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Já é de algum tempo que as redes sociais e a consequente exposição da intimidade vem me chamando a atenção. Sempre fui sociável e acreditava que a comunicação pela internet é uma forma de aproximação entre as pessoas. Esta tese já caiu em descrédito para mim e a cada dia se confirma mais o seu oposto. A comunicação pela internet afasta as pessoas.

Como disse, era e ainda sou bem favorável às redes sociais. Mas não sou nenhum fanático. Tenho Facebook, Twitter, Whatsapp, Linkedin, Google +, Blog na plataforma WordPress e Canal no YouTube. Sim são muitas redes sociais, mas se contar ainda pessoas que não se desligam de Instagram e Snapchat, por exemplo, essas duas últimas jamais chamaram a minha atenção.

Já tem um bom tempo que venho tentando diminuir o uso do Facebook ou até eliminar o uso dele de vez. Primeiramente, passei a fazer uma diminuição de postagens, colocando apenas conteúdos instrutivos relacionados com meu blog e meu canal. Porém, nos últimos meses têm me incomodado muito a diluição e provavelmente o extermínio do “íntimus”.

Hoje me peguei pensando: por que eu tenho que expor a minha intimidade e, mesmo se não a exponho, tenho que estar em contato com a intimidade de outras pessoas a todo tempo exposta? É um tal de vou almoçar: olha como está o almoço hoje (e foto)! Estou de férias tenho que postar as melhores fotos da praia. Ficamos sabendo o tempo todo da vida alheia e muito pouco da nossa própria vida. Defendo que nem todas as redes têm tanto poder de diluir ou acabar com o íntimus como o Facebook. O Twitter, por exemplo, também tem sempre as pessoas que gostam de postar uma fotinha ou outra sobre suas vidas, mas geralmente o objetivo desta rede é mais divulgar as informações do que os frus frus da vida das pessoas.

O tempo todo a intimidade está exposta. Nessa intriga fui buscar o significado de íntimus que vem da origem da palavra intimidade e encontrei para esta, a seguinte definição: “Íntimo, do latim intimus, diz-se daquilo que pertence ou que é relativo à intimidade. Este conceito refere-se à zona abstrata que um indivíduo reserva para um grupo reduzido de pessoas, como a sua família e amigos. Apesar de a intimidade não ter limites precisos, pode dizer-se que contempla todos os atos e os sentimentos que se queiram manter fora do alcance do público”. Ou seja, quando ele diz que a intimidade se refere a uma zona abstrata, isso significa que ela não tem limites palpáveis ou tangenciáveis e que o sujeito em si é que lhe delimita as fronteiras. Por isso, sou eu quem defino o que eu quero expor da minha vida ou não.

O que acontece com o Facebook é que as pessoas passam a agir como se essa fronteira não mais existisse e que se pode e se deve postar tudo a todo momento. Quando a definição diz que a intimidade se refere a atos e sentimentos que se queiram manter fora do alcance do público é aí que surge um outro problema que é a definição do público e do privado que parece se remodelar hoje em dia. Porém, muitos teóricos como o polonês Zygmunt Bauman não veem tantos benefícios como muitos apregoam nessa necessidade sempre presente de exposição.

Foi por essa que desativei a conta do Face e se conseguir ficar os dois anos da escrita da minha tese de Doutorado sem acesso a essa porcaria, irei um dia entrar lá para retirar tudo que é foto e postagem e deletar o perfil de vez. Pois, quando apago as luzes para os outros, acendem-se as luzes para mim mesmo. Olho para mim, me ressignifico e posso me conhecer melhor para buscar me entrosar e desenvolver um relacionamento real e íntimus com alguém e não relacionamentos superficiais, frios e sem conteúdo por meio de ver o que o outro comeu no almoço ou onde e como estão suas férias.

Daqui um tempo fazer amor será por postagens de fotos de cada posição erótica que se encaixa uma na outra pelas fotos postadas no Facebook. E como o mundo já não anda tendo muita graça, passará a ter menos graça ainda. Acredito que é um contexto quase impossível de reverter. Quando passo a lutar contra isso, entretanto, pelo menos dentro da minha esfera pessoal, estou marcando uma luta e uma posição histórica, social e ideológica que vai contra os imperativos que forçam a sociedade a tomar caminhos que depois tem consequências culturais e antropológicas, mas que pouco contribuem para o enriquecimento intelectual e a evolução social, espiritual, psiclógica, biológica e todas as evoluções possíveis e imagináveis do ser humano, que é um ser criado em sua essência no íntimus do útero materno, que com as novas tecnologias já nem é tão íntimus assim mais, pois tenta-se enxergar cada cavidade uterina que é possível e desde mesmo antes de dar o grito do nascimento já se é exposto. O quanto puder voltar ao íntimus eu voltarei. E você? Acho assim a vida mais saborosa, mais desfrutável.

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