Refletir a linguagem por meio da música é o principal objetivo do Projeto “Linguagem pela Música” que desenvolvo em Passos (MG), no Cursinho Pré-Vestibular Comunitário Núcleo Dércio Andrade/Educafro. Propor reflexões sobre as ideologias, sobre os contextos sociais e históricos em que as músicas foram escritas e são veiculadas também são objetivos. A linguagem se manifesta de várias formas. Hoje os estudos linguísticos englobam até a linguagem não-verbal. Acredito que a música é uma possibilidade para mover sentidos, interpretar e propiciar a leitura e a escrita. Sendo assim a cada edição do projeto, deixo os alunos à vontade para escolher uma banda ou cantor brasileiro para traçar sua trajetória e interpretar uma de suas músicas com análise e crítica positiva e negativa. Neste ano, o projeto aconteceu no mês de maio e foi um show de talentos. Confira abaixo os grupos e o que trabalhou cada um. Para cada apresentação solicito a criação de um título criativo que dê nome ao trabalho. Confiram!

grupo patricia

JOSEPH RAMALHO

O grupo formado por Amanda, Ana Paula Silva, Charles, Deivid, Eliana, Felipe, Jackson, Maciel e Suellen Oliveira apresentou a música de Zé Ramalho e o trocadilho do título não é por acaso. É que o grupo trabalhou um poema-canção intitulado “Estrangeirismo”, que não é de autoria do cantor, mas é interpretado por ele. Abordaram a questão da globalização, do uso da língua portuguesa no Brasil, que é mesclada e perpassada por diversos estrangeirismos. O grupo inovou na criatividade levando uma composição poética do aluno Maciel, que transcrevo ao final do post.

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VELANDO A DITADURA: CAETANO VELOSO “ALEGRIA, ALEGRIA”

O cantor Caetano Veloso foi o tema da equipe de Cristiane Matos, Gabriela Lunz, Jaqueline Silva, Mariana Souza, Paula Cristina e Poliana Pedroso. O grupo trabalhou com a música “Alegria, alegria”, relatando a vivência de Caetano durante duros anos de ditadura militar no Brasil. Enfocaram ainda toda a trajetória do cantor mostrando o lançamento do movimento Tropicália. A música escolhida trata-se de um hino contra a ditadura escrita com metáforas e implícitos, denunciando a falta de educação e a violência armada no Brasil nos tempos do golpe militar como nas frases: “o sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia”, “sem lenço, sem documento nada no bolso ou nas mãos”.

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TITÃS: DE GIGANTES DA MITOLOGIA A GIGANTES DA MÚSICA

As alunas Beatriz, Joice, Carolina, Camila, Carolyne, Eunice, Katia, Patrícia Cunha e Tamires apresentaram a canção “Epitáfio” de Titãs mostrando toda a trajetória da banda e enfocando a análise crítica desta música que é cantada no Brasil todo, fez e faz muito sucesso, mas não pensamos na simbologia forte que traz a sua letra. Muitos pensam que é apenas uma canção poética e romântica, mas dizer que “o acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído”, mostra a alienação, a dominação globalizante e ao mesmo tempo uma inércia do sujeito em ficar parado, não buscar sua formação, não buscar se soltar das amarras do poder. Algo que muitos não tinham pensado. A aluna Kátia disse que foi um prazer executar o trabalho. Ler as letras das canções e interpretá-las faz com que prestemos atenção na mensagem que o autor quer passar e naquilo que compreendemos. “Muitas vezes cantamos as músicas, mas não as refletimos. É importante analisar a música e pensar nas mensagens”, disse.

RAUL SEIXAS: UMA MUDANÇA CONSTANTE

Raul Seixas e a música “Metamorfose Ambulante” foi o tema da equipe de Isabella, Glauciana, Luana e Evaldo. Os alunos trabalharam os sentidos mobilizados nessa expressão que dá nome à música, mostrando o movimento dialético do ser humano numa associação com o que dizia Heráclito de Éfeso, “não se é possível entrar duas vezes num mesmo rio”. O grupo – que era o menor em formação – trabalhou bastante e conseguiu apresentar o trabalho que entrosou toda a turma e gerou um aprendizado participativo e dinâmico.

BANDA BLITZ

O grupo de Brenda, Jhenifer, Mônica, Rafael Silva, Suellen Silva e Vanessa apresentaram uma performance musical com a música “A dois passos do paraíso”, da Banda Blitz. O grupo dublou a música e agitou a plateia. Todos ficaram surpresos com a atuação e organização dos alunos que desenvolveram figurino, montaram a coreografia e trabalharam artisticamente a veia de uma expressão musical com muita criatividade e empolgação.

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CHARLIE BROWN JR. E O VOCALISTA CHORÃO

E a equipe de Matheus, Elivelton, Ana Paula Faria, Bianca, Heloisa, Thaís, Maísa, Rafael de Oliveira, Lucas e Virgílio, a equipe com maior número de participantes, apresentou a música “Não é sério”, da banda Charlie Brown Jr., música extremamente expressiva no momento político em que o Brasil vive, mostrando que o jovem, ao contrário do que se pensa, de que é alienado e mal-educado, consegue mobilizar sentidos, contestar, resistir e exercer sua atuação política. Hoje, no Brasil, a juventude está atuante e é um contra-poder da elite dominante, oligárquica e neoliberal que quer a todo custo governar o Brasil. Os alunos ainda brindaram os presentes com uma apresentação da música, com o aluno Matheus no violão. Linguagem pela música mostra que é possível reverter as ideologias dominantes e multiplicar os sentidos por meio da palavra que é polifônica, ou seja, diversas vozes atuam na sociedade e constroem os discursos. É preciso olhar de viés, e buscar o que está por trás das palavras, nas entrelinhas só assim seremos cidadãos conscientes.

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Confira o poema de Maciel

 

FLERTANDO COM A LINGUAGEM

 

Observando de perto

Mas com pouca empatia,

A diluição da língua mãe

Perdendo cada vez mais lugar pra língua tia.

E vejo a cada momento,

Pessoas usando da língua sem

Ter conhecimento.

 

Vejo nas lojas anúncios 50% off,

Mas qual seu significado?

E os transeuntes constrangidos,

Sem saber do que se trata,

Tomam logo outro rumo e

Compram na loja ao lado

 

Entendo não haver problema,

Desde que se saiba dominar,

Mas se tem porventura

Conhecimento limitado,

Melhor que fique calado

E se ponha em seu lugar

 

Vejo, porém, que estamos exagerando,

Mas também evoluindo ao tentar falar inglês.

Espero que fique claro,

Não sou contra.

Mas que primeiro

Aprendamos a usar o português

(Maciel Antônio)

turma 2016 no ling pela musica

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