Diante da pergunta acima, que é título de um livro, do qual hoje irei falar, você deve estar se perguntando: é possível? Tem como? Até ter contato com essa obra, eu sempre me senti angustiado, martirizado, por não ter lido obras tão importantes. Cito algumas: não li Cem anos de solidão, não li Ulisses (James Joyce), não li Madame Bovary (será o próximo), não li vários e tantos outros livros. E em muitas situações eu fui confrontado e obrigado a falar sobre esses livros que não li. Nem que fosse para dizer apenas: desculpe, mas esse não li. Também em minhas aulas de literatura tenho que falar ou às vezes retomar aqueles que já esqueci.

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“Como falar dos livros que não lemos?” (Pierre Bayard, Objetiva, 207 páginas, esgotado) é uma obra de um professor de literatura francesa em uma renomada universidade de Paris. Nele, de maneira satírica e ao mesmo tempo reflexiva, Bayard disserta sobre a não-leitura em contraponto com a leitura. É refletido sobre até onde vai a não-leitura e a leitura. Um livro que eu li e esqueci eu posso dizer que li? E aquele que eu não li, mas pesquisei sobre, ouvir falar, eu posso dizer que li? E por que refletir sobre, por que há esse estigma da não-leitura, olhada de viés e como algo ruim? Bayard (2007) explica:

“Assim, com efeito, aceitar comunicar a própria experiência não se dá sem certa coragem, e não surpreende que tão poucos textos exaltem os méritos da não leitura. É que ela se choca com toda uma série de imposições interiorizadas que impedem que se enfrente diretamente a questão, como eu tentarei fazer aqui. Ao menos três são determinantes:

– A obrigação de ler

– A obrigação de ler tudo

– Ao discurso mantido sobre os livros” (p.14-15)

 

Tecendo a tese da não-leitura ele traça algumas categorias de livros que implicam na suposição da leitura ou não leitura: Livros Lidos (LL), Livros Desconhecidos (LD), Livros que ouvimos falar (LO), Livros Folheados (LF), Livros Esquecidos (LE).

A obra é dividida em três partes: Maneiras de não ler, Situações de Discurso e Condutas a adotar. O interessante é que para argumentar sobre a questão, em todas as partes ele utiliza diversos exemplos de livros e autores, enredos e tramas, para explicar a não leitura. Na primeira parte, destaca quatro situações principais em que ocorre a não-leitura: Os livros que não conhecemos, Os livros que folheamos, Os livros de que ouvimos falar, Os livros que esquecemos. Perambulo em todas estas categorias. O alívio que Bayard nos dá é que, mesmo uma pessoa erudita, leitora voraz, jamais conseguirá ler a totalidade dos livros existentes. Porque este número é praticamente infinito. Enquanto escrevo este texto, milhares de novos livros estão sendo escritos ou impressos. Quantas vezes me senti entristecido ao ver alguém falar, “você conhece o livro tal?” e não conheço. E essas situações acontecem nos mais variados momentos. E é disso que trata a segunda parte, elencando-se quatro situações de discurso que são: Na vida mundana, Diante de um professor, Diante do escritor, Com o ser amado. E na última parte o autor apresenta as condutas a adotar: Não ter vergonha, Impor as próprias ideias, Inventar os livros, Falar de si.

Na conclusão final chega-se a tese fundamental: “Falar de livros não lidos é uma verdadeira atividade de criação, tão digna, mesmo que mais discreta, quanto atividades mais reconhecidas socialmente” (p.204). É um outro olhar. Já escrevi muito sobre leitura, tema das minhas pesquisas e acredito que nem libertação total, nem aprisionamento, quando se trata de leitura temos que mudar o verbo, do ter para o poder. Eu posso ler. Não tenho que ler. Por isso não tenho obrigação de ler tudo, não tenho motivação para ler tudo. A leitura se faz mediante uma construção histórica e aí surgem as histórias de leitura. A minha não é igual as suas e o que me levou a ler determinados livros e não outros é diferente do que o levou a ler os livros que leu. Assim, falar dos livros que não lemos é possível, pois na minha história de leitura não teve espaço para estes livros, devido a várias circunstâncias e posso, mesmo assim, conhecê-los e travar diálogos com quem os conhece.

Indico a leitura deste livro àqueles que se sentem na mesma angústia que eu me sentia. Todo o discurso da crise da leitura só existe porque há uma não-leitura, mas esta pode ser acompanhada da prática da leitura, pois escutando e falando sobre um livro que não se leu pode vir a lê-lo. Continuarei a desvendar os livros que não li. Porque até mesmo, não tenho condições de ler todos eles e todos aqueles que me são indicados. “Como falar dos livros que não lemos?” foi me indicado pela Profa. Dra. Luzmara Curcino na aula da pós. Este eu aceitei a ler, porque muito me chamou a atenção como a professora falava desta obra, mas há outros que podem ser citados e que irão ficar apenas na categoria dos livros que ouvi falar, ou então dos livros esquecidos, ou vou folheá-lo e livros que folheei, porque há muitas maneiras de se ler, mesmo não lendo o texto literal, integral.

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