Pesquisando na internet, twittando, eu encontro Fabrício Viana, 39 anos, que é jornalista, escritor e bacharel em Psicologia e já escreveu quatro livros com temática gay. Um deles é intitulado “O armário: vida e pensamento do desejo proibido”. Neste livro, Fabrício conta os desafios da homossexualidade, trabalhando a importância da autoaceitação. Conversei via e-mail com este ativista, que atua nas causas LGBT, se mostrou extremamente solícito, e nos falou um pouco sobre a questão da homossexualidade acalentando nossos corações e mostrando a alegria de viver livremente o desejo que (não) é proibido, aos olhos da sociedade.

fabricio viana

Qual a sua visão de homossexualidade? Como você a define?

Como vivo dizendo desde a publicação do meu primeiro livro, a homossexualidade é apenas uma vertente saúdavel da sexualidade humana. Nada além disso.

Quais os desafios enfrentados pelos homossexuais nos dias de hoje?

O principal desafio é a autoaceitação: saber, sem as inúmeras confusões mentais, que gosta de alguém do mesmo sexo de forma afetiva e sexual. Que isso é saudável e que não tem nada de errado. Esse é o maior desafio. Muitos não conseguem. Ficam presos. Ou então, se tornam homofóbicos, tentando destruir no outro aquilo que mais incomoda dentro de si. E pior, sem ter consciência disso.

Quando você se assumiu e como foi esse processo de assunção?

Meu processo de se assumir homossexual não foi muito diferente da maioria. Porém, eu fiz questão de narrar esta experiência no meu livro O Armário. A primeira parte do livro é uma biografia minha focada na “saída do armário” e a segunda parte, a que mais gosto, na história da homossexualidade, processos psíquicos, homofobia internalizada e outras questões importantíssimas para mães, professores, psicólogos e demais profissionais. Porém, resumidamente, eu contei para minha mãe quando tinha 17 anos e ela ficou chorando, praticamente em depressão, por mais de 6 meses. Mas me aceitou, assim como meu pai, naturalmente: colocando o amor ao filho em primeiro lugar, algo que deveria ser feito pela maioria dos pais.

O seu livro “O Armário”, que ainda não li, parece ser bem interessante. Como surgiu a ideia de escrevê-lo e o que te motiva a ser escritor?

Eu criei alguns projetos sociais na Internet (que hoje não estão mais on-line) voltados para o público LGBT e por isso comecei a receber inúmeros e-mails de pais, mães e homossexuais com dúvidas sobre a homossexualidade. Como meu tempo é muito restrito, resolvi compilar muitas coisas em um livro. Porém, eu queria um livro de fácil leitura, focado em questões primordiais sobre aceitação e autoaceitação e que estivesse disponível para quem não gostasse de ler, mas precisava muito ter estas informações. Assim surgiu a primeira edição do meu livro O Armário.

Quais os propósitos e objetivos da sua escrita?

No livro O Armário, a questão principal desenvolvida nele são os caminhos que um homossexual irá percorrer, ou não, caso resolva assumir sua homossexualidade. Eu mostro mais ou menos onde iremos pisar dentro de um panorama histórico: falo sobre a origem do preconceito, a condenação religiosa, o machismo e temas que poucos conhecem, como a homofobia internalizada, e que são importantíssimos. Mas em nenhum momento eu incentivo a “sair do armário”. Apenas mostro que este caminho é o mais saudável e que cada um deve tomar o rumo de sua própria vida: garantindo sua autenticidade (sendo ela mesma, não precisando mais mentir, fingir ou coisas do tipo).

A respeito do “sair do armário”, você acredita que os homossexuais hoje estão saindo mais do armário?

Nós falamos mais a respeito. Porém, o preconceito e a homofobia ainda existe e é grande. Como cito no O Armário, uma pesquisa em uma universidade do RJ com jovens demonstrou que eles pensam exatamente como nossos avós: a homossexualidade ainda é um pecado, uma perversão e que deve ser combatida. Então, embora tenhamos mais visibilidade, especialmente pelas paradas LGBTs, ainda existe muita gente dentro do armário ou que tem problemas dentro de suas familias: não conversam a respeito, não se entendem, etc. O “fazer escondido” ainda é algo muito forte no Brasil, principalmente por nossa cultura bastante hipócrita quando o tema é ligado às questões da sexualidade humana.

