Já estamos no terceiro dia do ano novo de 2015. Mas ainda dá tempo de brindar, e brindar com Literatura, com a veia literária contista (e às vezes poética) de Alexandre Brandão. Recentemente, no mês de novembro de 2014, ele esteve em Passos para lançar numa noite de autógrafos, no Lady Bug Rock Café, o seu livro “Qual é solidão?”. Há 34 anos, Brandão reside no Rio de Janeiro onde trabalha no IBGE, sendo formado em Economia pela PUC do Rio com Mestrado na mesma área pelo Instituto do IBGE. Natural de Passos, é casado com Beatriz e pai de três filhos: João, Helena e Pedro. Viveu em Passos até os 15 anos quando saiu para estudar. Ele conversou com o jornalista Danilo Vizibeli, numa tarde de sexta-feira de novembro, para essa publicação no Espaço da Gente. Pedimos desculpa pela demora na publicação devido ao modo stand by já conhecido pelos leitores. Brindemos à Literatura!

Fonte da Foto: Perfil do Facebook do autor
Fonte da Foto: Perfil do Facebook do autor

Como surgiu a literatura em sua vida?

Tenho lembrança de muito jovem, ou quando criança ainda, eu era muito ligado em criação. Eu brincava de fazer música, embora eu não fosse um menino-leitor. Eu não era leitor. Mas eu gostava muito de música. Fui aprender violão na adolescência. E, paralelo a isso, na escola eu tive alguns professores que me deram alguns livros e alguns trabalhos que eu passei a gostar. Mas comecei com livros mais leves. Eu me lembro de um trabalho que o Carabolandi – que era meu professor em Passos – passou, que era sobre o Jorge Amado, sobre o Capitães da Areia. Aquilo mexeu comigo. Despertou-me para a literatura. Ao mesmo tempo que tinha esse mundo social que o Jorge Amado chamava a atenção, mas tinha algo do texto que eu já começava a olhar aquilo ali e achava bacana. Enfim, essas coisas foram ficando registradas. Quando eu fui fazer uma faculdade, em nenhum momento pensei em fazer algo artístico. Pensei em fazer algo mais rentável, em termos de conseguir um emprego depois, e escolhi a Economia. E gostei de ter feito. Aos 18 anos na época de fazer vestibular, houve um dia em que eu cheguei em casa tonto, meio doidão e sem sono estiquei a mão e peguei o Dom Casmurro, do Machado de Assis e aí eu pirei! Pirei mesmo! Para além do pileque que eu estava! Aquela história do cara que foi corneado, não foi corneado, como ele estava contando aquela história, quem é essa mulher que tem olhos de ressaca? E aquilo sim me pegou de jeito. Mas eu fui fazendo Economia. Deixei esse negócio de música para trás. Um dia eu descobri que era péssimo nisso, mas tinha a coisa da poesia, fazia música com amigos, letras. Então foi se encaminhando. Depois fui fazendo algumas poesias e algumas historinhas. A primeira que eu me lembro foi de um cara que era funcionário do Banco Central. E daí, não parei mais. Tinha um compromisso comigo mesmo de escrever. E quando eu terminei o mestrado em São Paulo e que eu voltei para o Rio, comecei a frequentar oficinas literárias. E a partir daí, em 1987, comecei um verdadeiro investimento. Tinha uma época que eu achava que tinha dois lados: um economista e um não-economista e tinha até um conflito. Hoje não.

O primeiro livro é de quando?

Nessas oficinas literárias, nós fizemos o primeiro semestre, fizemos o segundo e quando fomos fazer o terceiro não deixaram, pois era um curso para principiantes e eles não tinham um curso avançado. Então, eu e algumas amigas começamos a fazer em casa. Às vezes contratava um escritor para ficar com a gente, trocávamos textos, um criticava o outro. E num final de ano surgiu uma oportunidade, uma empresa do Rio de Janeiro queria fazer um livro de brinde e convidou a gente. E aí foi um livro belíssimo com fotos de fotógrafos badalados, o prefácio foi do João Ubaldo (Ribeiro), a apresentação da Nélida Piñon. Em 1995 eu lancei meu primeiro livro, meu mesmo, que foi “Contos de Homem”.

E hoje quantos livros você tem publicado?

Meus são cinco. Contos de Homem, Estão todos aqui, A câmera e a pena, No osso, e agora “Qual é solidão?”. E eu estou naquele brinde e eu e essas amigas continuamos a nos encontrar e demos nome ao nosso grupo que se chama “Estilingues” e de lá para cá (2010) já fizemos dois livros que não colocamos em circuito comercial. A gente dá o livro e a ideia é que a pessoa passe-o para frente. E em dezembro [a entrevista foi gravada em novembro de 2014] vai sair um livro pela Seleções que consiste em reescrever histórias bíblicas. Eu escrevi duas histórias: uma de Moisés, desde o nascimento até a fuga do Egito e escrevi Esaú e Jacó.

Como é o seu processo de escrita? E qual o seu estilo?

Isso muda muito no tempo. Eu sou muito indisciplinado, eu não tenho uma hora no dia para escrever. A escrita, às vezes, fica em segundo plano por causa do trabalho. Tinha uma época que eu escrevia muito à noite, até duas ou três horas da manhã. Sou bem caótico. Às vezes, no final do dia fico até mais tarde no trabalho e escrevo. Às vezes, também me concentro, falo para a família e fico só escrevendo. Tinha uma época que eu era muito chamado por título. Ele vinha e eu escrevia. Agora é a última coisa que eu coloco, ou consigo pôr um título provisório e depois mudo. Uma vez eu estava indo para a casa da minha sogra, sozinho, e aí veio assim “Relatos das Taturanas” e eu escrevi e as taturanas eram relatos de mulheres cujos parceiros tinham ejaculação precoce.

