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Essa semana quando falava da importância da leitura em sala de aula, fui questionado por um aluno: “Professor, eu tenho que ler? Eu tenho que ler essas obras clássicas, porque eu estudo muito, eu até leio um pouco, mas não são essas leituras profundas que você fala”. Aí eu disse ao aluno que em se tratando de leitura precisamos mudar o verbo. “Você não tem que ler, e ler obras profundas. Mas você pode!” É possibilidade e não obrigação.

Estou fazendo uma disciplina no Doutorado que se intitula “Estudos da Leitura na Análise do Discurso e na História Cultural” e fui apresentado a um livro que adquiri e iniciei a leitura que se chama “Como falar dos livros que não lemos”, do autor francês, professor de literatura francesa e psicanalista Pierre Bayard. Nele o escritor analisa a “não-leitura”.

Perpassam no Brasil, discursos de que o brasileiro não lê. E ainda em toda ordem da leitura há discursos que inferem que há uma obrigação da leitura, que há uma obrigação de se ler tudo e que alguns livros podem ser lidos e outros não. Bayard desconstrói alguns mitos e sustenta que às vezes quando falamos de um livro, sem ao menos ter lido uma página dele, nos apropriamos muitos mais do que quando fazemos a leitura e não aprofundamos na palavra, ficamos à margem, esquecemos o conteúdo do livro e ele passa, como um rio, em nossas vidas.

É evidente que há uma propagação de um discurso da crise da leitura. Nesse aspecto, a não-leitura tomou lugar privilegiado e ao mesmo tempo sustentada como algo negativo. Numa desconstrução discursiva, esse fenômeno pode não ser lá tão ruim. O que está em debate na verdade é “o que é leitura na era contemporânea?”

Em meio a tantas práticas, dizer que se pode ler como se lia no século XIX ou XX é tão contraditório que se fecham possibilidades de leitura. Trabalho nessa tese, de que o que há são possibilidades de leituras. Você pode ler algo que não está no cânone literário? Pode! Você pode até não ler um livro e conhecê-lo? Pode! Agora você tem? Não! Se todos fossem depender da obrigatoriedade da leitura muitos não a fariam. E muitas coisas ficariam prejudicadas porque se deu importância só a leitura e não a outros fatores. O ato de ler é apenas uma das maneiras de adquirir conhecimento e de se construir enquanto sujeito, mas não é o único.

Dizia Paulo Freire que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Não nos fechemos numa escuridão literária e saibamos dizer não quando não queremos ler, mas sim quando realmente é do nosso agrado. Não ler também representa o ser, assim como quando ele lê. Quando se trata de leitura vamos mudar o verbo. De verbos mais presos, mais enclausurados, para verbos mais livres emancipadores. Ler é possível! Não obrigação!