No discurso bíblico, religioso ou literário é sempre comum alguma associação com alguma parte do corpo e, principalmente, com os cabelos. É assim que Sansão concentrava sua força nos cabelos, Rapunzel jogou suas tranças e vários outros.

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Quais forças, mistérios, sentidos guardam os cabelos?

Parecem ser um dos elementos discursivos que constituem o sujeito em relação com o corpo e que se apresenta em traços sociais, culturais e históricos. Se houvesse uma convenção de que todos nós rasparíamos nossas cabeças e seríamos carecas, as cabeças lisas seriam o elemento que conduziria à prática de identificação dos seres em sociedade. Mas não é assim. Tanto que até mesmo os homens, que até pouco tempo eram tidos sem vaidade o que hoje mudou fortemente, se preocupam com a calvície e com a perda das madeixas.

Quando uma pessoa perde os cabelos por necessidade de tratamento de saúde, como é o caso das quimioterapias, isso mexe muito com o lado emocional e psicológico, pois não bastasse todo o sofrimento da doença é preciso controlar os sentimentos da estética (beleza), autoestima, vivacidade que mostram as forças do cabelo.

Ao passar no vestibular, nos trotes de amigos raspam a cabeça do calouro, pois ao tirar os fios da cabeça, parece dar uma punição, que ao mesmo tempo é um prêmio e que marca um momento e um acontecimento no fio discursivo mais importante que uma pessoa apresenta, que ela está num momento diferente, surreal.

Penteados elaborados para casamento… Cortes diferentes na modernidade… Cores de cabelos as mais variadas possíveis… Já postamos aqui a história de Jéssica que adora colorir os cabelos e a cada semana está com a cabeleira de uma cor. Além disso, rastafáris, tranças, apliques…

O cabelo é ainda fator de preconceitos. O cabelo afro foi denominado por muitos como “cabelo ruim”, como se existisse cabelos bons e ruins. O que seria um cabelo bom? Quando Deus criou o cabelo, acho que a função deve ter sido a mesma, que talvez seja proteger a couraça da cabeça e nos proteger de frio e intempéries.

Na análise do discurso, temos a noção de dispositivo. Segundo Revel (2005, p.39) Foucault definiu este termo como “as técnicas, as estratégias e as formas de assujeitamento utilizadas pelo poder”. Há então a construção do dispositivo do cabelo, assim como há o dispositivo da voz, da moda, da música e vários outros que se marcam no corpo, local de inscrição do sujeito no mundo.

O que meu cabelo significa para mim? Na identidade de cada pessoa, uma marca, um estilo. Sobredeterminações a corpos dóceis ou resistentes? Olhar para o cabelo, olhar para o ser, dizer e significar.

Quantas forças, mistérios e sentidos guardam os cabelos? Muitos. Ainda estamos tentando identificá-los e esse foi só o começo de uma pequena tentativa. Que separemos a nível de estudos e que possamos em outras ocasiões trazer outras reflexões sobre as forças, os mistérios e os sentidos do cabelo.

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