Começo o texto com a música “Balada do Louco”, dos Mutantes.

Dizem que sou louco por pensar assim

Se eu sou muito louco por eu ser feliz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon

Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar

Se eles rezam muito, eu já estou no céu

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim, sou muito louco, não vou me curar

Já não sou o único que encontrou a paz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz, eu sou feliz

A título de ilustração, a música faz uma crítica a uma sociedade perversa, alienada e pouco preocupada com os excluídos e que, pior ainda, exclui a cada dia mais sujeitos marcados sócio-histórico-ideologicamente que não atendem a padrões da sociedade capitalista, tradicionalista no embasamento judaico-cristão e fortemente (a)política.

No jogo da segregação de classes, etnias e diversas outras minorias, há um interesse subjacente no controle dos corpos e das mentes na circulação de saberes em entremeio a poderes, como nos mostra Foucault em toda sua obra e mais especificamente em “A história da loucura”.

Por isso, a música acima me faz refletir sobre o movimento da luta antimaniocomial que já é bem antigo – meados de 1987 – e que ainda precisa ser reconhecido. Já alcança resultados, como a diminuição dos leitos nos manicômios. A pessoa com transtornos mentais até bem pouco tempo passava a vida inteira institucionalizada nesses hospitais psiquiátricos, fora do contato com a família e em condições precárias. No passado, tratamentos um tanto torturosos, agressivos e com pouca evidência científica eram aplicados aos pacientes psiquiátricos, como já é sabido, os eletrochoques, lobotomias e tantos outros.

A pessoa intitulada como “louco” é no senso comum aquela pessoa que perdeu a razão. Para os estudiosos da saúde mental, o termo não se aplica, pois toda pessoa é passível de vir a desenvolver algum transtorno mental. A saúde da mente deve ser olhada como prioridade em uma sociedade em que se alteram hábitos e comportamentos e no auge da tecnologia, com o isolamento e a vivência de uma solidão na coletividade, aumentam-se a cada dia o número de distúrbios psiquiátricos. A síndrome do pânico, o transtorno bipolar ou até mesmo a esquizofrenia são no presente estudados com mais rigor, o que leva ao aumento no número de diagnósticos.

Aqueles que possuem na família pacientes nestas condições ou que vivenciaram propriamente a doença mental, sabem da necessidade do cuidado e principalmente da orientação da família, pois é ela quem vai colaborar para o sucesso do tratamento. Todo transtorno mental, mesmo que não tenha cura, tem controle e a socialização pode ser melhorada e para usar os clichês do “louco”, a pessoa pode vir a ter uma vida “normal”.

Em minha cidade, conheço o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e CAPS AD (mesma designação para dependentes de álcool e drogas). É um esforço conjunto com atividades diversas como coral, arteterapia, terapia ocupacional, filosofias e correntes científicas que ajudam no tratamento do paciente.

Voltando à questão da família, o nível de desinformação ainda é muito grande e quando um ente querido é acometido por um transtorno mental, muitos preferem jogá-lo num manicômio a mercê da saúde pública precária no Brasil, pois não têm paciência, nem preparo para cuidar do familiar. É preciso investir na preparação das famílias. A internação é sim muitas vezes eficaz, quando a família não consegue administrar as doses corretas e nos horários corretos de medicação, quando o paciente fica agressivo e, sobretudo, quando ficar em casa coloca em risco sua própria vida e sua integrade física e psicológica. Fora isso, é preciso que os tratamentos sejam em turnos diversificados e se enquadrem no cotidiano e na agenda do paciente, para que ele possa ter, na unidade de atenção de saúde mental, o alicerce para a sua recuperação e possa conduzir sua vida social e profissional (quando lhe é possível esta última).

Dizem que sou louco! E sou com muito orgulho! A liberdade da mente começa quando nos libertamos das amarras ideológicas e do preconceitos e nos dispomos a cuidar do corpo, da mente e do homem (volto a insistir bio-psíquico-social) para termos o conhecimento e a sabedoria pura e libertária como aliados da evolução do homem na superfície da Terra.

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