Como já é do conhecimento de muitos, a palavra vocação vem do latim “vocare” que quer dizer chamado. Somos chamados a exercer um ministério em nossa vida. Dentro da esfera espiritual que perpassa o ser humano, pode-se dividir as vocações em religiosas e leigas. As vocações religiosas são aquelas exercidas pelas pessoas que resolveram se dedicar à oração, à vida em comunidade, com votos de pobreza, castidade e obediência (os mais comuns). Recentemente o Espaço da Gente noticiou a celebração dos primeiros votos do Irmão Anderson Silva Barroso, de 29 anos, que aconteceu no dia 10 de janeiro de 2015 na Igreja São Luís Maria Grignion de Montfort, em Passos. Anderson é da Congregação dos Irmãos da Instrução Cristã de São Gabriel, mais conhecidos em Passos como os Irmãos do CAPP (Centro de Aprendizagem Pró-Menor de Passos). Filho de José e Cláudia e irmão de Karine, Letícia e Raquel, ele é natural de Ibirité (MG) e é graduado em Nutrição e especialista em Metodologia e Didática do Ensino Superior. O irmão nos conta nesta entrevista como surgiu o seu interesse pela vida religiosa e orienta os jovens a ouvirem as vozes do coração que os direcionam para qual caminho seguir.

Ir. Anderson
Ir. Anderson

Com quantos anos e como surgiu a vocação para ter uma vida religiosa? 

Bom, vocação é algo que já nasce conosco, eu creio… Desde muito cedo me interessava por atividades religiosas e também por atividades sociais. Eu sempre estive presente na ação pastoral de minha comunidade, participando particularmente da catequese, depois da pastoral da juventude e depois da pastoral da comunicação de minha paróquia. Mas foi em 2003, então com 18 anos, que iniciei um processo mais sério de discernimento vocacional. Este processo durou 6 anos quando eu fiz a opção pela Vida Religiosa Consagrada.

Por que a escolha dos Irmãos de São Gabriel? Como conheceu a Congregação?

Eu conheci os Irmãos de São Gabriel em 2009 em um encontro com jovens lideranças católicas. Nesta época eu já conhecia outras congregações e ordens, mas procurava uma que pudesse me propiciar o trabalho com a juventude pobre, mais carente, porque as que eu conhecia trabalhavam com jovens, mas sem este direcionamento. Neste encontro, eu conheci um dos irmãos e depois de um ano pedi para conhecer melhor a congregação e o carisma.

Como é o processo de formação até você chegar aos votos que fez no dia 10 de janeiro?

Podemos dizer que  o processo é similar a um relacionamento conjugal. O primeiro passo é ser apresentado à Congregação – tempo de conhecer, de saber informações, de curiosidades e perguntas. A primeira etapa mesmo da formação chama-se ASPIRANTADO e é como se fosse um “flerte”. O Aspirante começa a conhecer mais de perto como é a vida e o dia a dia dos irmãos; o tempo de trabalho, a vida comunitária, as orações diárias, o tempo de diversão e também os estudos. Esta etapa pode acontecer com o jovem vindo morar conosco todo o tempo ou ainda vindo passar os finais de semana ou estágios conosco e continuando a trabalhar e/ou morando com sua família. Foi o meu caso, eu fiquei 6 meses fazendo esta experiência e morando com meus pais, só depois vim morar mesmo com os irmãos. Depois desta primeira etapa tem a etapa chamada POSTULANTADO. Esta já é uma etapa de mais seriedade, podemos dizer maior comprometimento. Além da vivência iniciam os estudos próprios da vida religiosa consagrada e tem  também maior carga de envolvimento na missão da congregação, ou seja, nas obras, nas pastorais. Depois do Postulantado inicia-se o NOVICIADO, é como um “namoro” sério. É o tempo de mais carga de estudos e também de vida de oração. Nesta etapa o tempo é utilizado prioritariamente nestas duas atividades. Normalmente é composto de dois anos, um mais fechado e outro mais pastoral. Ao final deste tempo o Noviço faz os primeiros votos, que é como se fosse o “noivado”, um passo maior dentro deste “relacionamento”. Neste momento faz-se o compromisso público de viver os votos  de castidade, pobreza e obediência, por um tempo determinado. Normalmente o período é de um ano, e vai-se renovando a cada ano. Esta etapa de “noivado” chama-se JUNIORATO, o jovem tem já a condição de Irmão, já faz parte da congregação oficialmente e pode assumir cargos e responsabilidades dentro da congregação, mas não todas. É tempo de complementação de estudos ou especialização e também de trabalho de missão com os outros irmãos já professos perpétuos. Ao final do Juniorato (pode durar de 4 a 9 anos) o professo simples faz a profissão perpétua, ou seja, promete viver os votos para sempre.

