Leituras que se fazem na web são múltiplas. Por muitas vezes as leituras que se fazem não são só leituras. São vivências, são encontros, são identificações com aquilo que se procurava ler. Foi assim que conhecemos o blog Minha Vida Gay (http://minhavidagay.com.br), do Flávio, que está com 39 anos e mora em São Paulo, capital. Logo que iniciei a entrevista por e-mail perguntei o nome completo deste blogueiro que hoje apresentamos no projeto RELÊBLOGS: Rede de Leituras de Blogs. Mas aqui o Flávio, vai ser só Flávio. Não que ele precise se esconder por ser gay ou coisa do tipo, mas para evitar os “’carentes de plantão’ que invadiriam suas redes sociais”

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Muito mais que um diário

O impulso inicial do Blog foi de ser um “diário aberto” sobre vivências. “Como um bom ariano, até então tinha aprontado diversas peripécias: do casamento (quase que heteronormativo e quadrado) a vivências em saunas e com garotos de programa. Mas aí fui percebendo que as questões, tabus e dilemas que circundavam os meus pensamentos, dentro do armário e depois, poderiam ser os mesmos para inúmeros leitores. Daí comecei a escrever a eles, com tom opinativo e parcial sobre tais temas e conceitos da vida de uma pessoa que se atrai em alguma medida por outra do mesmo sexo”, conta Flávio.

O projeto cresceu e hoje o Minha Vida Gay, que de agora em diante trataremos por MVG, é um espaço amplo e que fala de tudo um pouco. Mas o que mais nos chamou a atenção foi a forma como o Flávio conduz o debate. Os temas são apresentados de forma equilibrada e é uma leitura gostosa e acolhedora. Isso mesmo. Muitas vezes o gay é escorraçado na sociedade. Tudo aquilo que ele quer ou gostaria de ouvir não é dito. No MVG eu sinto uma fala que alcança os corações, traz paz e serenidade pois se perceber: “nossa aquilo que eu vivo ele também vive (ou viveu)!”

E por que um blog e não um canal no YouTube ou outra rede social? Já pensou em ter um canal de vídeos? “Já pensei e tenho pensado. Existem duas questões para isso: (1) a produção, que exige mais “braços”, tempo e disposição e (2) a questão de vincular a minha imagem a um conceito tão amplo como a homossexualidade. Será que quero virar um porta voz exposto? Ser alvo de polêmicas? A escrita em si é menos invasiva (na questão de preservação da minha imagem) e costuma não entregar pronto as ideias. Para ler os textos do MVG, pressupõe-se inicialmente um interesse pela leitura. Acabo fechando para pessoas mais intelectualizadas ou dispostas a se intelectualizar. O vídeo é mais abrangente. Será que quero ser abrangente? Outro ponto do formato de escrita é o benefício pessoal: nada como escrever para cada vez escrever melhor”.

Um projeto acolhedor

E a escrita do MVG é muito boa. Essa proposta de acoplar outras mídias já foi colocada em prática, mas atualmente tá meio parada. É a rádio MVG onde Flávio postou vários depoimentos e entrevistas com homossexuais. Parece até que de alguns ele foi mentor na descoberta da identidade sexual. Olha só que legal. Por aí se vê, o que eu disse, projeto acolhedor! Coração grande esse Flávio! Demais! Mas por que a rádio está parada? “Por questões de “braços”, tempo e disposição está em stand by (rs)”.

Nessa onda de que blog dá dinheiro, muitas pessoas estão por aí buscando fazer uma grana. Esse não é o objetivo do Flávio. O blog é mesmo um hobby, um gosto pela escrita e uma forma encontrada para falar daquilo que gosta, da sua personalidade, das suas vivências, porque quando se escreve se alcança um número enorme de pessoas e que podem se identifcar com a escrita. Profissionalmente, Flávio administra sua primeira empresa desde os 23 anos. Ele já teve outras duas que seguiram com seus ex-sócios. “Hoje, no cotidiano cuido da parte comercial da minha empresa e supervisiono a gestão de projetos. Quem gerencia no dia-a-dia (meu braço direito) é meu gestor que, detalhe, é negro e não tem nível superior. Cito esse “detalhe” porque existe hoje essa pressão de que todo empresário é de “direita” e só visa ganho próprio. Essas generalizações como argumento de extremos são, na realidade, cegueiras fóbicas”, conta.

Com formação e carreira profissional sólidas, vincular o Blog MVG a algum tipo de lucratividade, poderia levar o projeto para a perda de seus próprios valores, da ideologia. “Se hoje eu ganhar 100 com ele, amanhã vou querer ganhar 1000. E, talvez, para ganhar 10.000 teria que abrir mão do propósito social – abrangente – para assumir algum estereótipo. Vou trocar “seres pensantes” por seres que querem entretenimento. Será que eu quero esse tipo de coisa?”, indaga o blogueiro e mostra que o movimento da Rede de Leituras de Blogs é mais abrangente e complexo, porque além do lucro e dos pensamentos capitalistas, o que se quer é comunicar, pensar, refletir, argumentar, contra-argumentar e socializar!

