Foi realizado de 02 a 04 de setembro de 2015, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o IV CIAD – Colóquio Internacional de Análise do Discurso, que teve como tema “A produção dos consensos e a conquista das resistências: os discursos nos movimentos do mundo contemporâneo”. O evento foi organizado pelo grupo Labor e pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFSCar – PPGL.

O objetivo deste texto é fazer uma apresentação do que tratou o evento e apresentar a conferência do Professor Marc Angenot que teve como título “Hegemonias e dissidências dos discursos no mundo contemporâneo”.

Prof. Dr. Marc Angenot
Prof. Dr. Marc Angenot

Onde está a Análise do Discurso (AD)? Onde está a Linguística? De onde surge essa gente toda que fala bonito, mas ao mesmo tempo não diz nada? Nós, como pesquisadores do campo da AD e como pós-graduandos, em nível de Doutorado, muitas vezes nos pegamos perdidos e desanimados, por ser algo tão subjetivo e ao mesmo tempo, pouco concreto. Ficamos, no entanto, no movimento de questionar o que é a concretude e de perceber o nível interpretativo e o quanto já crescemos como seres humanos, ao desvendar as tramas disso que se chama “discurso”.

Mas o que é o discurso? – foi o que nos fora perguntado dias atrás. É o que estamos tentando compreender, é o que estamos tentando definir, mas que por ora não tem uma definição delimitada. O discurso não é nada além daquilo o que se diz, mas além do dizer no sentido de palavra, de verbo, aquilo que se materializa pela língua ou pelos sistemas simbólicos e que é carregado de sentido. Por isso, todo discurso é prática e carrega poderes e saberes, e quando se profere um discurso (não proferimento de discurso político etc., mas proferimento de discurso enquanto atividade significante) estamos ocupando posições num jogo (discursivo).

Primeiramente vamos ao dicionário para podermos entender do que trata estas temáticas, que se apresentam tão complexas para muitos como a questão das hegemonias e dissidências e dos consensos e resistências.

hegemonia

substantivo feminino

  1. 1. supremacia, influência preponderante exercida por cidade, povo, país etc. sobre outros.
  2. 2. ext.autoridade soberana; liderança, predominância ou superioridade.

dissidência

substantivo feminino

  1. 1. desavença, conflito.
  2. 2. ato de separar-se (uma parcela de um grupo, agremiação, partido etc.) em virtude de divergência de opiniões; cisma, cisão.

consenso

substantivo masculino

  1. 1. concordância ou uniformidade de opiniões, pensamentos, sentimentos, crenças etc., da maioria ou da totalidade de membros de uma coletividade.
  2. 2. bom senso, senso comum.

resistência

substantivo feminino

  1. 1. ato ou efeito de resistir.
  2. 2. propriedade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo.

Podemos perceber de antemão, que a hegemonia e o consenso são sinônimos, são a estabilidade, a ordem. Já a dissidência e a resistência, também sinônimos, são a desestabilização, a fuga da ordem vigente, a voz que grita, a reverberação dos sentidos.

Marc Angenot trouxe para a AD o conceito de hegemonia e dissidência, que em outros momentos da construção do campo teórico foram utilizados outros termos no lugar destes, como assujeitamento e opressão.

Elaborou o filósofo, uma teoria do discurso social, por serem os discursos construídos em sociedade. Tratou dos discursos em um recorte sincrônico trabalhando os discursos e as representações nessa possibilidade de uma crença na sincronia. Percebeu assim haver uma hegemonia discursiva que configura grandes pensamentos, como, por exemplo, grandes teorias.

Para Angenot, o discurso social é “tudo o que se escreve e se difunde na sociedade – representado na mídia e na internet / delimita e organiza o dizível, o narrável”.

Essa hegemonia discursiva tende a integrar o discurso literário, o filosófico, político etc.. – e cria um “mercado de discursos”. Digo eu que parece que há uma sobreposição de temas que sempre aparecem na mídia, seja na esfera social de vivência, e que parece haver uma prateleira de supermercado, onde ficam os discursos, que mesmo que não falem a respeito de tal ou tal tema é sempre dito, organizado, estruturado e funciona da mesma forma.

Um dos objetos de pesquisa do estudioso, pelo qual chegou a essas conclusões foram análises de materiais impressos na França de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 1889, uma variedade de tipos de impressos.

Da política estabelecida aos ruídos da periferia, aquilo que Bakhtin chama de vozes sociais presentes nos discursos. O cru e o podre aparecem de 1889 a 1890, com a emergência da sociedade de massa. Retomando Bakhtin que fazia alusão à heteroglossia (falar em várias línguas, a plurivocidade), à primeira vista, a hegemonia aborda vários temas, mas o que se percebe, através dos estudos de Angenot é a criação de um espaço de interações, de imposições e pré-construídos – enunciados da sociedade – elos de uma cadeia dialógica.

Posto isto, os discursos são perpassados pelas tendências, valores e teorias da época – intertextualidade e interdiscursividade. As práticas significantes de uma sociedade não são simplesmente justapostas. A forma e o conteúdo dessas práticas se repetem ou se alteram em menor ou maior grau, parecendo haver a dominância de certos fatos semióticos.

Ao mesmo tempo em que a prática discursiva procura representar o mundo, há outras práticas discursivas e sociais que procuram silenciar, ignorar, deixar na sombra. Isso que se chama de discurso social, mostra que havendo uma tendência à hegemonia parece perceber a sociedade como única.

Enquanto o analista faz a análise de discursos procura contribuir para construir a realidade e a história. E nessa busca é preciso ir além do pré-construído, do já-dito, do dado hegemônico e olhar para as dissidências (ou resistência), para as periferias, contra-discursos, um estado de sociedade que é construído e não um fato de natureza.

Se por um lado há um fracionamento e divisão da sociedade (hegemonia), por outro há transformações, cortes, rupturas, reatualizações. Não deixemos de falar em discurso (s), pois olhando para ele (s) estaremos compreendendo o funcionamento da cadeia de significantes de uma sociedade.