Neste texto apresento o resultado de uma pesquisa informal intitulada “Minha história de leitura” realizada por meio de questionário estruturado com jovens com idade média entre 18 e 25 anos, de Passos e região, com os dados coletados na turma de 2014 do Curso Pré-Vestibular Comunitário Núcleo Dércio Andrade/Educafro.

Pensar o que dizem os leitores ou não-leitores sobre o hábito de ler, serve de parâmetros para que nós professores e estudiosos da leitura possamos fornecer subsídios para incentivar os jovens a ler. Para que a base seja sustentada não só em ditos como “ler é importante”, “quem lê, escreve, pensa, vive melhor” e outra máxima de que se deve “ler os clássicos”. Jamais fui contra os clássicos. Eles são extremamente importantes, visto que têm uma linguagem elaborada e são objetos culturais e históricos de muito valor. Porém, começar um processo de leitura pelos clássicos pode ser perigoso (iremos tratar mais a fundo desta questão aqui no blog). E por isso devemos conhecer a história e as perspectivas de leitura dos leitores.

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Leitura e escrita dos jovens

Ao todo, participaram da pesquisa 36 estudantes. O questionário apresentava aproximadamente 10 questões e eram questões abertas, em que o pesquisado deveria dissertar. Já num primeiro momento notamos um grande acanhamento em contar a sua história de leitura. Muitos talvez nem imaginavam ter uma. Todos a tem. Porque até mesmo uma não-leitura revela uma história de leitura.

No primeiro tópico objetivei traçar um paralelo do paradigma popular do paradoxo leitura x prazer e perguntei “Você gosta de ler? Se não por quê?” Dos 36, 32 responderam que sim e apenas 4 que não. Porém, entre estes 32 que responderam sim, entre muitos, a resposta vinha acompanhada de um enunciado da seguinte forma:

  • Adoro mas não disponho de muito tempo para fazê-lo (B)
  • Gosto, contudo não possuo o hábito de ler (C)
  • Sim, mas não tenho o hábito de ler (E)
  • Sim, mas não tenho hábito de ler (G)
  • Gosto de ler, mas faz tenho que não leio (H)
  • Quando o tempo me permite, sim, é interessantíssimo saber da visão alheia (J)
  • Sim, mas não tenho hábito (K)
  • Sim, porém não tenho muito tempo (S)

Percebemos que a leitura e a prática se distanciam. Em outros cenários é difícil conceber essa separação. Por exemplo, alguém que nunca tomou cerveja não pode dizer que não gosta de cerveja. Mas com a leitura é diferente, eu posso gostar, mas posso não fazer. Isso porque a leitura dá status e quem nega que não lê terá complicações numa ordem social e cultural. Então, é melhor dizer que gosta, mesmo se não pratica.  Uma das respostas chamou a atenção: “Sim, as palavras me encantam, porque são elas que me movem a expressar como sou” (E). A resposta de E indica movimento, a leitura dissociada do prazer acima de tudo, vista como identidade e representação. Mesmo entre os que negaram a leitura, há uma tentativa de ler, um “não leio, mas quando leio faço isso”, comprovando o que disse acima, de que o poder e saber revestidos na prática da leitura não permitem que o sujeito afirme a sua não-leitura.

 

  • Não gosto de ler muito, mas de vez em quando eu leio um livro.
  • Não muito. Não tenho muita paciência e quando leio gosto de romance.
  • Não; um pouco é por falta de tempo e às vezes até por preguiça mesmo.

mulher e livro

No segundo tópico, o objetivo era resgatar as memórias da leitura e por isso perguntei se “Você se lembra do primeiro livro que você leu por completo? Se sim, qual?” A maioria das pessoas não lembra do primeiro livro em si, pois é muito difícil e também é difícil considerar qual foi o primeiro livro: foi o primeiro livro lido totalmente sozinho, foi o que a professora leu na sala? Porque tudo é leitura e a forma como a representamos é que é diferente. E a surpresa apareceu de novo, pois 28 dos entrevistados citaram seus livros iniciais e apenas 8 não. E os 28 livros dessas pessoas são:

