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Passos recebeu na última sexta-feira no palco do Teatro Rotary o cantor Plínio Oliveira que é conhecido por ser um cantor da paz e do amor. Ele é natural de Cruz Alta (RS) e reside em Curitiba (PR). Na quinta-feira ele proferiu uma palestra musical para educadoras da rede municipal de ensino na Câmara dos Vereadores. Organizado pela Aliança Municipal Espírita, o evento do Rotary levou o público às lágrimas com fortes emoções e mensagens no show “Amores Raros”. Nesta entrevista exclusiva para o Espaço da Gente ele fala que sua arte não segue rótulos, não é espírita, nem pertencente a qualquer outra designação religiosa, mas traz a temática da paz, do amor e do bem-viver em uma linguagem espiritualista universal. Conta ainda como surgiu o título Amores Raros e fala sobre a degradação da cultura e o valor artístico. Aproveitamos para agradecer à Vânia Ságio e Kívia Oliveira do Café Teatro Chaleira que nos oportunizou o espaço para a entrevista.  Agradeço também ao Thiago Daniel, estilista, que me acompanhou na entrevista e fez a produção fotográfica que vocês acompanham aqui. Você pode conferir o áudio da entrevista no meu canal do YouTube – https://www.youtube.com/user/danvizi

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Plínio, sabemos que desde criança a música está presente em sua vida. Porém o seu trabalho com a música é um trabalho diferenciado, ou seja, é uma música da paz: quando surgiu essa associação entre música e elevação do espírito humano? Foi desde o começo, ou no começo você cantava mais MPB e outros?

 

A música se manifestou em mim primeiro como uma resposta à tristeza. Desde muito pequeno eu me dei conta de que o mundo pode ser um lugar muito bom, mas também pode ser um lugar muito sofrido. E se a gente sair à rua agora, a gente vai ver que cada pessoa tem um drama: delas, familiar, antes delas, um drama presente e um drama futuro. Então, quando eu sentei ao piano para tocar a primeira vez, criar as minha coisas, isso foi aos 8 anos. As primeira músicas que vieram eram músicas que expressavam essa tristeza, tristeza do viver. Mas era uma tristeza serena. Não era uma tristeza de deixar as pessoas amarguradas. Então, a questão da paz ficou muito forte depois que assisti ao filme do Gandhi, que ganhou o Oscar, um filme lindo com o Ben Kingsley , quando eu tinha 12 anos de idade e eu percebi que as coisas que eu sentia na alma, que eu escrevia de um modo natural, já existiam no mundo. Que era o desejo de viver sem sofrimento. A busca pela paz é a busca por uma vida sem sofrimento, descartar tudo que for causador de sofrimento. Na verdade são três coisas só que são sofrimentos inevitáveis: alguns tipos de doenças (não todas, porque boa parte são causadas pelo jeito que a gente vive), o envelhecimento (e nem todo envelhecimento será um sofrimento, quando ele é acompanhado de algum doença inevitável ele é um sofrimento, e chega um momento em que o corpo para e isso é doloroso) e a morte (no sentido de você ter que se acostumar com a ausência de alguém que é importante,  que fazia a vida ter sentido). Todos os outros sofrimentos são transponíveis: problemas econômicos, familiares, de relacionamento; quando a gente aprende a lidar com eles deixam de ser problemas. O primeiro passo é ser pacífico. Boa parte dos sofrimentos causados pelas pessoas é devido a um comportamento hostil. A paz se apresenta como uma das antíteses do sofrimento, porque uma das causas do sofrimento, a mais comum, é a violência. E naturalmente, num plano mais profundo, o desamor. A paz e o amor, numa visão mais aprofundada do que somente aquela do rock and roll, são realmente os antídotos para todo e qualquer sofrimento. Eu me coloquei como cantor da paz para dizer que se a gente for pacífico, a gente vai causar menos dor e vai ter menos dor. E foi um processo muito natural. Tudo que eu compus dos meus 8 aos 16 anos falava de amizade, amor, paz. A mesma coisa. Eu só aprimorei a minha comunicação. A gente precisa encontrar um modo de se comunicar com as pessoas.

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Amores Raros é o workshow apresentado em Passos. O título é bastante instigante. Quais são esses Amores Raros e qual é a temática dessa apresentação?

Amores Raros surgiu do seguinte. Minha filha Gabriela passou no vestibular para Medicina e antes de passar ela escreveu uma carta, que hoje está estampada no mural da escola onde ela estudou, em que ela dizia os motivos pelos quais ela iria estudar Medicina que eram: salvar vidas, curar feridas, aliviar o sofrimento do homem. Em nenhum momento ela falou de status, de dinheiro, de carreira. Quando ela entrou na faculdade, três anos depois ela viu como funciona a saúde pública no Brasil, como funcionam os hospitais, como os médicos são, como que os professores de Medicina são e ela escreveu uma nova carta dizendo que agora mais do que nunca, sabendo como é a realidade hospitalar e da saúde pública no Brasil ela está ainda mais convencida de que precisa salvar vidas, curar feridas, aliviar o sofrimento do homem, porque a Medicina é um ato de amor e ela tem sorte porque a vida lhe deu amores raros. Eu peguei essa frase dela e compus uma música e a partir dela surgiu um repertório. Eu componho o tempo todo.

