DANILO VIZIBELI

Do Espaço da Gente, colaborou GISELE SILVA OLIVEIRA

Pouco antes do início das férias escolares, conversei com o Professor Luís Henrique Silva Novais, que é docente no Instituto Federal do Sul de Minas – IFSULDEMINAS – Campus Passos (MG). Luís é querido por todos e, em sua juventude, já pode ser considerado um grande literato, devido ao grande valor estético de seus textos. Recentemente ele publicou a obra “Venha quando for escuro…” pela Casa Editorial Arte Desemboque. Uma reunião de diversos contos, que tratam de temas interessantes da alma humana: a iniciação sexual de um garoto, a menina cega que conhece o mundo pelo toque das mãos e diversas reflexões que aprofundam o leitor na sua busca íntima por resposta fazem parte dos escritos de Luís. Nesta entrevista, ele fala sobre o livro e sobre sua visão do que é literatura e o trabalho de escrita.

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Como começou sua caminhada no mundo das letras e como foram suas primeiras produções?

Quando mais novo, eu não tinha uma relação muito íntima com o texto e a literatura. Eu comecei mesmo a ter uma relação mais próxima com o texto literário no fim do ensino médio, quando começaram as paixões da adolescência. Conheci uma garota e ela lia muito. Comecei a ler e descobri, a partir destas leituras, que me identificava muito com o texto e que ele me trazia uma série de questões,ajudava a dar forma a uma série de interrogações que eu não conseguia sequer definir quais eram. A partir disso comecei a ler cada vez mais. E a partir destas leituras senti a necessidade de escrever. Porque um texto é sempre algo que questiona a gente. E para essas questões precisamos dar algum tipo de resposta. Então a escrita entrou num processo de busca que era bem particular, de autoconhecimento. Não era uma escrita literária ainda, mas até bem adolescente. Com o fim do ensino médio meu processo de leitura continuou e eu fui descobrindo novos autores, sobretudo, aqueles que diziam algo na minha intimidade. Isso foi se intensificando ao ponto de eu escolher fazer o curso de Letras. A escrita literária foi algo que foi acontecendo, eu não planejei.

Como surgiu o projeto literário de “Venha quando for escuro”?

Este livro não surgiu enquanto livro. As histórias não foram feitas para isso. Elas foram se tornando um livro, à medida que foram acontecendo e num determinado momento eu percebi que podia ser uma obra. Aí comecei a conduzir a escrita pensando nessa ideia. Quando eu lia essas histórias eu via que havia uma relação, algo que perpassava todas elas e percebi que tinha muito a ver com as coisas que venho observando, pensando. O livro surgiu depois que me tornei leitor de algumas histórias que eu já tinha escrito e a partir deste momento as outras foram surgindo com mais coerência para este projeto.

Como é o seu processo de criação? Quando você gosta de escrever, como você escreve, o que te motiva? Podemos separar Literatura e Realidade?

Toda criação artística, seja literária ou não, mas sobretudo a literatura, trabalha com duas coisas, principalmente. Uma delas é a memória. Acho que todo texto literário dialoga, às vezes mais diretamente, às vezes nem tanto, com uma memória. E a outra é a imaginação; de você criar algo. A memória e a imaginação não são eventos, ações, entidades, não são coisas que estão distantes da realidade. A memória, por mais que a princípio ela tenha uma relação com a experiência vivida, só é engatilhada a partir de uma relação com o presente. Algo no presente dispara essa memória. Então, não está presa ao passado. Porém, mobiliza algo que é fundamental para a identidade daquele que percebe o mundo a partir de uma perspectiva. É uma marca de identidade, ou seja, de uma trajetória existencial muito particular por meio da qual, algumas experiências foram se somando e moldando um olhar para o mundo. São as experiências do presente que disparam em nós reflexões sobre um determinado assunto, questões. A imaginação também. Não está distante do presente, do real, daquilo que consideramos como o real. Existe a partir de uma percepção da realidade. É, muitas vezes, uma necessidade de transcender ou confrontar a realidade, ou mesmo de afirmá-la. Não existe fora do mundo, mas em uma relação direta com ele. A Literatura é sempre ligada a um real fora do texto, mas funda uma nova realidade que é o próprio texto. E não se submete ou não se contém ao que é real. É uma relação muito específica. Depende do real, mas não depende unicamente dele.

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Quais as temáticas abordadas nessa obra?

Tentei trabalhar a escrita de maneira mais consciente e buscando uma relação mais artesanal. Nesse sentido, por mais que estas histórias fossem minha perspectiva sobre uma série de coisas, tentei me afastar para que eu pudesse manusear e construir o texto. A temática principal talvez seja a representação do feminino como foco. Em quase todas as histórias, o feminino tem uma importância muito grande. Se não a mulher como protagonista, mas como motivadora da narrativa. Porque o universo feminino para mim é distante, ou seja, é uma realidade que eu não cresci, um lugar em que eu não posso pisar diretamente. Só posso mesmo imaginar, ficcionalizar, e esta foi uma estratégia para que eu tivesse uma relação maior com a escrita e pudesse imaginar algo.

Há algum autor ou autores que influenciaram na sua trajetória de escrita? Quais os autores que você considera como referência para o seu processo literário?

