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Perguntaram-me: pode ser solicitado a redação de uma crônica no lugar da dissertação? A resposta é que sim. Ainda não tem acontecido muito, mas a cada dia as universidades em seus vestibulares atentam para o fato de que é preciso trabalhar os gêneros textuais com os quais o vestibulando tem contato ou até mesmo já pratica em seu dia a dia. É o que acontece com a crônica.

A crônica é um gênero literário e jornalístico que se caracteriza por contar assuntos do cotidiano (por isso crônica, de chronos, tempo) e que, ao mesmo tempo, gera uma reflexão. Um assunto até então banal pode virar um texto com problematizações, reflexões, que geram no leitor uma transformação ao lê-lo.

O livro “O acaso abre portas”, de Luís Giffoni é obra solicitada no Vestibular da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) 2017. Novamente, a universidade traz um livro de crônica. O ano passado foi “Crônicas para ler na escola”, de Zuenir Ventura.

Eu adoro escrever dissertações, mas me intriga o fato dos vestibulares cobrarem este gênero, sendo que no dia a dia ele não é muito praticado. A crônica, por sua vez, é mais trabalhada, como por exemplo mesmo quando contamos uma história a alguém, podemos dizer que estamos fazendo crônica.

Luís Giffoni é mineiro, tendência da UEMG de trazer sempre autores de sua terra. Ele é engenheiro, mas também fez literatura. “O acaso abre portas”, por quê? Luís Giffoni foi, por acaso, a um show em Los Angeles e a banda era desconhecia ainda. Ele foi meio que com o nariz torcido, iria ver uma banda que não conhecia e aquilo poderia ser uma experiência ruim. Mas se surpreendeu. A banda era a “The Doors” e Giffoni adorou e ficou com a música “Light my fire” marcada em sua trajetória. O acaso abre portas também no dia a dia, quando o acaso, acontecimentos inesperados, nos dá motivos para uma boa escrita.

No livro, o autor fala de tudo um pouco: turismo, tecnologia, comportamento… Fala muito de viagens, pois para ele, viajar é conhecer o outro, é se deparar com a alteridade. É um livro também metalinguístico (linguagem que se explica pela linguagem), pois descreve a aventura de escrever uma crônica. Abre o livro falando sobre o trabalho do cronista em “Miolos do ofício”, depois na sequência apresenta as crônicas de seu livro, cada uma com um tom de criticidade e sarcasmo reflexivo, digamos, que mostra o posicionamento autoral de Giffoni. Na crônica, podemos ter a primeira pessoa e o tom subjetivo e pessoal do autor. É um texto que marca a visão do autor sobre determinado assunto. Depois de apresentar diversas crônicas, fecha o livro com “O que é uma crônica?” E precisa de resposta? O próprio livro já nos mostra. É preciso ler o livro inteiro e degustá-lo para fazer uma boa prova do vestibular. Em “O acaso abre portas”, percebemos que devemos ter olhos atentos e aquele pensamento literário para interpretarmos nosso cotidiano e podermos dar sentido muitas vezes àquilo que aparente não tem sentido. Isso é a criticidade. É a reflexão de construir com as palavras um emaranhado de sentidos que simboliza porque somos seres de linguagem e que precisamos dela para concretizar em nós aquilo que vem da realidade e que precisa ser costurado no tecido da vida.