Pensando em algumas questões que quero abordar aqui no Espaço da Gente fui selecionando e filtrando as “formações discursivas” que me chegavam do inconsciente para o consciente e percebi que todas podem ser agrupadas num discurso do excesso.

Mas o que seria isso? Percebi primeiro a obesidade. Hoje comemos demais, guloseimas demais, facilidade na produção de alimentos. Ao mesmo tempo vem um discurso de excesso da preocupação com o corpo. Exercícios físicos demais, anabolizantes, suplementos, músculos, corpos sarados…

Por que tanto?

Outro discurso que impera é o da felicidade plena e ao mesmo tempo da perfeição. Tudo tem que ser perfeito, tudo tem que ser pelo prazer, nada mais do que o simples e máximo prazer. Divertir demais, cantar e gritar demais, músicas que não dizem nada (e se repetem, repetem, repetem…), festa para tudo!

Configurando este texto, – já que o processo de escrita nunca é um processo direto, ele vai acontecendo, amadurecendo e a palavra, então, nasce! – observei algumas notícias na mídia de que agora estão vendendo frutas descascadas, prontas para o consumo. E parece que o preço é até mais em conta. Veja só: novamente, discurso do excesso. Tudo pronto. Nenhum esforço. O excesso hoje é o inverso. O que exigia dificuldade, raciocínio, conquista, hoje está a um palmo da mão, basta o dinheiro comprar. O excesso do comodismo, transformando seres humanos em seres de outra dimensão. Que dificuldade há em descascar uma fruta, tirar as sementes e saboreá-la? Confesso que na onda da preguiça até eu gostaria de ter os gominhos de mexerica prontinhos para comer, mas e aquele cheirinho na mão que nos entrega que comemos a danadinha? O gosto de infância, quando na minha tinham três mexeriqueiras no nosso quintal e a gente desenvolvia o nosso crescimento embaixo delas: experiências e sensações.

mexerica

Mas agora o que veio é o excesso! Não há mais equilíbrio. E o que temos é o muito, o tudo, o maior. Por quê? Onde vamos parar?

Necessitamos aprofundar mais na questão para chegarmos a uma saída mais viável, se é que ela existe. O que é possível observar é que ao mesmo tempo em que há o discurso do excesso é porque o homem se reduziu ao mínimo. Cresceu muito em inteligência, mas desenvolveu pouco o sentimento. Estão querendo nos comparar às máquinas e se entrarmos nessa onda, perderemos a identidade de “homem”. Seremos daqui uns dias um ser qualquer, menos humano.

Convoco os leitores a pensarem e a refletirem comigo e a não ficarmos de braços cruzados. Mas como? Inserindo em nossas vidas o sentimento. Descomplicando o que é complicado. Comendo menos quando o peso a mais começar a aparecer, mas também não ficar fissurado em tomar suplementos e ter o corpo perfeito. Sentir tristeza às vezes é normal e sacrificar e perder um momento de prazer, faz parte (do crescimento, principalmente). Inserir em nossas vidas o sentimento é olhar com mais leveza, nem mínimo, nem máximo: o meio. E que quando vierem esses discursos do excesso que a todo momento nos chegam pela mídia, possamos deletá-los, jogá-los na lixeira: pois aqui já tem arquivo demais, preciso de espaço para mim!