Um conto escrito por: DANILO VIZIBELI

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1

O sol brilhava forte. Era um lugar bonito, natureza suave. Sons agradáveis. De repente, trovões inesperados, relâmpagos, homens e mulheres nus. Caminhava na chuva e homens fortes nus tentavam agarrá-lo. Monstros começaram a sair da terra e vinham em sua direção. Completamente assustado corria de um lado para o outro, estava completamente afoito quando uma figura amiga e diferente aparece estendendo-lhe a mão. Era a figura de Valentim. Ao pegar em sua mão, estão de volta naquele lugar calmo e sublime. Estava vestido de azul, mas a roupa estava suja, resquícios daquele lugar estranho visitado. A cor lamacenta foi dissipando aos poucos…

Em cima da cama fios dourados, prateados, azulados e róseos misturavam se numa teia geometricamente articulada. Pequeno amuleto. Um círculo com alguns fios formando um verdadeiro filtro, o filtro dos sonhos. Diz a lenda que colocado sobre a cama filtra os sonhos, deixando chegar à mente somente aqueles que serão necessários para o aprendizado e evolução da pessoa.

Franciele estava na cantina da universidade conversando com seus amigos na hora do intervalo. Foi quando avistou um moço bonito, alto, de expressões vívidas. Era Matheus. Acompanhada de Diego Valentim, sente uma atração inesperada e ao mesmo tempo alguns calafrios.

– Quem é? Você conhece?” – pergunta.

– Matheus. Cursa Administração de Empresas. – Matheus enxerga Diego e faz um leve abano de mão.

Na volta para casa, sozinho, um pouco de amargura. Os pensamentos vão embaralhando na cabeça de Diego quando encontra uma barraca de artesanato. Num cantinho, um círculo muito bonito colorido de fios e alguns penachos pendurados.

– O que é aquilo? – pergunta ao vendedor.

– É o filtro dos sonhos – responde o hippie responsável por aquela arte.

– Já ouvi falar. É verdade que ele filtra nossos sonhos e pensamentos?

– Coloque em cima da sua cama que terá somente os sonhos que precisar

– Vou levar um.

O hippie fez um pequeno embrulho e entregou a Diego. Continuou a caminhada sempre observando tudo a sua volta. Ao chegar em casa a primeira coisa que fez foi pendurar o amuleto na sua cama.

2

O despertador dispara. Levanta-se. Arruma-se. Sai. Na porta da faculdade, o ônibus está estacionado e o tumulto é geral. Malas, edredons, violões… A caravana está animada para o congresso de pesquisa de graduandos em outra cidade distante mais de 300 km. Do meio da multidão Fran acena para Diego. Os dois se encontram e ficam ali participando de tudo até que o ônibus possa partir, e na partida pelas estradas da vida, possa também partir os corações. É quando se aproxima Matheus, que ficaria hospedado no mesmo quarto de Diego no hotel da caravana. Ao perceber que os olhares dele e de Franciele não paravam de cruzar, Diego apresenta os dois:

– Como pude me esquecer! Veja só! Franciele esse é Matheus, da Administração de Empresas.

Os dois sorriram e entraram no ônibus.

3

A viagem foi tranquila e tudo transcorreu em paz. Matheus sentou-se na primeira poltrona junto com uma outra menina. Diego e Franciele sentaram-se lado a lado. Em poucos minutos Diego foi tomado de uma súbita sonolência. Seus músculos relaxaram, a presença da amiga ao lado tornou-se carinhosa e afetiva. Em sua mente uma luz branca, clara, transformava-se num vestido de noiva. Ao mesmo tempo tudo escurecia e apareciam gravatas e ternos. Um violino tocava “As quatro estações”, de Vivaldi. Subitamente fora transportado para uma cachoeira onde Matheus nadava e aparecia das águas com seus olhos claros a mirar o amigo. Isso foi o suficiente para que Diego despertasse e notasse a balbúrdia que o ônibus se encontrava.

A viagem transcorreu e uma parada. Um restaurante grande à beira da estrada. Desce toda a delegação de congressistas. Antes de entrarem no restaurante uma ida ao banheiro que ficava de fora. Lá dentro Matheus, muito vaidoso, arrumava seus cabelos. E Diego não pôde deixar de olhar. No restaurante, enquanto Diego se servia, Matheus e Franciele passeavam pela loja de conveniências. Parecia um papo gostoso. Um clima amoroso estava no ar.

Não muito tarde chegaram. Diretos ao hotel. Muito tumulto e Matheus subiu primeiro e foi logo para o banheiro para se arrumar. Primeira noite: um churrasco num barzinho delicioso. Papos, fotos, alto-astral a turma estava muito empolgada. Na subida para os quartos eis que sobem sozinhos Matheus e Diego. Naquela noite nenhum dos dois conseguiria dormir. Mas também nenhum dos dois incomodaria um ao outro.