Sempre há determinados textos que provocam a gente. Ninguém escreve a partir do nada. Há alguns autores ou textos com os quais há uma relação mais afetiva, que dialogam mais diretamente com aquilo que procuramos e com a maneira que pensamos. Leio bastante e gosto dos escritores contemporâneos também, mas há alguns que foram me ajudando e foram importantes na minha trajetória. Entre eles, eu diria Drummond, que eu nunca entendi direito e acho que por isso mesmo ele se torna importante. Tem um poema dele que diz assim: “trouxeste a chave?” Como se ele perguntasse diretamente se trouxemos a chave para entrar nesse universo que é a poesia, e eu diria a escrita. E fazendo isso, pelo menos comigo, ele me levou a buscar que chave seria essa. Outro poema é o “Desencanto”, de Manuel Bandeira, no qual apresenta um texto totalmente pessimista num momento em que eu estava vivendo grandes alegrias. E com isso queremos dar uma resposta ao autor. Um autor que me ajudou muito e abriu minha cabeça para pensar foi Rubem Alves, porque ele suscita a curiosidade a uma série de coisas: religião, sexualidade, memória… Um texto de uma leveza extrema, mas que nos tira do chão para pensar. Alcione Araújo, também teve destaque, escritor mineiro, romancista, teatrólogo, filósofo. Sempre lia os textos dele, pois têm uma profundidade muito interessante.

Há nos contos uma veia erótica muito forte, mas ao mesmo tempo feita com muita sutileza e poeticidade. Você já deve ter sido questionado com relação a isso. Como você trabalha com esses questionamentos?

Não podemos ficar no equívoco de acreditar que a figura do escritor, da pessoa do escritor, e do autor do livro são a mesma pessoa. Quando você faz a opção de construir uma determinada história, esse autor também é uma ficção. Cada livro, cada história é uma escrita. A história em si determina a escrita. É um processo de descoberta e quase uma reinvenção de uma linguagem específica que aquele tipo de texto exige. A figura desse senhor, que entre outros senhores é o escritor – como diz Roland Barthes: “o escritor nada mais é do que um senhor entre senhores” – é uma pessoa comum. Mas esta relação de criar, de artista, é uma relação em que cria-se inclusive uma outra figura, que vai lapidar um tipo específico de linguagem que só vai existir naquele texto. É complicada essa confusão entre o escritor e o autor. A linguagem que ele funda, funda uma linguagem específica naquele texto. Falando especificamente do conto “Venha quando for escuro”, ele joga com várias ambiguidades. Trabalha intencionalmente com uma coisa que é a erótica da linguagem, não necessariamente do corpo. Precisa do outro, deseja-o e necessita do seu desejo. O sentido do texto só vai existir na medida em que o leitor topar participar desse jogo de desejo. Ele entende que o texto deseja que ele participe desse jogo. Se ele topa participar, aí sim o sentido pode acontecer. Então, a linguagem dos contos é erótica nesse sentido. Aquilo que revela, sugere, mas não completamente. Incita, mas não confirma. E que precisa que o outro se mantenha em uma certa suspensão para que aconteça. Queria mesmo que o leitor se sentisse desejado pelo texto. Ao mesmo tempo, falar de algumas questões que são tidas como tabus é fundamental por que fazem parte da experiência humana.

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O que nos diz a capa? Vemos que é um pedaço de tecido, rústico, mas que ao mesmo tempo parece ser uma cortina, talvez?

A ideia de sedução está muito escondida aí na capa. Daquilo que revela e não revela. Daquilo que se permite vislumbrar, mas não completamente. E o jogo de contrastes entre claro e escuro. Foi uma sugestão do editor. É uma fotografia de Katia Portes.

Luís, neste término da nossa entrevista, deixo aberto para os seus comentários, suas reflexões. E desde já lhe agradeço por esta conversa.

Sobre o ato de escrever, um outro aspecto que nesse processo todo de escrita e de até publicar um livro, e que eu não posso esquecer é que eu sou um cara negro que escrevo. E no Brasil isso tem algumas implicações. Acredito que no Brasil você ser negro e escrever é uma coisa ainda hoje completamente complicada. Pra todo mundo é difícil, mas para o negro é ainda mais. Não são registrados na memória, os autores negros. Se observarmos na foto oficial da Academia Brasileira de Letras, não há nenhum autor que seja negro. Se observarmos os escritores que aparecem na mídia, não encontramos negros. O que pode levar uma criança negra a pensar que ser escritor não é uma possibilidade para ela. E eu acho que ser escritor, a mulher que escreve por exemplo, as minorias, não podem deixar de refletir sobre isso. Pois o processo histórico do Brasil deixou o negro à margem. A alfabetização do negro foi um processo diferente e que não garantiu a ele inserção nesse universo da escrita, com autonomia de pensamento, de criatividade. Escrever foi também, para mim, tomar consciência de que eu sou um cara negro que escreve. E isso acaba tendo algumas implicações específicas no que é escrever. Não que esse tema esteja especificamente nos contos. Na verdade, não está nitidamente. Mas o ato de escrever está completamente carregado dessa consciência também.