“Que coisa?”, perguntaríamos à Clarice Lispector e, certamente, ela responderia: “A Coisa, simplesmente”. A literatura de Clarice Lispector foi um eterno escrito sobre a Coisa. Mas que coisa é essa, meu Deus? Ao lermos a obra, percebemos que é a coisa humana. Um mergulho profundo na alma humana, colocando-a do avesso, mexendo com suas estruturas e debulhando o inconsciente. Como Clarice dizia que “escrevo para dentro”, quando nos deparamos com seus escritos, vemos uma alma em transbordamento.

A introspecção e o caos. O estranhamento. Suas obras sempre trazem uma personagem feminina no foco: Joana, de Perto do Coração Selvagem, Macabea, de A Hora da Estrela, Virginia, de O Lustre e tantas outras. Até hoje, li por inteiro Perto do Coração Selvagem, que é o romance de estreia de Clarice e A Hora da Estrela. Entre os dois fico com o último. Será que é porque nele a autora aborda a questão social e os outros são mais psicológicos ainda?

Terminei de ler recentemente a coletânea Clarice na Cabeceira – Romances, que é um resumão de todos ou quase todos de seus romances. Logo me encantei em estudar esta confusa obra de Lispector. Assisti a um vídeo, uma entrevista que ela deu a TV Cultura em 1977, mesmo ano em que viera a falecer. Com este vídeo fiquei mais tranquilo, pois nele Clarice diz que é chamada de hermética, que escreve uma literatura que tem várias críticas. Uns gostam, outros não. Comenta que, por exemplo, um professor de literatura leu sua obra e disse que não entendeu nada e uma garota de 17 anos tem como livro de cabeceira A paixão segundo G. H, leu e adorou. “Ou seja”, diz Clarice, “toca ou não toca”.

Não sei o que sinto por seus livros. Sei que me tocam sim. Pois me deixam intrigado. Lembro até de algumas palavras, como no final de A Hora da Estrela: “Viver é luxo!” E logo ela acrescenta que morrer acontece e que morta Macabea o autor, que sabemos é Rodrigo S. M., também estava morto e pede para nós não nos espantarmos. Uma reflexão interessante sobre ser a hora da estrela, a hora da nossa epifania, em que ganhamos o Oscar da Vida.

Uma literatura que trabalha com a miudeza das palavras. Que não é pra ser lida só uma vez. É pra ser lida, relida, estudada debatida: “Oh fulano, o que você percebeu nesse trecho aqui?” “Ah, eu percebi isso, mas pensando no que você falou podemos pensar assim também”. Que coisa maravilhosa, encantar-se, deleitar-se com a Coisa.

Voltemos então, ao propósito desse texto: a literatura clariceana está em busca da Coisa! Que coisa, meu Deus? Coisa que todos nós buscamos. Não quero ser analista do discurso aqui e dizer que essa coisa que buscamos é a completude, sempre quimérica. Não há como negar também que a coisa que buscamos é o sexo: a vagina ou o pênis, o suprir do gozo do êxtase. Mas a coisa que buscamos também é o nascer e o morrer, o princípio e o fim. A origem e a conclusão daquilo que somos. É vaguear, é devanear? Sim, por que não?

Que essa coisa então nos possua! Não seria melhor, então, que pudéssemos possuir a coisa? Sim! Mas nem sempre isso é possível, pois somos colocados à mercê dos desejos, somos suprimidos por aquilo que é a regra, o convencional, o cabresto. Por exemplo, me deu vontade de gritar agora: posso? Não! O lugar não permite. Mas eu grito: eu quero essa Coisa! Eu quero viver! Eu quero morrer! Coisa!

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