no leitor o prazer é porque ao mesmo tempo o jogo literário foi exercido no prazer. É assim que Barthes (1987) diz que “se leio com prazer esta frase, esta história ou esta palavra, é porque foram escritas no prazer”. Mas este prazer não está no jogo da carne e dos instintos sexuais. Mesmo nas palavras tímidas, pueris e ingênuas é possível ter esse êxtase, quando se lê e se sente identificado com o texto. É o que conclui Barthes (1987): “entretanto o lugar do prazer numa teoria do texto não é certo. Simplesmente, chega um dia em que se sente alguma urgência em desparafusar um pouco a teoria, em deslocar o discurso, o idioleto que se repete, toma consistência, em lhe dar a sacudida de uma questão”.

Que no exercício das artes literárias, possa ser buscado a cada dia o prazer do texto, o prazer da escrita. Que as fronteiras daquilo que é proibido e daquilo que não é, fiquem cada dia mais tênues. Assim como diria Foucault, “que sejamos livres quando se trata de escrever”.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987.

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