Somos acostumados com uma imagem mental da prática de leitura como algo obrigatório, indicada pelos professores e que geralmente acontece no ambiente escolar. A escola é o lugar propício para a prática de leitura e disseminação do conhecimento. Porém, muitas vezes não se transfere o hábito da leitura, porque o próprio professor não lê ou então, a transferência dos saberes dos livros é feita por modo enfadonho, chato, cansativo, não levando em conta as peculiaridades de cada leitor.

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Não dizemos sempre que cada ser humano é único? Pois então, assim também o é cada leitor. O que funciona para mim em termos de leitura não funciona para o meu amigo, meus familiares etc. Procuro levar em consideração em meus estudos que a leitura não se trata nem de liberdade excessiva nem de aprisionamento total. É um meio termo, como já foi tratado em outro texto. Trabalho com as possibilidades da leitura, sendo que todo e qualquer ser humano pode vir a se tornar um leitor.

É preciso uma boa dose de experimentação e paciência para se tornar um leitor. Experimentar métodos e técnicas, ver o que funciona e selecionar os títulos e temáticas. A descoberta do prazer da leitura acontece na descoberta daquilo que se quer e se necessita ler. Há uma gama enorme de títulos. Jamais iremos conseguir ler todos. A ilusão do controle da literatura total, da necessidade imposta de se ler tudo e ler cada vez mais nos torna escravos de um conhecimento aprisionante. Disse outro dia que se você é capaz de ler um livro ao ano, mas se o lê bem, que procura compreender os processos da produção textual, faz reflexões, pesquisa além daquilo que o livro diz, é melhor do que você ler tudo pela metade.

A sociedade está excassa em termos de leitura porque a mídia e os produtos da indústria cultural oferecem tudo muito pronto sem necessidade de intervenção do espectador e ainda com o poder de intervir em seus pensamentos e manipulá-lo. As novelas, por exemplo… Não é preciso nem um exercício mais aprofundando para se compreender sua trama, até porque elas não mudam muito.

Já a leitura e, aqui, a leitura dos clássicos e obras que tenham uma produção literária mais profunda, em que os sentidos são trabalhados procurando propiciar o movimento interpretativo, exige reflexão, exige construção, paciência eu digo, porque é preciso ver não só o texto, mas o que está por trás do texto, nas entrelinhas. Aquele que tem isso em mente lê cada vez mais e não somente lê, mas passa a escrever também, porque percebe que não é nenhuma mágica e não é nenhum bicho de sete cabeças, mas uma possibilidade. Assim, eu diria que todo aquele lê se torna amigo das palavras e tornando amigo das palavras é capaz de apoderá-las, ou pelo menos, contorná-las.