O que você sabe sobre essa expressão “sair do armário”, qual a historicidade dela, como ela surgiu?

Ela veio dos EUA, da expressão “comming out”. E foi difundida no mundo inteiro. Já virou referência.

O que é pra você sair do armário?

Sair do armário é assumir plenamente sua orientação sexual diferente da maioria das pessoas, tratando com naturalidade (afinal, ela é, de fato!) todas estas questões. É ter e mostrar às pessoas ao seu redor, famíia, trabalho, escola, faculdade, enfim, que nada difere sua vida por conta disso. Vivendo uma vida plena e satisfatória quanto aos seus desejos homossexuais.

Entre homossexuais masculinos e femininos há diferença nesta questão em sair do armário. Por exemplo, as mulheres saem mais do que os homens, ou para as mulheres isso nem é levado em questão?

Cada caso é sempre um caso. Tem gente que sai do armário mais facilmente. Assim como tem famílias onde os pais, que tem amigos gays, ficam sem chão ao saber que seu filho é gay. Não sabem o que fazer. Assim como tem famílias super religiosas e conservadoras que, quando descobrem um filho gay, dão todo o apoio. O que temos, e isso é historicamente, é uma invisibilidade das mulheres homossexuais. Por isso a sigla GLBT foi modificada, colocando o L em primeiro lugar: elas sempre foram e ainda são bastante invisíveis. Infelizmente. Mas o “sair do armário” varia mesmo de pessoa para pessoa.

Com relação ao termo gay… todo homossexual é gay? Esse termo emprega uma carga política maior, ou seja, gay seria aquele que não tem problemas com sua orientação sexual, se assume, e participa da cultura gay?

Sim, a questão é um pouco delicada. O cara lá no interior de algum Estado brasileiro que apenas é “ativo” (penetra) outro homem, não se considera gay, embora a prática do ato sexual seja claramente homossexual. Existem vários homens casados com mulheres que saem com outros homens e não se consideram gays, nem mesmo bissexuais. Então, penso que gay seria aquele que realmente se assume, que tem uma identidade política baseada em sua orientação sexual. E ai entramos em outras questões, por exemplo, lá fora, o termo gay é usado também para lésbicas, bissexuais ou pessoas trans. Aqui no Brasil, não. Inclusive, o uso do LGBT já foi incluido mais letrinhas. Mais classificações. Vai chegar uma hora que teremos tantas, quase infinitas, chegando a uma séria de letras para cada pessoa, dizendo o que já sabemos: que cada pessoa é, de fato, única. É algo complicado, mas eu penso que, no futuro, estaremos mais evoluidos e não teremos mais estas classificações baseadas na orientação sexual. Seremos livres: posso ficar com quem eu quiser, independente de homem ou mulher.

O que você diria a uma pessoa que está em conflitos com sua sexualidade na dúvida entre se assumir ou não, ou até pensando em situações mais drásticas como negar a sua sexualidade ou até buscar medidas irreversíveis como suicidio?

Hoje temos Internet, grupos de homossexuais e apoio de ONGs. Não tínhamos essa rede mundial de computadores há alguns anos. Logo, por mais complicado que seja, família, trabalho, morar em cidade pequena, etc, tudo é possível. Sempre tem uma saída. Leia livros (O Armário é realmente ótimo para isso!), converse com iguais e conheça outras histórias. Se puder, se o caso for muito complicado, procure ajuda: psicoterapia é uma boa pedida. Apenas atente-se, pois alguns psicoterapeutas não sabem nada sobre a homossexuailidade. Não podemos desistir, nunca!

Espaço aberto para os comentários que achar necessário.

Obrigado pela entrevista. Além do O Armário, após eu mesmo ter me assumido publicamente homossexual, acabei gosotando de escrever livros e publiquei mais obras com temática LGBT, como o livro “Theus” (romance gay), “Ursos Perversos” (contos homoeróticos) e a premiada Coletânea LGBT de contos, crônicas e poesias “Orgias Literárias da Tribo”. Todos os meus livros e como comprá-los estão disponíveis neste link http://fabricioviana.com/livros

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