“Ouvi dizer que… Que a filha do vizinho está grávida… Que o marido da prima saiu de casa… Que a mãe do amigo da filha ganhou na Mega Sena e ficou milionária…” Esse movimento do “ouvir dizer que…”, o qual configura um boato ou uma fofoca, perpassa as conversas cotidianas e as interações humanas. É característico do sujeito querer saber da vida do outro, ou ainda contar e fofocar sobre a vida do outro. Mas nem sempre as palavras do boato são evidenciadas ao pé da letra. Elas podem ser encobertas, e o que confere o sentido de boato é justamente o não-falar, o calar, o deixar subtendido que… “eu disse isso, mas não disse; eu lavo minhas mãos, porque o pecado maior é daquele que é o personagem do boato, é sobre ele que recaem os julgamentos e não sobre mim que proferi esse discurso”.

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Neste texto apresento de forma resumida algumas considerações discursivas sobre o boato, tomando como aparato teórico o texto “Boatos e Silêncios: Os Trajetos dos Sentidos, os Percursos do Dizer”, da linguista Eni Orlandi, que está contido em sua obra Discurso e Texto: formulação e circulação dos sentidos.

Para tratar da questão, a estudiosa coloca como fator importante o silêncio, destacando várias formas em que a pausa, o intermeio das conversas e das palavras significam. É assim que se considera que “o silêncio não é falta de palavras (há palavras cheias de sentidos a não se dizer, logo cheias de silêncios) e onde o “branco” não é ausência de sentidos” (p. 129). Para tratar no viés da Análise do Discurso essa prática social, é preciso considerar que “a materialidade da forma discursiva implica o funcionamento ideológico da palavra” (Cf. Pêcheux, 1969 apud Orlandi, 2012, p. 129). Dessa forma, todo discurso, o qual se manifesta por meio da língua numa relação com a história, é carregado de ideologia.

É pensando assim que quando se coloca em jogo – e aqui em jogo de palavras e sentidos – os comportamentos e ações de uma pessoa que vira alvo de boato ou fofoca são instaurados jogos ideológicos e de valores. Os posicionamentos dos sujeitos se cruzam e se batem muitas vezes, a favor ou contra. Na maioria das vezes, contra. E é assim que há um jogo político, um jogo de negociação pelas palavras. Falar, por exemplo, que alguém foi pego fumando maconha em uma comunidade, onde usar a erva é algo trivial ou corriqueiro, não terá o menor sentido e não irá gerar nenhum confronto, pois os valores estão em sintonia e não em distonia.

As palavras não são propriedade de ninguém e são usadas conforme precisemos significar, representar e comunicar. Dessa forma, quando há a construção de enunciados – na prática da enunciação – há uma manipulação dos signos, sentidos e também dos silêncios.

Recorro ao fato atual de que o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto foi alvo de uma notícia veiculada no jornal Edição do Brasil, em que se dizia que ele tinha dito que “os aposentados são inúteis para a  sociedade”. A notícia era falsa, deturparam falas de Sakamoto e ainda transformaram em entrevista falsa textos escritos pelo cientista. Grande estudioso da comunicação, Leonardo escreveu, em seu blog, o artigo “Dez impactos imediatos causados por uma mentira difundida pela rede”, em que mostra o peso da propagação das mentiras e notícias falsas pela internet e redes sociais.

A título de fechamento, temos que pensar que os não-ditos muitas vezes reverberam mais que os ditos e que pensar por meio da linguagem, das práticas linguísticas, a formulação e a circulação desses discursos da negação do outro é colocar em pauta uma sociedade que precisa pensar nos sentidos não estáticos e no poder que eles exercem culminando em saberes que podem representar de forma disfórica uma dada situação, simplesmente por que no “autor” da fofoca ou da notícia está uma necessidade de apoderar-se do sentido e da vida das pessoas. Fofoquemos menos e discursivemos mais!

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ORLANDI, Eni. Boatos e silêncios: os trajetos dos sentidos, os percursos do dizer. IN: ___________. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. 4. ed. Campinas: Pontes, 2012.