  1. Deus fala a seus filhos (textos bíblicos)
  2. O pequeno príncipe
  3. O cometa Halley vem aí
  4. Menino do Engenho
  5. A viagem e Eu Cristiane F.
  6. Mais ou menos foi um diário de um adolescente
  7. Não lembro, mas deve ser os da coleção Vagalume que lia quando era mais novo.
  8. Acredito que clássico foi Helena
  9. Bíblia, Ágape
  10. A bolsa amarela
  11. O gênio do crime
  12. A Escrava Isaura
  13. Não sei se foi o primeiro, mas o que mais marcou minha infância/adolescência foi A marca de uma lágrima, Pedro Bandeira
  14. A ilha perdida
  15. Aqui estamos todos nus
  16. Seja líder de si mesmo (Augusto Cury)
  17. A morte tem sete herdeiros
  18. Os barcos de papel
  19. As crônicas de Nárnia, A ilha perdida
  20. Uma história só pra mim
  21. O pequeno príncipe
  22. Pollyana
  23. O pequeno príncipe
  24. Cachorrinho Samba na floresta
  25. Marley e Eu
  26. A cabana
  27. Sonho de uma noite verão
  28. Um amor para recordar

Agora quando o tópico ficou um pouco mais sério perguntando: Você está lendo algum livro no momento? Qual? A coisa fica mais séria e o número se divide pela metade. 19 responderam que NÃO. Uma coisa é você representar a leitura. Outra é você praticá-la. O primeiro livro, gostar de ler, todo mundo pode representar. Mas se eu disser que eu estou lendo um livro sempre vem a pergunta próxima: Qual? É preciso citar um título, é preciso contar a narrativa e isso mostra se o sujeito é leitor ou não. Não há problema nenhum em não ser leitor, apesar que considero de grande necessidade a leitura, mas é negado, é proibido é interditado o direito de não ser leitor.

Quando foi pedido para citar um autor preferido, a maioria citou um. Pois a leitura, como já dito, se faz de muitas maneiras e o contato com um leitor pode ser feito não somente pela obra que ele escreveu, mas pelo trabalho que ele executa. A pessoa pode ler uma notícia sobre ele na mídia e se identificar com ele e com isso se tornou seu autor preferido. O problema é que não referimos a pergunta ao tópico “qual autor você conhece vastamente sua obra?” E por isso ter um autor preferido exemplifica a forte ligação da leitura e do prazer, algo que precisa se analisado, pois nem sempre se lê por prazer e o hábito de ler é doloroso e penoso, mas todas as vezes construtivo, desde que se conduza a prática para tal.

Para finalizar vamos mostrar os principais livros citados entre os que se recordam que são:

  • A cabana
  • A menina que roubava livros
  • O cortiço
  • Anjos e Demônios
  • O código Da Vinci
  • O pequeno príncipe
  • Um amor para recordar

Faço uma ressalva de que “O cortiço” era uma obra que estava sendo trabalhada naquele momento pelo professor. Além do cânone clássico, há um cânone contemporâneo que está entre os mais vendidos, pois como muita gente comprou e leu, eu também vou gostar de ler. Mais uma vez a associação do prazer e da leitura.

Objetivei mostrar com esse artigo de que a representação do leitor e da leitura perpassam imaginários que não condizem com a realidade e que para estimular a leitura é preciso saber o que pensam seus leitores e desconstruir suas acepções para figurar em uma leitura profunda, autêntica e que se posicionem como leitores de fato. Pois, a aparência da leitura, não modifica em nada. Acrescenta em números, mas não desdobra o conhecimento.

 

Danilo Vizibeli

Passos, 4 de fevereiro de 2015