Como seria a leitura da vida de São Francisco nos dias de hoje? Essa pergunta me surgiu ao ler duas obras que trata do santo católico. Uma delas é espírita, psicografada por João Nunes Maia, pelo espírito Miramez. A outra é um tratado histórico escrito pelo historiador francês Jacques Le Goff.

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De lado as divergências de abordagens entre ambas, os pontos similares são bastantes. Em Miramez temos uma descrição bem emocionante voltada aos sentimentos e às vidas de São Francisco, relatando sua vivência anterior como João Evangelista. Em Le Goff uma visão histórica, de linguagem difícil, mas que confirma São Francisco ter sido batizado primeiramente como João.

Em Le Goff, nos aparece a questão da pobreza de São Francisco e lendo as duas obras pude chegar à conclusão de que muitas vezes a imagem do santo que se passa é que ele era paupérrimo, maltrapilho e mendicante. E não é isso que nos é trazido nas informações biográficas. Ele sim fez opção pela pobreza, mas não à mendicância. Prezava pela higiene corporal e aceitava doações para reverter em benesses aos pobres e à sua comunidade.

O encontro com Clara é magnificamente descrito por Miramez. Francisco teve sim desejos corporais, mas por uma opção de vida renunciou a todos eles. O propósito era outro. Era cumprir aquilo que nos tempos de Jesus ainda não tinha sido cumprido. É vivenciar o Evangelho que ele próprio escreveu.

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Nos dias de hoje São Francisco teria que travar um embate muito grande com os poderes políticos e econômicos. A vivência que temos na atualidade é uma confrontação da matéria e do espírito. Até o século XX nossas conquistas materiais foram surpreendentes. Neste século XXI, precisamos conquistar os dons espirituais. Precisamos evoluir um pouco mais para que se instaure o reino de regeneração na Terra. A lição já foi deixada por Francisco quando nos pede o equilíbrio e o desprendimento: “amar mais quer ser amado”. Não que o ser humano precise se menosprezar, se diminuir ao ponto de não ter a sua autonomia e o seu pensamento crítico. Ele não pode é pensar apenas em si. Ele não pode concentrar os esforços de toda uma encarnação na satisfação de prazeres egoísticos. Se olhar ao lado e tiver um irmão caído, não pode ficar sentado. Dê-lhe a mão, pois Cristo disse que quando fizeres isso a um dos pequeninos é a ele que estamos fazendo.legoff

Cada qual a sua maneira – Le Goff e Miramez – dão suas contribuições para o conhecimento da biografia de São Francisco e trazem perspectivas de como podemos utilizar os exemplos do santo nas vivências atuais. Francisco alterou um modo de pensar com influências na economia, na política, na organização da sociedade, da cultura e do pensamento crítico. Se queremos, em tempos sombrios, ser seres pensantes, críticos, autônomos e construtores de um amanhã melhor temos que Ler São Francisco, pois em sua personalidade temos a vivência de um homem que aproveitou sua passagem pela Terra. Se queremos conhecer os modos de edificar a religião (verdadeira), a ciência, a fé, a razão devemos Ler a vida de São Francisco.