Do alto dos meus 30 anos só agora pude ter um contato maior com a literatura afro-brasileira. E por quê? Porque ela não é ensinada na escola, não é divulgada, não é colocada como prioridade pelo mercado editorial. Que triste! Tenho visto escritos fantásticos, manifestos, textos de resistência e ainda muita poesia, muita literariedade, que ficam deixadas à margem, apenas porque a literatura do branco foi posta como melhor, foi categorizada no cânone da literatura brasileira.

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Conceição Evaristo

Este ano, em comemoração ao Dia da Consciência Negra, conheci outros autores negros por meio de colegas de trabalho. Os únicos que eu conhecia era Solano Trindade e Carolina Maria de Jesus. Mas nunca me aprofundei em suas obras. Sempre nos é colocada a obrigatoriedade de passar na frente das prioridades de leitura os textos vendáveis que são, por sinal, textos de brancos. Este ano conheci também Conceição Evaristo, por meio da obra “Olhos d’Água” que é leitura indicada no Vestibular da UEMG.

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Carolina Maria de Jesus

Por onde eu andava este tempo todo que não conheci a literatura afro-brasileira? Estava no meu lugar de branco. Já que estamos falando desta literatura, conhecida também por literatura negra, me veio a pergunta: literatura tem cor? É claro que não. Mas o que está em jogo é a subjugação a que os negros foram submetidos desde o passado cruel na história brasileira. É preciso que haja uma literatura negra para que estes autores falem uma só língua em dialetos diferentes, mostrando uma cultura rica que é apagada e, pior, negligenciada e inacessível nos bancos escolares e acadêmicos do Brasil.

Mesmo com a lei nº 10.636/2003 que prevê o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas muito pouco ainda é feito. É por isso que fiquei satisfeito em conhecer Lia Vieira, Mãe Beata, Oswaldo de Camargo, Luiz Silva (Cuti), Luiz Gama e tantos outros. Ter acesso e poder chegar um dia a ler e levar aos alunos, amigos e familiares as dores e vivências de Carolina Maria de Jesus em “Quarto de Despejo”, viver com as mulheres de “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo… é resgatar em mim nossa brasilidade, a autêntica brasilidade, de um país da diversidade, dos costumes multifacetados, das culturas entrecruzadas. Parabenizo a UEMG por colocar um livro de uma autora negra em seu vestibular.

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Solano Trindade
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