Tudo o que você cria vem da imaginação ou você observa muito a realidade?

Muito mais da observação. Eu tenho visto nos últimos tempos que às vezes eu trago algo que aconteceu comigo ou com alguma pessoa próxima. No começo era muito da imaginação. Basicamente escrevo Crônicas e Contos, muito mais contos. Escrevi crônicas no jornal “A Gazeta” que foi editado pelo Marco Túlio Costa e pela Arlete e depois um jornal no Rio, “Folha Carioca”, jornal gratuito, mas que chegou a ter tiragem de 10 mil exemplares, que acabou faz pouco tempo, e mais recentemente a Vera Pagliuso me convidou para escrever no CNP Notícias. Então quando eu vou escrever a crônica, eu imagino assim: esse jornal vai chegar a alguém, normalmente são jornais gratuitos. Então a pessoa vai ganhar esse jornal e ela não foi atrás do Alexandre, fui eu quem foi atrás dela. Eu quero fazer da crônica algo mais sedutor. Obviamente que a crônica é sempre mais leve, tópicos mais engraçados, poéticos, mas é uma forma de você pegar o leitor. O conto não. No conto eu sou mais duro. As histórias nem sempre são engraçadas, embora haja humor até pelos excessos, até pela dureza das coisas, mas acho que é um pouco diferente. Eu investi muito na escrita do conto. E eu acho que eu sou um escritor contemporâneo, que está tratando dos temas que estão aí hoje. No início meus contos tinham uma pegada erótica muito forte. Hoje nesse último livro que eu fiz (Qual é solidão?) eu brinco que começa com sexo e termina com sexo. E está intermediado por um monte de coisas. Mas eu acho que não fiquei só nisso. Eu criei outras perspectivas de outros temas, a violência, tudo que está aí no mundo. Textos enxutos, contundentes. Estou dialogando com meus pares. E muito marginalmente tem a poesia. Que foi onde eu comecei, recebi os primeiros elogios. Eu mandei para o Suplemento Literário de Minas Gerais, onde estava o (Antônio) Barreto nosso escritor aqui de Passos e ele levou para os editores e resolveram publicar.

 qual é solidao

Para produzir o “Qual é solidão” levou quanto tempo?

Esse livro, em 2000 eu ganhei um prêmio, que era a Bolsa do Autor da Funarte e já tinham vários desses contos, mas não todos. Tem um conto que chama “A primeira história que um órfão conta”, que eu escrevi logo que meu pai morreu e meu pai faleceu em 1996. Então tem contos mais velhos e até contos que escrevi esse ano agora. Embora sejam muito distantes, tem uma unidade.

E o título surgiu dos próprios contos?

Esse surgiu dos próprios contos. Eu gosto de livros que tem um título genérico, que não seja de um conto ou uma crônica, mas esse é uma frase contida em um conto. Lá pelas tantas o cara pergunta: “Qual é solidão?”

 

Como foi programado o lançamento aqui em Passos?

Eu tenho um compromisso meu, comigo mesmo, de sempre vir lançar em Passos. E todos que eu lancei foram com a prefeitura, em algum evento. O último foi “No osso” na Festa Literária. E dessa vez eu quis fazer diferente. Então surgiu a oportunidade de fazer no “Lady Bug”.

Passos é uma terra que tem escritores. Só nessa conversa já foram citados três, além de você: Alexandre Marino, Antônio Barreto e Marco Túlio Costa. Como você enxerga a literatura aqui em Passos?

Quando eu era moleque eu me lembro, tinha o Ananias (Emerenciano Campos) que ocupava um espaço no jornal. Então tinham pessoas que escreviam. Eu era vizinho do Mirinho e ele era irmão do José G. Reys e eu tinha acesso a alguns livros dele. E circulava lá em casa o Gustavo (José Lemos) que era amigo da minha mãe. Então eram autores que eu já tinha referências. Aí esses três que citei (Barreto, Marino e Marco Túlio Costa), eu me aproximei deles. E mais recentemente fiz contato com o pessoal da Associação dos Escritores então tem o Sebastião Wenceslau Borges, a Iara Oliveira, a Hilda Mendonça e que acompanho os trabalhos. Mas além desses deve ter um monte por aí que a gente não conhece.

 

Quais conselhos você dá a quem quer escrever e publicar suas obras?

Hoje publicar está muito fácil. A tecnologia facilita. Você pode até editorar seu livro em casa. Existem as gráficas que fazem impressão sobre demanda e você manda o arquivo em PDF e uma semana depois eles te mandam o livro. Não precisa nem editora. Além do livro eletrônico que você coloca na internet. Isso é bom? Por um lado é. Mas eu acho que o escritor quando está começando ele não deve ter pressa. A pressa é inimiga da perfeição. Existem facilitadores no mau sentido. Tem associações que você paga e o cara coloca seu livro onde você quiser e te dá prêmio. Inventam prêmio. É um caminho que existe, mas é falso para a pessoa que quer verdadeiramente desenvolver um talento. Eu acho que o trabalho de escrever ele tem que contar com a maturidade. O que é bom? Fazer oficinas literárias. Juntar com amigos. Um manda para o outro. Arriscar. Mas essa coisa de arrumar algum leitor é bom. É achar o rumo.

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