Resposta dos leitores

O MVG está no ar há quase 4 anos e a resposta é 95% positiva, no sentido de que os leitores encontram respostas às mais diversas questões sobre a própria homossexualidade. Tem gente que posta textos longos e outros fazem breves comentários. De tempos em tempos surgem leitores fiéis que passam meses comentando os textos. Depois somem e, de repente, a fidelidade se recicla com novos leitores assíduos. Os mais antigos, que acompanham o MVG desde o primeiro ano, aparecem esporadicamente. Mas estão lá. Modero todos os comentários. Permito todos aqueles que criticam negativamente o Blog para dar margem ao debate. Às vezes pintam leitores “alucinados”, no sentido de neuroses mesmo. Às vezes aparecem ativistas gays que querem brigar comigo (rs). Mas quando surgem posts de meninos muito novos, de 11 à 17 anos, eu seleciono e nem sempre publico. Minha maior preocupação são os pedófilos que se apropriam do meio web para conhecer meninos muito novos. Sou libertário, mas a regra nacional é clara: pedofilia é crime”, explica.

Reacionário, libertário, romântico, sonhador… Qual a personalidade homossexual que adota o Flávio e como foi para ele se descobrir homossexual? Quais as visões podemos ter da homossexualidade por meio do Minha Vida Gay? Em suas palavras: em essência uma personalidade forte. “Acredito com certa fidelidade na Astrologia (e não no horóscopo da semana). Sou ariano com ascendente em áries (sabe o Cazuza? rs) e acho que tais características impulsivas, reativas e intensas foram bastante predominantes até meus 33 anos. Hoje estou um “ariano adulto” (se isso realmente representa algo – rs). Gosto de praticar exercício físicos, gosto de escrever e estou sempre perto da música (toco piano e canto). Entender melhor sobre política nos últimos 3 anos e, mais do que isso, saber me posicionar e me portar diante do tema tem sido um novo interesse como hobby”.

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Vida em família e aceitação

Quanto à descoberta da homossexualidade, que creio eu deve ser um assunto sempre recorrente no espaço, e que foi um dos motivos pelos quais tive conhecimento do blog, para o blogueiro foi um processo de conscientização. “Quando a gente é pequeno, não entende direito o que é ser gay. Na ingenuidade da infância (pelo menos para quem foi criança no começo dos anos 80 – rs), me chamava a atenção a beleza de meninos, mais que de meninas. Mas não era só beleza e sim um tipo de aconchego emocional por determinados amigos. Depois, tal beleza se tornou atração sexual e o aconchego se definiu por afeto e aí, já ciente de conceitos sobre “ser gay”, pintou a dúvida, os diversos conflitos para um cara que nasceu em 1977 e assim por diante”. Diante disso vem a relação com a família. A relação com os pais, irmão e cunhada, hoje é bastante harmônica. Mas até os 33 anos, que Flávio lembra ser a idade de Cristo, ele saiu de certo calvário dos conflitos de ideais, valores e percepções de mundo em relação ao que seu pai compreendia. “Foi um começo de desligamento, para entender quem eu sou e o que era uma projeção de expectativas, fundamentalmente do meu pai. Há pais que criam os filhos para o mundo (no caso, minha mãe) e há pais que criam para si (caso do meu pai). Desde pequeno, a diversidade do mundo me parecia mais interessante do que a cartilha certa e segura que meu pai me impunha. Vivemos longos anos de bastante conflito, muitas brigas e posso afirmar que a minha sexualidade foi só um “temperinho” a mais dentro do caldeirão de diferenças. Posso dizer que minha mãe, meu irmão e minha cunhada tem aceitação sobre a minha sexualidade. Já meu pai está conformado, o que – a mim – é de ótimo tamanho para quem chegou aos 74 anos. Existe harmonia na relação familiar hoje”.

Quando perguntado sobre as contribuições do blog na vida dos homossexuais, nada melhor do que replicar algo sempre presente nos comentários recebidos pelo MVG: “Nossa, ler seus textos me dão paz. São luzes para as minhas dúvidas”. “De maneira mais concreta, fui mentor de 4 ou 5 meninos (aqueles que dão entrevista da Rádio MVG). Foram três anos de mentoria, com intersecções de amizade. Estavam acuados, com um pé dentro e outro fora do armário. Hoje, cada um está construindo seus modelos de vida (e de entendimento do que é ser gay) de maneira bastante particular. O maior sentido do MVG é quando ele deixar de ser visitado”. Nessa consciência de comprometimento e responsabilidade convido a todos a conhecer o http://minhavidagay.com.br

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