Leite Derramado é o quarto romance de Chico Buarque e o primeiro deles que eu li. Logo que o livro foi lançado eu comprei um exemplar e comecei a leitura. Na época, achei um tanto difícil e parei de imediato, achei aquela coisa chata, complexa e confusa. Mas saberia que um dia iria fazer a leitura e fiz esses dias.

Não sei se é possível dizer alguma coisa sobre Leite Derramado. A escrita é um primor. Fascinou-me principalmente o fato de perceber mais de perto o vigor da literatura. Como os textos literários são capazes de promover o estranhamento, como a obra literária não está fechada, está em aberto e como o leitor participa do processo de produção de sentidos. Muitas pessoas não gostam ou não conseguem ler este tipo de obra, pois no comodismo dos dias de hoje querem algo fácil, pronto e acabado. O texto literário é mistério e a gente viaja nele pelo simples fato de se deleitar com as palavras. De ter uma experiência de prazer e gozo, ou de medo e tristeza, nas linhas que estamos lendo, desfrutando cada palavra como se aprecia uma bebida, uma comida, um cheiro… A Literatura é uma arte! A arte é de profundeza e reflexão. Não fiquemos na superficialidade.

Na trama de Leite Derramado, um velho aos 100 anos no leito de morte num hospital, por meio de um monólogo, chora o Leite Derramado de sua vida e vai tecendo histórias num tempo psicológico – sem ter uma sequência linear – fazendo amarrações de contextos, trabalhando o prenconceito, as classes sociais, o dinheiro e a posse, a identidade e a memória traçando, como muitos comentaristas desta obra disseram, as Raízes do Brasil, sendo este o título da obra magna do pai do autor, Sérgio Buarque de Holanda. Outro ponto importantíssimo para a textualidade e o sentido do texto é o amor de Eulálio (o personagem principal) por Matilde. Não sabemos o real destino de Matilde. Fica aquela pergunta advinda da literatura machadiana: Matilde traiu Eulálio? Mas é nesse amor um tanto complexo e nas associações livres, escapismos e flutuações do pensamento que Matilde confere um lugar inabitável no coração de Eulálio e é o tempo todo o viés motivador do livro: quem eu sou para que lhe fale assim?

Ao final da leitura pergutaram-me: gostou do livro? Não é questão de sim ou não. Não é um livro de tudo ou nada. É um livro para ser estudado, compreendido, lido e relido. Um tanto erudito? Sim. Não ofereceria de presente para uma pessoa que está iniciando agora nas artes de ler. Porém, deixada essa erudição de lado, é o trabalho com a linguagem. E não só com a linguagem na sua materialidade verbal, mas a ideologia que transcorre da relação não igênua com a linguagem. De sujeitos sócio-históricos na sua atuação em sociedade e marcados por posicionamentos.

Quer saber? Chorei e ri! Chorei porque a história é triste e nos emociona. Ri do encantamento e deslubramento, das peripécias, das palavras fortes, carregadas de adrenalina. Derrubei o leite que se derramou de todos os preconceitos com a literatura, com a criação literáia e me deu mais vontade de executar a única arte na qual ainda me arrisco: escrever!