Na garagem da minha casa ligo o meu carro e saio para a rua rumo ao meu trabalho. Toda a cidade me olha. Como estou? Como sou? Os carros vão passando pela rua e eu observando-os. Alguns carros luxuosos, outros mais simples. Sei que meu carro é simples também. Está um pouco gasto pelo tempo, modelo antigo que nem fabrica mais.

car-mirror

Mas como é visto meu carro, como as outras pessoas, assim como eu faço com os delas, exergam o meu carro? Não sei, o que vejo é o carro dos outros. Não há espelhos nas ruas e assim só posso saber aquilo que está do outro lado, à minha frente, nunca a minha imagem.

Os olhos humanos tem potente visão. Graça divina é o sentido da visão. Poder enxergar o mundo, poder perceber a variedade de formas e cores e as diferenças entre as pessoas. Algumas baixas, outras altas, loiras, ou negras, homens e mulheres. Os olhos ficam no centro de nosso rosto, mas com eles só vejo para frente. Não há um mecanismo que me faça olhar para dentro de mim. Não com os olhos da carne. Mas com os olhos da alma, sim. Com esses é possível fazer o exame de mim.

O espelho! O espelho físico, quero dizer aqui… Que grande invenção humana! Com ele consigo me rebater do outro lado e ver como sou, a imagem que eu passo aos outros. O espelho! Ah, agora o espelho da alma… Esse sim é preciso usá-lo. É preciso ver aquilo que sou. Mas muitas vezes o meu espelho é o outro. Critico no outro aquilo que não gosto em mim. Sempre o problema é com o filho da vizinha, nunca comigo ou com o meu. A roupa feia é usada pelo moço do carro ao lado. Nunca por mim. O sujo que está em minha roupa só é enxergado por aquele que vê do outro lado.

Num momento porém, começo a perceber que tudo faz sentido. Que não sou realmente quem sou. Chega uma idade em que aquelas imagens virtuais que estavam na minha mente, já não condizem mais com aquilo que realmente sou. Nesse tempo, é preciso olhar mais nos espelhos tanto o físico quanto o da alma. É preciso ver as opiniões que tecem a meu respeito. É preciso fazer uma psicoterapia, para enxergar no fundo não aquilo que dizem que sou, mas aquilo que realmente sou.

Um certo dia me tropeço e caio. Levanto, porém. De repente, acordo e estou num sonho. É difícil acreditar naquilo que vi… Pois, o que eu vejo é o rosto do outro. O outro que há em mim.

Danilo Vizibeli

Professor, jornalista, mestre e doutorando em Linguística

*Para falar com a gente deixe nos comentários ou mande um e-mail para danilovizibeli@gmail.com