Estive no Centro Espírita Irmã Scheilla em Passos (MG) ontem, dia 26 de abril, para falar um pouco sobre Educação na visão espírita ou Educação e Espiritismo. Neste texto que aqui apresento uma síntese do meu pensamento sobre esse processo tão nobre que Deus nos permite que é a Educação que tem na etimologia de sua palavra, do latim “educere”, o sentido de conduzir de um lugar para outro. Para traçar estes pensamentos que aqui se concretizam busquei respaldo nos livros “Espiritualidade e Educação”, de Regis de Morais e “Sensibilidade: uma proposta prática de educação para transformar o mundo”, de Plinio Oliveira.

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Como muitos sabem, sou professor por vocação. Atuo voluntariamente num Cursinho Pré-Vestibular Comunitário – Núcleo Dércio Andrade/Educafro que funciona no Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos, em parceria com os padres rogacionistas de Passos. Assim exerço esse diálogo com a Igreja Católica. Nasci em berço católico e admiro e até pratico esta religião, que tanto gosto com suas celebrações, sua forma de simbolizar a presença de Jesus. Sou respeitado no Educandário e tenho grande diálogo, o que nos mostra a abertura do catolicismo ao ecumenismo, o que se intensificou com a chegada do Papa Francisco. É assim que precisamos alavancar a Educação de nós mesmos, na busca pelo diálogo com outras crenças, no respeito às diversidades de carismas e na somatória e no abraço daquilo que temos em comum: a prática do bem, a caridade.

Nesta proposta aqui apresentada, falar de Educação e Espiritualismo nos faz retornar então a esse diálogo com a Igreja; à Kardec que foi um pedagogo, um estudioso, com uma enorme metologia científica; a Paulo Freire, estudioso que nos legou pensamentos ímpares na esfera da Pedagogia e da Educação e é claro, de Jesus, nosso exemplo maior de professor e mestre. Abordo assim três eixos que é o da Pedagogia da Transcendência, o Espiritismo e a casa espírita como escola da alma, e as vivências dos educadores, relembrando a figura do Professor Wagner de Castro*, precursor do espiritismo em Passos e grande estudioso.

Daniel Pereira

Qual a relação entre a espiritualidade e a educação? Entre o espiritismo e a educação? Como disse no ínicio, educar é conduzir de um lugar para outro. Esse lugar que se vai chegar pode ser melhor ou pior em relação ao qual nos encontrávamos. Lutamos para que seja melhor. A vivência espírita, o estudo do espiritismo é um processo educativo. E também a vivência do espírito o é. Pois ao reencarnamos trazemos uma proposta de evoluir e melhorar.

Na contextualização histórica, temos os séculos XIX e XX como séculos do materialismo, quando foram conquistados vários avanços em termos materiais. O século XXI como diz André Malraux, “parece-me, será necessariamente o século do espírito”. E dentro desse contexto surge o discurso da nova era, que não é só um discurso mas uma realidade que passa a se aproximar a cada dia mais, onde viveremos dias melhores na Terra e esta passará de uma planeta de provas e expiações para um planeta de regeneração, onde o mal irá se igualar com o bem e quiçá o bem irá se sobrepor. Querem os espíritos do Senhor que essa possa ser uma era: a) de autoconhecimento; b) de solidariedade verdadeira; c) de profunda noção de respeito pela vida, especialmente pela vida sensível e inteligente.

Para isso é preciso conviver com as diferenças e as religiões darem as mãos. É preciso relembrar o papel da família, da escola e da sociedade no processo educativo e que cada um cumpra o seu papel. A família não tem que relegar à escola o seu papel e nem vice-versa. Família com escola, família mais escola, só assim teremos um processo de educação legitimado.

A verdadeira educação deve instigar,  cutucar, não dar respostas prontas, levar o aluno a buscar respostas e a questionar. O Espiritismo e a casa espírita também são ou deveriam ser assim e todas as demais religiões também.

A crença espírita se estabelece em três postulados básicos que são: a vida após a morte, a reencarnação e a comunicação do plano físico com o plano espiritual. Isso não é privilégio do Espiritismo. As outras religiões também pensam assim só que de uma maneira implícita. A diferença é que nós espíritas estudamos esse processo e as dema2eba27_f82c0b1e665e45dabbc53d3616be08f1is igrejas, muitas vezes, querem oferecer as respostas prontas e o Espiritismo trabalha na busca, pesquisa e construção destas respostas.

A casas espíritas devem trabalhar em intenso processo educativo promovendo cursos, questionamentos e atendendo fraternalmente. Para isso, o modelo de professor é Jesus com o amor e a fé, vivência mais sublime da espiritualidade na Terra. Depois de Jesus, voltemos ao professor Kardec com seu método, com a ciência e a razão. E assim lembramos que Deus, a Ciência e a Educação caminham lado a lado. Um ajuda o outro. Hoje é comum que cientistas e estudiosos se afastem de Deus, se dizem ateus (e até professores em suas salas de aulas, passando esse pensamento aos alunos). Mas ao mesmo tempo é comum que cientistas e estudiosos se voltem para Deus. Há inúmeros estudos da ciência, da física quântica, que comprovam os fenômenos espirituais e certificam a presença de Deus, de uma inteligência maior.

“É feliz quem crê na revelação, quem tem Deus no coração”, diz a música católica. É preciso nos aproximarmos de Deus. Quando alguém diz que perdeu a fé é porque não a tinha e nunca a teve. A fé promove o encontro, o aprimoramento com Deus. Quando temos fé, ficamos a cada dia mais próximos Dele e jamais a perdemos. É um caminho único. E assim foi o professor Wagner de Castro, artista, pintor que colocou em suas telas o espiritualismo e o espiritismo. Bebeu nas fontes da sensibilidade, que é o que todo professor deveria fazer. Foi um mestre que deixava os alunos caminharem por conta própria. Ensinava, mas sabia que podia deixá-los livres, pois era o exemplo maior, porque tinha amor. Professor Wagner de Castro já estava e está num processo completo de educação que não precisa de faculdades ou títulos. Ao chegar perto dele era possível sentir a energia.

É com esse exemplo de professor e educação que termino este texto e peço desculpa por me alongar, mas o tema é instigante. Educar é um ato de amor. A Educação é um ato de amor. Trago aqui os dizeres de Paulo Freire: “Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não os homens não mmetamorfose-iie é possível o diálogo”. Termino assim com Freire e também com Kardec que diz: “Fora da caridade não há salvação” e “Espíritas: amai-vos e instruí-vos!”. Isso se resume em todo ensinamento de Jesus quando nos pede: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Amemo-nos e assim, eduquemo-nos.

 

* O pintor e professor Wagner de Castro (1917-2015) ficou conhecido por desenvolver uma arte própria, sem se ligar a nenhuma escola artística, mas que retrata a doutrina espírita de Allan Kardec da qual ele é adepto. Nascido em Franca – SP, radicou-se em Passos-MG ainda jovem. Sua pintura hiperrealista reflete seu pensamento espírita (não é psicografia). Para conhecer mais a obra de Wagner sugiro o site: http://wagnerdecastro.com/

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