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Vendo os temas de redação em produção para o preparo de vestibulares, tenho contato com um tema que traz a pergunta: “Escravizar é humano? ” Passada algumas semanas, me ponho a ler a obra “Cachorro velho”, da autora cubana Teresa Cárdenas, que é leitura recomendada para o vestibular de 2017 da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Primeiramente, quem é Teresa Cárdenas? Muito pouco se sabe desta autora negra, descendente de escravos e que ganhou vários prêmios latino-americanos de Literatura.

O título – Cachorro velho – é formado por um substantivo e por um adjetivo pejorativo. Velho é aquilo que não mais presta para nada. Cachorro velho então… Sabemos que os cães morrem cedo. Vivem uma média de 14 anos. Quando está velho, o animal adquire doenças, às vezes fica cego e já não é mais tão alegre e cheio de energia como quando era jovem.

Cachorro velho é o nome do personagem principal, o que no Brasil seria chamado de um preto velho e lá em Cuba é chamado de taita, assim como temos o Pai José, Pai Sebastião dos antigos escravos quando ficavam velhos e não tinham mais utilidade dentro da produção do seu patrão. Na obra de Cárdenas, não se sabe o nome exato, de batismo, de Cachorro velho e nem quem era sua mãe. Vê se que esta questão da identidade e das origens do negro é um tema que abre para o diálogo e para a recuperação da memória de um povo que foi tratado como bicho. As mulheres de taita, as crendices, o sofrimento na carne, tudo isso guarda bastante comparação com a escravidão no Brasil. Os quilombos e a fuga ao final levando uma menina chamada Aísa… Como um Cachorro velho, o escravo já velho e cansado fica pelo caminho. Assim como ficaram pelo caminho as tristezas e sofrimentos dos escravos e dos negros no Brasil e em todo mundo.

Mais uma vez a UEMG traz a questão do negro – como fez com “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo, no ano passado. Dessa vez chama a atenção para a escrita como uma forma de registro da lembrança, do resgate, e do marco antropológico deste povo firmado na cultura das letras, de alguém que tem referência com o tema, como é o caso de Teresa Cárdenas. E mais do que denuncia, é exploração dos sentidos por meio das palavras, das metáforas, sinestesias presentes no texto que fazem com que o leitor mergulhe num universo desconhecido e ao mesmo tempo com a pergunta: o que resta para um escravo velho e como lhe chega a sua história? O que ele conhece? Quem é ele? O uso de um apelido ao longo de toda a narrativa (que é bem curta) negando-lhe o nome próprio, marca esse apagamento de sujeitos históricos e humanos no seio de uma sociedade com poder de colocar a matéria acima do espírito, o poder e a ganância acima da fraternidade. Só que todo sujeito tem alma, e no movimento universal de ligação de conceitos, desconstrução de preconceitos, busca e resgate de raízes e história, a luta jamais é apagada e não há poder maior que o poder popular… Mesmo que Cachorro velho é aquele que guarda a porteira, que fica à beira do caminho como um cão que ladra e avisa a chegada de inimigos ou amigos, é ele quem mostra que quando perguntamos “Escravizar é humano? ”, não é. Mas é criação do humano, que se desumanizou ou seria que caiu num ateísmo cético e não se deificou? Ou seja, entendido como bondade suprema ou força superior da natureza – Deus, Alá, Consciência cósmica universal – vários nomes para aquilo que não tem nome: o amor. Cachorro velho é amor! Por que se escravizar é do humano, mas não é humano, talvez o amor esteja faltando ao homem, que é, portanto, divino. Escravizar é humano? Não. E amar é humano, sim; e divino.

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