Você pensa através da música?

Eu penso de uma forma musical, de uma forma poética. E tudo eu penso: “poxa, isso daria uma bela canção”! Então coisas que as pessoas dizem, frases que as pessoas colocam. E aquilo que além de dar uma canção tem para mim uma motivação emocional e que eu sei que num show, num disco, num livro, numa palestra pode ajudar a reforçar esses valores que eu acredito nas pessoas, aí eu invisto naquilo. Então, eu penso de uma forma musical e o Amores Raros foi uma celebração. Minha filha chega à maturidade e ela é a demonstração de que a minha tese funciona. Porque ninguém é perfeito e aliás é o contrário: a perfeição está em ser imperfeito, mas ser imperfeito como humano quer dizer ter o nariz um pouco torto, ou dormir demais e não a imperfeição da sombra, da maldade. E a minha filha, a Gabi, está na categoria dessas pessoas mais perfeitas que existem, sendo imperfeita como os seres humanos precisam ser. E o jeito dela, o temperamento dela, a temperatura emocional dela, foram construídos a partir de um amor que é muito verdadeiro. Ela é uma espécie de demonstração real de que as coisas que eu canto, escrevo, falo, faço funcionam, porque é uma pessoa plena, embora seja uma pessoa como outro qualquer com suas características e idiossincrasias e que fazem dela um ser humano extraordinário. Mas um ser humano que sabe o que é o amor. Amores Raros é para falar de como as experiências de amor são importantes e como a gente precisa aprender a identificá-las e dizer: “isso é raro, hein? Não deixa passar, é importante!”

A música é só uma das várias facetas da arte. E sabemos que a arte é manifestação do espírito humano que sintetiza as potências espirituais e faz uma comunicação com o plano espiritual superior quando bem trabalhada. Leon Denis assegura que o Espiritismo vem abrir para a arte novas possibilidades. Podemos considerar sua arte como uma arte espírita?

Não, a minha arte não é uma arte espírita.

Mas você é espírita?

Não. Eu sou um livre pensador. E é interessante, porque as figuras que orientam as grandes religiões eram livres pensadores. Eram pessoas em busca. E é curioso que por mais que elas tenham feito um trabalho de despertar nas pessoas a sua própria grandeza, a necessidade humana de buscar essas referências faz com que as pessoas tentem repetir os passos de indivíduos superiores ou não que não podem ser repetidos. A experiência espiritual do Buda é única e intrasferível, a do Papa Francisco, do Dalai Lama, de Chico Xavier, de Allan Kardec, do Joseph Smith, da Igreja dos Mórmons e assim por diante… Eu sempre atendi o convite dos espíritas, mas sempre deixei bem claro, eu não sou espírita, não é uma obra espírita. É uma obra que contribui com os valores da espiritualidade, mas a minha música é comprometida com valores que são espirituais por serem abstratos e que não tem qualquer preocupação em fazer com que as pessoas pensem dentro de uma determinada forma, filosofia. Eu vejo com bons olhos as pessoas ligadas a movimentos religiosos que fazem arte, mas o efeito não tem sido positivo, porque a qualidade do que se faz cai muito, porque você deixa de atender a deusa beleza, a deusa do belo e passa a atender uma necessidade ideológica. Todo trabalho religioso perde o valor artístico. Eu desejo o valor artístico. Eu desejo que daqui a mil anos uma das minhas canções possa ainda ser cantada, lembrada e que ajude a humanidade a viver melhor. E isso eu sei que são valores que o pensamento espírita traz. Às vezes minhas músicas não têm qualquer preocupação com os princípios desta ou daquela religião.

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Temos visto no cenário brasileiro uma degradação dos produtos culturais, transformados pela indústria cultural em produtos exclusivos para a venda e para isso atentam-se para os instintos humanos promovendo uma banalização da sexualidade, com temáticas violentas, linguajar pejorativo… Como o artista que leva a paz e uma letra em forma de poesia, como você vê essa questão?

Eu me sinto triste como se sentiria uma pessoa que sabe fazer um belo feijão com arroz e vê as pessoas catando lixo para comer. É essa mesma tristeza, de ver as pessoas se alimentando com porcaria. E uma tristeza que vai ficando maior, à medida que a gente vê que algumas pessoas não ligam de lucrar com isso, de fazer do dinheiro o valor maior. Quando começa a se avaliar um artista pelo número de discos que ele vendeu, tem alguma coisa errada. Então, não importa o que ele faz, mas sim quanto dinheiro ele produz e o sucesso comercial que tem. E esse sucesso comercial faz com que as pessoas achem que aquilo é bom: “todo mundo gosta, então é bom!” E isso é terrível, porque as pessoas acabam se acostumando, achando normal o que é absurdo. O pior que há no momento é trocar gato por lebre. Você chamar o que a moda, por exemplo, da música sertaneja universitária, chamar isso de experiência musical é um equívoco. Não é uma experiência musical. É uma experiência sonora, é uma experiência festiva, é uma experiência até sexual, talvez uma experiência emocional, rítmica, de humor, mas não é musical. As pessoas ficam com uma coisa que parece, mas não é e ficam sem aquilo que deveria ser. Isso me entristece, mas eu não fico triste do público seleto, porque a música de verdade sempre teve um público seleto. É que a mídia vende o sucesso como se fosse música.

