O texto de hoje surge da proposta de redação do mês de Maio da página Vestibular (UOL). O objetivo da proposta é que o autor responda à questão: O conceito de família pode ou não pode mudar? Como exercício, aqui vai a minha escrita sobre o tema.

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Responder à pergunta se o conceito de família pode ou não mudar, é um tanto retórica e nos leva a responder que sim, pois o fato é que o conceito de família já mudou. E mudou muito. Antigamente, até há bem pouco tempo, somente o marido saía para trabalhar e a mulher – alma feminina, sensibilidade em excesso – cuidava da casa, dos filhos, era dona do lar e pouco tinha de direito no mundo exterior. Até pouco tempo a mulher era relegada a segundo plano. Longe das discussões de gênero e papéis, é possível encontrar na atualidade famílias de todos os tipos. As tradicionais ainda permanecem, mas diminuem a cada dia mais os seus números.

Temos família formada de mãe separada com os filhos, de mãe solteira, de pai viúvo com sua prole, de mãe, padrasto – este o novo relacionamento da mãe – e os enteados… enfim… ficaríamos hora enumerando.

O que parece que toma conta da problemática envolvida no projeto de lei (PL 6583/13), que trata do Estatuto da Família e define família como a união de um home e de uma mulher casados ou em união estável, é ainda a questão de gênero e a definição e limitação de papéis dentro da sociedade. O homem tem que fazer assim e a mulher desta forma. Só quem já ouviu na infância que “homem não faz isso ou aquilo” ou “isso não é coisa de homem” é que pode salientar como a definição desses papéis podem ser danosos e prejudiciais na constituição psicológica dos seres. Na sociedade machista, o homem não pode ter sensibilidade e manifestá-la, mas ao mesmo tempo os grandes artistas consagrados são homens, e a mulher ainda aparece na arte de forma tímida e ainda precisa lutar pelo seu lugar ao sol. Já tem mudado um pouco, até com o conceito dos “metrossexuais” e a vaidade do homem em ascensão, se cuidando mais, se vestindo melhor, se depilando… mas… ainda há preconceitos enraizados.

É preciso ser a favor da família, acima de tudo. Isso não quer dizer que se tenha que ser a favor só do modelo tradicional. O modelo tradicional é interessante e é o que propicia a reprodução da espécie humana. Mas quando se fala em família, não se entende mais apenas as famílias sanguíneas ou formadas pelos laços materiais, mas deve incluir também as famílias formadas pelos laços espirituais, com intensa carga de amizade e afetividade. Não se unem os corpos para reproduzir a espécie, mas se unem os corpos e mentes para transformar o mundo e reconhecer no outro um pedaço de si, complementando a sua identidade e tornando se um sujeito de direito e de fato.

Assim, definir em um projeto de lei que família é a apenas a união de um homem e mulher é ferir direitos humanos e é dar um tiro no próprio pé. Pois, define-se que família é homem e mulher, mas muitas vezes casais que começaram seu relacionamento na balada, e em dois meses resolveram se casar, sem maturidade para tal, vão colocar os filhos à margem da sociedade e da cultura (entendida aqui como experiências fortuitas e singulares de alteridade), transformando-os em bichos-homens, dos quais as escolas têm que dar conta, os professores mal pagos é que têm que fazer o papel da família que não faz em casa, mas é família.

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Família ê, Família ah: família – nunca perde essa mania, dizem os Titãs. Rótulo é rótulo, família é grupo afim. Não se tem família só no lar, mas na igreja, no clube, no ambiente de trabalho… mesmo que não sejam reconhecidas de direito, mas quem disse que o Direito brasileiro é exemplo de Justiça? Família é união, independente dos gêneros que se unam, desde que os propósitos sejam o respeito e o desenvolvimento biopsicossocial de cada ser.