“Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá”, duas fábulas, escritas fantásticas do autor inglês Lewis Carroll. Dentro da literatura há alguns conceitos que são mais presentes nos escritos como é o conceito do onírico. A palavra “onírico” se refere a tudo que é da ordem do sonho, do fantástico, da imaginação.

alice1

Uma das funções da literatura é mexer com a imaginação e transpor a barreira dos sentidos. O livro de Carroll é uma aventura mágica que cumpre bem este papel. No plano da realidade, a personagem central é baseada em Alice Lidell uma menina filha de uma renomada família burguesa por quem Carroll desenvolve uma amizade atípica. Muitas polêmicas povoam a história real, havendo até hipóteses de caso de pedofilia e uma relação amorosa desenvolvida entre os dois.

Polêmicas à parte, as duas fábulas dedicadas à Alice e que a usam como figura central são impressionantes. Histórias infantis? Sim! Qual criança não se admira e se deslumbra diante das diversas travessuras de Alice no país das maravilhas? Qual criança nunca se questionou ao olhar um espelho e pensar nessa magia do que há de lá, sem compreender as leis de reflexão e refração da luz? Só que quando um adulto lê estas histórias para as crianças, ele começa a perceber o trabalho com o inconsciente, as tramas psicológicas que perpassam o enredo.

Quem é Alice? Alice somos todos nós. A menininha curiosa que vai percorrendo o país (que no fundo era um sonho) atrás de situações adversas, se pergunta o tempo todo “quem sou eu”. Porque ela já não sabe mais. Nos dias de hoje é possível conceber em Alice um tratado da virtualidade e das possibilidades de uma realidade subjacente a todos nós. Na era da internet é possível criar perfis falsos, estar em um lugar e não estar ao mesmo tempo – como pelas webconferências – criando um estado de ubiquidade. A internet questiona todas as noções de espaço e de tempo, como falamos no texto anterior “Nós e os nós da internet” (vide abaixo). A criação e criatividade são colocadas em debate no livro. O poder da mente de criar, recriar, confabular e do sujeito de ocupar posições diversas. As figuras que aparecem em Alice – o coelho, a Lebre de Março, a Rainha, o Caxinguelê, o Chapeleiro… – são prospecções do ego de Alice.

alice2

Tudo muda muito rápido. Os acontecimentos são descritos na lineriadade (ou melhor, na dinamicidade ou ainda multifocalidade) de um sonho em que numa só noite, perambulamos por espaços diversos em variadas situações. A consciência que nos escapa quando tentamos compreender a realidade.

Onde estamos? Parece que é a pergunta que percorre todo o livro. Numa hora estamos bem, de repente já vêm as adversidades. Há também na trama toda uma contextualização da história sócio-política da Inglaterra, da era vitoriana, que não saberia aqui explicar. O amor de Carroll por Alice parece ficar evidente, havendo no eu-lírico do narrador todo um carinho especial a essa garotinha que parece ser o ícone, a expressão máxima, da vontade que todos temos de voltarmos a ser criança.

Alice coloca em suspenso tudo de convicção que temos., todas as certezas que já consolidamos e paramos para perguntar: será? É? Não é? Como pode ser? Sujeitos críticos, compreendemos que no mundo em que vivemos há algo que nos escapa – o inconsciente. Uma pessoa sem sensibilidade diria que as aventuras no país das maravilhas é algo sem sentido, confuso, banal. Do que precisa a literatura se não mais do que representar a realidade na fuga dela mesma? O texto literário se impõe pelo não compromisso com a realidade, com a verdade. Ao mesmo tempo que ele possibilita isso, também permite o jogo com as palavras, as metáforas, hipérboles, pleonasmos, sinestesias… O brincar com os sentidos, com os dizeres e com nossa existência. Levemos debaixo do braço um exemplar de Alice para as sessões de psicanálise e ali descobriremos quem realmente é Alice e onde estamos!