caminho

Iria colocar o título da seguinte forma: “Linguagem única” ou “Uma linguagem única”. Redundância demais, não acham? A linguagem é a faculdade humana de comunicação que é exercida ao mesmo tempo em que o animal racional, que é o homem, é o único capaz de atribuir sentido e simbolizar suas relações, ações, sentimentos, por meio de palavras e/ou símbolos, imagens, sons, utilizando os cinco sentidos.

O que apresento aqui parte de outra reflexão que iniciei, porém não consegui concluir, de um verso da Cecília Meireles, que diz “Tu és o de todos os caminhos”. É possível ser o de todos os caminhos, como propõe a autora? É claro que para abstrair o sentido do poema no todo, seria preciso trazer o texto completo. Concluí que todo poema pode ser uma oração. Uma prece. Pois, por meio das palavras do poeta é possível refletir e elevar à espiritualidade o sentido nosso daquele momento revertido nas palavras e nas experiências do autor-poeta, ou do autor-pessoa, em mim. Foi assim que comecei a pensar no conceito de “reverso literário”. Aquilo que o verso enuncia, provoca em mim um reverso que me faz interpretar, e agir, sublimar, imaginar e orar. Assim, fiquei orando o verso: “Tu és o de todos os caminhos”. Veio em momento de profunda provação da fé e da busca pela espiritualidade profunda.

A linguagem como faculdade humana, como falei no início do texto, é vasta e geral. Mas há certas linguagens que se esboçam em particularidades que definem a linguagem da música, do cinema, da matemática… Mas qual a redundância então quando digo “Uma linguagem única”? É que estruturada nessa forma de um sistema semiótico, ou seja, um sistema de signos (e símbolos) de uma dada esfera de circulação social, a linguagem (ou as linguagens) é única. Em qualquer canto do planeta em que se evocar determinada esfera, se fará uso da linguagem específica dela, ou seja, da linguagem única.

O que percebo e o que me intrigou ao rezar “Tu és o de todos os caminhos”, é que algumas crenças, algumas atividades humanas, alguns sentimentos não se organizam em uma linguagem única. Confundem e misturam linguagens e códigos. Ao mesmo tempo, os seres desta dada linguagem não absorvem seu vocabulário, não absorvem suas regras gramaticais, sintáticas, ortográficas e não conferem uma escrita coesa e coerente utilizando-se da mesma linguagem, a linguagem única, ou simplesmente: uma linguagem.

Qual é a minha linguagem? Consigo me expressar, consigo sentir, consigo me unir e unificar-se e ser unificado num todo comunicativo? Quanto aos caminhos que de todos eu sou, são sim nos apresentados em nossa rota terrestre diversos caminhos, porém quando eu decido por uma linguagem, só há um caminho. É o que acontece com o Cristianismo. Um só caminho. Não preciso passar por todos os existentes. E aqueles que professem a fé-cristã, saberão que não há divergências, por mais que hajam convicções pessoais ou particularismos, pois é uma só linguagem.