Ir. Anderson com o Grupo de Jovens ENJOC da Igreja São Luís de Montfort - Passos
Ir. Anderson com o Grupo de Jovens ENJOC da Igreja São Luís de Montfort – Passos

Quais são os votos? E o que eles representam? 

Os votos são pobreza, obediência e castidade. Eles são uma maneira para podermos viver mais próximos da vida de Cristo, que é o modelo maior da Vida Religiosa Consagrada. Pobreza – é viver com o necessário, sem luxo ou supérfluo, e sempre no espírito da partilha evangélica. O que temos é para servir ao próximo, e não é meu, mas nosso. Os bens são da comunidade, não são meus bens. É uma maneira de estarmos também solidários com todos aqueles que não tem o necessário para viver dignamente. Castidade – é viver não em função de uma pessoa, mas de todas aquelas pessoas que estão perto de nós. Fazemos a opção de não nos relacionarmos sexualmente para estarmos mais livres para direcionarmos a nossa afetividade para aqueles que não têm alguém com quem possam contar, para ouvir. É uma maneira de estar solidário com quem não recebe amor de ninguém. Obediência – é viver não de acordo com minhas próprias visões e escolhas, mas estar aberto à necessidade da missão, estar onde é mais preciso e não exatamente onde eu quero estar. A obediência hoje não é uma obediência cega como era no passado, hoje a obediência é partilhada, com muita conversa e reflexões sobre as decisões de nossa vida.

Qual seu destino depois dos votos?

Bom, agora eu já sei que retornarei a Passos, para compor a comunidade juntamente com Ir. José Carlos, Ir. Rogério e Ir. Sylvester, ou seja, seremos dois brasileiros, um francês e um indiano.

Como foi a participação de sua família na sua formação religiosa? 

Na prática minha família me incentivava a participar de atividades religiosas e sociais, mas não diretamente me incentivou a entrar na Vida Religiosa Consagrada. Minha família tem uma diversidade muito grande de crenças, tive algumas dificuldades com isso em alguns momentos, mas no geral, o incentivo de participar de algo e fazer algo pelos outros foi determinante sim em minha vocação.

Irmão Anderson em oficinas de artesanato com crianças que desenvolveu no CAPP durante sua formação
Irmão Anderson em oficinas de artesanato com crianças que desenvolveu no CAPP durante sua formação

Qual o conselho você dá para os jovens que querem seguir essa trajetória e para aqueles que, ao contrário, criticam essa tomada de decisão? 

Vivemos em um mundo em que fazemos muitas coisas sem saber nem mesmo porque estamos fazendo, fazemos simplesmente porque os outros fazem, porque está na moda, na mídia. O meu conselho é que as pessoas busquem para suas vidas algo que os preencha, que faça sentido, que faça suas vidas terem valor, que ao final de suas vidas possam dizer “eu fui feliz porque eu pude ser algo de bom”. Acho que independente da religião ou mesmo da atividade profissional que você escolha, a vida em si deve ter um sentido, um objetivo, uma meta.