Uma menina de 14 anos é encarregada de guardar os poucos livros que fazem parte de uma escola clandestina que é mantida no barracão 31 do campo BIIb de Auschwitz-Birkenau. O nome dela é Dita – Edita Adlerova – com quem eu passei minhas últimas semanas lendo o romance de Antonio G. Iturbe, “A Bibliotecária de Auschwitz”.

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Intitulo como uma arqueologia dos campos de concentração nazistas, a realidade mostrada no livro que é baseado em história real. A cada cena é possível sentir todo o sofrimento dos judeus nas câmaras de gás, nas precárias condições – é até eufemismo chamar de precárias condições, porque o que não tinha mesmo eram condições. Um ser humano chamado Hitler, que mais se compara ao diabo personificado na Terra.

Em meio à Segunda Guerra Mundial, livros como “O conde de Monte Cristo” e outros ilustram o cenário do que a leitura pode fazer com o homem: libertá-lo. E assim se sente Dita, liberta, para ir e buscar aquilo que deseja, a liberdade real. E quando suas forças acabam, quando é transferida para outro campo na Alemanha, quando está prestes a sucumbir a guerra acaba e ela fica realmente livre. Perde o pai, perde a mãe, mas não perde a esperança.

Um livro sobre a esperança, um livro sobre a leitura, não só a leitura de livros, quando Dita institui os livros vivos que são as pessoas que contam as histórias. Institui-se assim que o conhecimento é pérola preciosa e que não é tirado de ninguém, que os livros nada mais fazem do que um registro, mas é na memória e, principalmente, no coração que fica arquivado aquilo que sabemos.

Um paralelo se pode fazer com “A menina que roubava livros”, que ficou muito mais conhecido e até virou filme. Só que neste, a luta se faz de fora, como os judeus foram perseguidos para poderem ser capturados e levados aos campos de concentração. Em “A Bibliotecária de Auschwitz” a perspectiva é outra. É mostrado o lado de dentro, como que os judeus foram subjugados e execrados com todo torpor de crueldade. Mas, em ambos, os livros são o mote da história, por mostrar que o conhecimento é o que acaba com qualquer guerra. Um fantasma! Sim, a guerra é um fantasma e os livros são a arma da resistência.

No post anterior falávamos sobre resistência e hegemonia e neste não deixamos de falar sobre o mesmo assunto, pois o que nada mais é um livro na mão de quem já não tem mais esperança do que uma forte resistência sobre o poder e o saber? Em que guerra nos metemos hoje para podermos representar a leitura dentro e fora de nós? A humanidade evoluiu muito e não temos mais o holocausto como tivemos nesses campos de concentração, mas se não ficarmos espertos e lutarmos contra a hegemonia da guerra que sempre paira em cima de nós, iremos novamente ressuscitar esses fantasmas. Que possam existir livros que não nos deixe a mercê destes fantasmas. E que existam “Ditas” para levá-los onde quer que seja preciso. Que existam não só as bibliotecas físicas, mas as bibliotecas ambulantes, as pessoas que tem um mínimo de condição de ajudar os outros e levar seu conhecimento adiante. Vejo como minha única missão no mundo esta: levar às pessoas aquilo que aprendi de graça e sob as bençãos de Deus… O privilégio que tive de poder ter uma boa educação e sempre ter livros, ofertados no início por minha mãe e hoje comprados com meu próprio dinheiro. Que eu possa ter em “A Bibliotecária”, a certeza de poder colocar em prática este “bibliotecário” que existe em mim.