Num jogo ideológico e numa análise discursiva, a cada sim que era dito na votação na câmara dos deputados pelo prosseguimento do impeachment, proliferavam simbologias que marcavam o “sim”. Era fácil notar, nem precisava ser analista do discurso, tanto que meu pai que assistia à votação comigo na sala disse: esse está com as vestimentas do sim. Essas vestimentas eram os símbolos do Brasil, bandeiras, verde e amarelo e muitas vezes um tratamento respeitoso ao se dirigir ao presidente.

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O que isso tem a ver com o que eu quero refletir? Que estamos vivendo um momento conturbado. Numa simples visita ao Facebook proliferam discursos antagônicos muitos em defesa da presidente e outros tantos a favor de torturador, fazendo celeuma por uma cuspida em um torturador, agora o que predomina é a aversão e o discurso do “bela, recatada e do lar” se referindo a uma reportagem sobre a “quase primeira-dama”, mulher de Michel Temer… E assim vai.

O que vejo é uma fragmentação da sociedade brasileira e da política, em que há um esvaziamento do pensamento crítico e da realidade histórica.

Parece que tudo que houve de bom no governo que se condena apagou-se de repente. Tantas escolas federais abertas, tantos programas sociais… O pobre teve vez. Mas o que impera agora é a saída de uma presidente que desagradou as elites e que mesmo sem ter crime comprovado contra ela, decidem tirá-la do poder simplesmente porque há um contragosto por não ter ganhado as eleições e ainda um golpe que se arma com o apoio da população: os mesmos que vão sofrer depois que as máscaras do governo que quer tomar o poder cair.

Uma amiga disse que deseja ao Temer e ao Cunha o Deus de Moisés. Um Deus irado que mande ao Brasil as sete pragas. Eu disse a ele que as sete pragas que virão sobre o Brasil serão muito piores do que aquelas do Deus de Moisés.

Estamos esperando para poder dizer: vocês não queriam isso, está vendo, não melhorou em nada. Espero que mordamos na língua e que isso não aconteça. Dizem que é o processo democrático. Então vamos respeitar também.

Não há legitimidade no impeachment. Não há legitimidade nos dizeres que circulam. Não querem acabar com a corrupção? Acabe com o presidente da Câmara e com esse vice que tem postura de golpista querendo tirar a presidente a todo custo. Na época de Collor, Itamar Franco se isolou e se isentou. Mas agora né…

Termino aqui essas reflexões, pois não podia deixar de fazê-las no meu espaço, até para registrar um momento vivido que jamais imaginei que fosse viver. Sinto-me no golpe de 64, sinto-me em grandes momentos da política brasileira, mas vivo o momento com grande pesar, porque tudo é tratado sem grande aprofundamento, sem estudo, sem reflexão numa disputa de egos e poderes. Tiremos as vestimentas do sim! Estudemos a história do Brasil e encontremos as respostas da crise que vivemos… e escrevo aqui pra não dizer que não falei da crise.