Aquilo que é bom precisa ser divulgado. Recentemente conheci o Mapa da Literatura Brasileira uma iniciativa da Plataforma do Letramento (http://www.plataformadoletramento.org.br/hotsite/especial-mapa-literatura-brasileira/). Que projeto fantástico! Nele tem um Mapa do Brasil e é possível navegar, segundo várias categorias, por obras literárias, trechos, mídias diversas. Muito bom! Agora de vez em quando, principalmente quando estou preparando aulas de Literatura passo por lá. Hoje estava navegando e me deparei com o conto “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu (disponível em: http://www.releituras.com/caioabreu_dois.asp) e depois sem mais nem mesmos fui parar na crônica “A complicada arte de ver”, de Rubem Alves (http://www.releituras.com/i_airon_rubemalves.asp). E como em tom filosofal, surgiu de imediato a vontade de escrever este texto.

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O conto “Aqueles dois” é uma narrativa homoerótica que conta a história de Saul e Raul, dois colegas de trabalho que matam entre si a solidão e descobrem o amor entre dois homens. A crônica de Rubem Alves por sua vez fala sobre a visão, sobre como enxergamos o mundo, como algumas pessoas não veem o que os poetas, por exemplo, veem. A sensibilidade em si.

O amor entre dois homens é pouco retratado na Literatura se comparado com as diversas peripécias do amor entre um homem e uma mulher. Porém, tem aparecido, a cada dia, mais obras que tratam da questão e também muitos textos escritos no passado que por uma ordem ditatorial ficaram escondidos e apagados e agora ressurgem para serem lidos em pleno vigor da liberação sexual do século XXI.

O texto de Caio Fernando Abreu é um primor. Trata do sentimento como nenhum outro autor. Discreto, envolvente, sem vulgaridade e ao mesmo tempo desperta todo o êxtase e leva ao clímax que uma narrativa sobre o amor com uma dose de sensualidade pode nos levar.

A homossexualidade foi e é ainda vista como proibida, pecaminosa, tão excludente que no conto os dois são demitidos por levarem um romance em que todos desconfiavam. Hoje as demissões não são tão assim presentes, mas ainda há muito preconceito e muitos homossexuais já perderam o emprego sim e muitas vezes até outras coisas de sua vida.
O Espírito não tem sexo e o amor também não. Amar é o mais sublime sentimento e a potência maior da alma, emanada pelo nosso Criador no seu gesto original de nos criar. Dois homens se amam, se sentem, se conhecem, se completam. Sim. O que há de mais nisso?

O que enxergam nossos olhos? Às vezes muito mais do queremos. Mas o que enxerga o nosso coração? Às vezes só o que queremos. Vivemos muito ordenados pelo parece ser, mas será que é? Geralmente, aquilo que aparenta ser vai de encontro aquilo que penso. Olhe bem a expressão! De encontro! Vai contra aquilo que penso e por isso eu discrimino, não aceito, enxergo como anormal.

Só quem sente na pele o desejo pelo igual, amar quem lhe é semelhante, sabe o que é tal desejo. Há muitas vivências homossexuais, mas só a identidade sexual consegue descrever este desejo de que falo. Aqueles que se enveredam em experimentar um desejo homossexual, isso passa, é rápido… Mas quem descobre este tipo de desejo e o tem dentro do seu âmago, não consegue mudar, por mais que tente, por mais que sofra, por mais que a sociedade queira o contrário. E sabe por quê? Porque é amor e amor não se muda, não se controla, se vive e pronto.

Aqueles dois… uma expressão assexuada: poderia ser um homem e uma mulher, poderia ser dois homens, só não poderiam ser duas mulheres porque aí seria aquelas duas. Mas aqueles dois se refere a duas almas. A uma soma de um mais um, um ligado ao outro. O que se nota no conto de Caio Fernando Abreu é um sentimento enorme. Os dois conversavam demais, compartilhavam gostos, eram almas afins. A parte sexual é também apresentada vivida e fortalecida quando se diz bem ao fim do conto: O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou. Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados”.

Mas esse contexto sexual não é o prior do texto. Não é um conto pornográfico, escandaloso. Trabalha com a erótica da linguagem no sentido de gerar no leitor a expectativa pelo gozo final. Esse trabalho com a erótica da linguagem, contudo, é feito de forma poética e é nisso que “aqueles dois” simboliza uma leitura representativa, imaginária e figurativa que todo homossexual gosta de ler, porque acredita na certeza do amor além dos preconceitos, dos rótulos, assim sendo: aqueles dois!

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Caio Fernando Abreu
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