Você falou a um grande número de educadores da rede municipal. E pelo que fiquei sabendo a aprovação foi unânime. Como você vê o papel do educador nos dias de hoje nesse trabalho de promoção da paz e como ele pode, até mesmo, usar a música?

Eu escrevi um livro que se chama “Sensibilidade: um guia prático de educação para transformar o mundo” e esse livro diz respeito ao seguinte: eu comecei a perceber que nos lugares onde as pessoas deveriam aprender a gostar e ter um pensamento crítico com relação à música e a arte em geral, elas não têm. Porque as escolas replicam as porcarias da mídia. Começou assim: minhas filhas eram pequenininhas e eu fui a uma festa junina da escola e a música que tocava era a mesma porcaria que estava tocando no rádio e aí eu falei “mas aqui não, aqui não podia, aqui tinha que tocar a música nordestina, popular, a música folclórica, do cancioneiro brasileiro, das quadrilhas, aqui é o lugar onde isso deveria ser mais profundo e não é, ele ficou igual”. Isso começou a me incomodar tanto que eu fui vendo por todas as escolas que eu passava que elas não estavam cumprindo a sua finalidade de fazer com que as crianças, os jovens e os adultos tenham uma experiência musical. As universidades nem se fala. Elas não oferecem para os seus alunos experiências culturais legítimas. Eu me lembro que a Elis Regina fazia show em universidades. Hoje em dia eu percorro as universidades e vejo. Quando muito é o Teatro Mágico, mas muitas vezes é o mesmo sertanejo universitário que toca nas rádios. O espaço escolar e o universitário que deveria ser do desenvolvimento da cultura, acaba sendo só replicação do que tem de ruim do lado de fora. E isso é perverso. O meu livro foi escrito pensando nisso. Que a gente precisa de uma educação e que os educadores despertem para isso. Se nós não fizermos nada, vai ficar cada vez pior. E o Brasil que já teve a melhor música do mundo, vai deixar de ter a importância cultural que tem e vamos ter cada vez mais os valores da violência que está bem associada a isso. Porque se você não bebe água limpa, você está bebendo água suja e ela está contaminando o organismo social. Foi daí que surgiu. Eu faço as palestras para as professoras com esse teor, dizendo assim: “temos de trabalhar a sensibilidade das crianças”. É inadmissível um professor ser professor e não falar o português corretamente, não gostar de buscar conhecimento. Como é que você é professor e não gosta do conhecimento? É professor, mas a atração predileta é a novela, enquanto o interesse deveria ser pelo jornalismo, pelos documentários, novela é bobagem, embora seja divertido. Eu também assisto a um capítulo ou outro quando estou em casa.

Você é corajoso e audacioso em dizer isso e tentar quebrar um sistema que já está enraizado na sociedade e quem tem muitos ângulos para ser olhado…

Mas eu quebro com carinho… Eu aprendi uma coisa legal que é: a verdade é um diamante, se você jogar na cara do sujeito ele vai te jogar um tijolo de volta. Inclusive, ele nem vai perceber, porque machuca, o diamante é pontudo e muito duro. A verdade precisa se lapidada, precisa ser colocada num papel de presente e dizermos “estou te dando um presente”. A pessoa abre aquilo e vai adorar. Então isso que eu falei aqui de uma forma direta, bruta, eu falo, mas falo de um modo com sensibilidade, de modo que as pessoas me aplaudem, porque não é contra elas. Eu não sou contra as pessoas que veem novela e repito, eu também assisto quando estou em casa, porque faz parte da vida. Mas como artista eu tenho essa responsabilidade. E os professores também. O consumo cultural deles tem que ser mais refinado e para isso é preciso sensibilidade, reconhecer que tem uma missão.

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Eu quero dizer que se conhece a árvore pelos frutos. E na hora que eu seleciono uma música para gravar ou cantar é nisso que penso. Estou a caminho daquilo que um dia quero ser ou gostaria de ser, que é um artista que simboliza para as pessoas o bem, o amor e a paz. Longe de mim querer ser santo ou perfeito, mas os frutos que tenho colhido ou entregado às pessoas seguem essa diretriz. Quem vier me assistir ou comprar os meus discos saiba que isso é do fundo da minha alma, é de coração. Eu quero o melhor para quem ouve. Eu quero que a pessoa ouça a minha música e fique bem, porque motivos para sofrer e ficar ruim tem aos montes na TV, no cinema, no rádio, na rua. Quero deixar essa última palavra. Do fundo da minha alma. Cada canção que eu escrevi e gravei foi com o desejo básico de que a gente viva melhor, mais feliz, mais suave, mais sábio.

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