E o dia amanheceu. O café no hotel e o transporte da delegação para a universidade. Matheus apresentou seu trabalho. Diego estava presente na sua apresentação e Franciele também. Matheus recebera algumas críticas quanto ao seu trabalho e ficara inconformado. Mas ele sabia que seu esforço fora grande e os resultados positivos. Somente sua mente inquieta não o deixava pensar assim. Queria sempre mais e sempre achava que podia fazer mais.

Ah! Franciele! Aquela sim era livre como uma gaivota no mar. Mas, Diego estava sentindo que naqueles dias ela estava talvez meio amarrada. Seria o namorado? Seria algum problema no trabalho? Mas sua apresentação fora espetacular. Sua energia transbordava nos seus olhos verdes, nos seus cabelos loiros, na sua pele graciosa, mas jamais vulgar.

E lá se foram as primeiras apresentações. Uma tarde gostosa e tranquila se passou, sorveteria, passeios na praça. Naquela praça, na esquina do lado de lá Diego encontrou uma livraria, um sebo, aliás. Aquele cheiro de livro velho misturado com livro novo entrou pelo seu nariz. Parou em uma estante que dava de frente para uma janela. Ali pegou um livro e começou a folhear. Na praça os dois estavam lado a lado. A mão de Matheus sobre a de Franciele. Foi quando ele tirou do bolso um pequeno pacote e deu para ela que abriu de imediato.

– Fui eu que fiz – Aquele arco, aquela teia, aquele mosaico… O filtro dos sonhos.

A noite estava chegando e pedindo um “happy hour”. Banho. E foi assim que todos do grupo de Diego foram ao barzinho onde teve muito papo e integração com outros estudantes. Matheus estava estranho e saiu logo cedo de lá e voltou para o hotel. Não muito tarde Diego também retornou. Duas batidas na porta antes de entrar.

– Tudo bem? Você saiu cedo do bar…

– Sei lá não estava muito bem. Cigarro, bebida não combinam comigo.

Um pouco de silêncio e Matheus revela aquela inquietação que estava dentro de si:

– Me arrumei, tanto cuidado para nada.

– Como assim, você esperava que algo mais acontecesse? – retruca Diego.

– Não necessariamente – disfarça timidamente Matheus, querendo sempre refletir e aprofundar em dúvidas e receios.

– Você está afim da Franciele não é? Achou que fosse rolar algo, não é?

– Ah você acha isso? É isso que o pessoal está comentando? – pergunta Matheus.

– Vou te ser sincero, Matheus, mas estão sim. Todos perceberam a intimidade de vocês dois. É isso mesmo que você quer?

– Não estou te entendendo, o que você quer dizer?

A bolsa semiaberta de Matheus dava para ver aquele artesanato simples, mas ao mesmo tempo especial, singelo, colorido, saindo de lá. E tinha vários deles. Também saíam de lá alguns livros religiosos.

– Está lendo? – Diego apontava os livros

– Estou.

– Posso ver?

– Pode – Não acreditou no que viu. Sabia que era um rapaz religioso, sabia da importância da crença e da fé. Precisou ler duas vezes: “Que o demônio saia de mim. Que o sangue redentor possa me libertar de toda a minha perdição...”.

– Olha! Sou eu que faço! – e mostrou os filtros dos sonhos – Aprendi numa viagem ao exterior.

Diego achou lindo o artesanato. Não ganhou um de presente.

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4

Chegou o dia da volta. Já no ônibus, Matheus penetrou num sono profundo. Parecia cansado e que entrava agora num mundo de descanso e magia que o sono produz. Franciele tinha um namorado. A relação estava bem gasta e pareciam estar em conflitos.

– Eu vi que ele te deu um presente. Deu para perceber – Diego começa a conversar.

– Pois é, vou te mostrar. – E de repente Fran começa a chorar. – Tudo muito estranho. Justo agora que não está tudo bem entre eu e meu namorado.

– Você que tem que decidir, Fran. Ver se gosta ou não do seu namorado. Outro dia alguns amigos comentaram que não gostaram do jeito dele na última festa de sala. – respondeu Diego.

– Pois é, tenho que pensar. Mas o Matheus mexeu demais comigo. Sei que ele é estranho que tem alguma coisa diferente nele, mas mexeu mesmo assim.

Diego não sabia o que dizer. Nem o que sentir. Encostou a cabeça no banco e adormeceu. Franciele também.

O onibus parou na porta da faculdade, todos desceram, foram para as suas casas. A madrugada dispersou-se no luar da lua.

5

Marcha nupcial. Noiva. Noivo. Europa. Carreira estabilizada do marido.

Naquela cidade não quis mais ficar. Partiu em busca dos seus sonhos e tornou-se um grande administrador de uma multinacional.

Enquanto isso Valentim olhava aquele filtro dos sonhos. A mão dele na dela, o olhar… O toque macio na pele e nos cabelos loiros. A porta do quarto dela se fechou. A cabeça dele no peito dele. Pelos e pelos. A mão quente, a mão fria, o queixo ríspido. A porta do quarto deles se fechou.

A mãe bate na porta do quarto:

– Filho está na hora de acordar.

Em cima da cama o filtro dos sonhos resplandece em seu brilho. Foi tudo um sonho?

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