Já tem uma semana em que se comemorou o Dia do Professor no Brasil. O Espaço da Gente preparou uma homenagem a este profissional que é o alicerce de uma sociedade e que mais do que formar, constrói pontes de saberes e desperta vocações por meio de experiências. Não pudemos publicar a homenagem no dia exato da comemoração, mas tem um bom motivo. Sair da mesmice, tocar no assunto quando tantos outros já o esqueceram. Pois no Brasil, no Dia do Professor chovem elogios, borbulham comemorações, mas passado isso o descaso com o profissional continua o mesmo. Porém, não podemos ficar só pensando nisso e nos pontos negativos que enfrentam os docentes. Temos sim que enfatizar as conquistas que são muitas.

O Espaço da Gente apresenta um professor jovem, amante de sua área do conhecimento que é a História e que tem uma atuação diferenciada já que trabalha voluntariamente em cursinhos populares ou comunitários.

Os cursinhos comunitários são núcleos de estudos pré-vestibulares organizados por voluntários que constituem um movimento social voltado para a busca da inserção de pessoas carentes nas universidades. Em Passos, o Núcleo Dércio Andrade (NDA) que é associado à ONG Educafro desenvolve um trabalho há 15 anos promovendo a cidadania e a cultura  de negros e pessoas carentes.

E é como membro atuante do NDA que o professor de História Márcio Francisco de Carvalho, o Marcinho, 31 anos desenvolve uma de suas frentes de trabalho como docente. Graduado em História pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 2012, descobriu sua vocação ainda no NDA e foi uma revelação incluindo-se no rol de alunos aprovados em excelentes universidades públicas brasileiras. Ele atua na cidade de Itaú de Minas nas escolas Cooperativa Educacional Colégio Interativo (CECI), Escola Estadual Ary Pimenta Bugelli e Escola Dom Inácio.

 

Foto: Acervo Pessoal
Foto: Acervo Pessoal

Desde o tempo da faculdade, ser professor para Marcinho é muito mais do que ter um giz na mão em frente a uma lousa. Para ele a missão do professor envolve provocar o aluno e despertar nele experiências que o levem a fazer a descoberta por si só. É assim que o professor é amante e seguidor do pensamento de Paulo Freire, o educador que revolucionou e trouxe luz no fim do túnel para a Educação Brasileira.

Ainda em Viçosa, Márcio desenvolveu projetos interdisciplinares em sala de aula e para além dela. “Tenho procurado romper com os muros da escola proporcionando assim aulas mais práticas. Atuei diretamente com o Movimento Social dos Cursinhos Populares como coordenador do Cursinho Popular DCE/UFV por 3 anos e neste mesmo período colaborei na criação da Articulação dos Cursinhos Populares da Zona da Mata(ACP-ZM) e na criação do Cursinho Popular Paula Candido (CPPC). Também atuei em um projeto intitulado “Educação Patrimonial: guardiões da memória e da cultura popular”, no qual trabalhávamos com acampados do MST e professoras da região de Goianá, Cel. Pacheco, Rio Novo e São João Nepomuceno. Atualmente sou educador de História no Cursinho Comunitário Dércio Andrade”, conta o professor já colocando em pauta seu novo projeto para 2015 que é idealizar e construir um Cursinho Popular em Itáu de Minas.

Utilizar a sala de aula como local de troca de saberes é um privilégio do educador. Mas só pensa assim quem coloca em primeiro plano a arte de ensinar desinteressadamente e é por isso que o professor exerce uma profissão delicada que precisa ser vivenciada com amor e ao mesmo tempo com ousadia. “Ser educador é por si só algo que me faz sentir vivo e atuante. Infelizmente temos os pontos negativos que são a falta de estrutura e a sobrecarga de aulas que o professor tem, mas tudo isso compensado por um sorriso dos alunos a cada descoberta”, descreve.

Vivemos em pleno século XXI, o século da informação e com isso o papel do professor vem a cada dia ganhando novas conotações e vivenciado novos contextos. Para o professor Márcio é um momento importante em que se é possível novos trabalhos e novas formas de se pensar a Educação. “Acredito que atualmente o acesso à informação está muito facilitado pelos meios de comunicação atuais. Portanto, mais do que nunca, hoje o educador não deve ser somente um oficio de passar informações, mas sim de questioná-la através de debates e reflexões para a colaboração na formação do cidadão crítico. O século XXI exige que o educador seja um provocador. Para mim, dois elementos são fundamentais para um professor: um bom professor é também um bom pesquisador, pois, no meu caso, ensinar história também é produzir o conhecimento histórico e o mais importante é ter a sensibilidade em reconhecer o público com o qual lida, no caso, os educandos”, comenta.

Má remuneração, falta de incentivo à profissão, são muitas as ideologias que perpassam o imaginário das dificuldades de ser professor no Brasil. Muitos falam que para a Educação ser valorizada no Brasil teria que aumentar o salário dos professores. Seria só isso? O que é preciso para termos uma educação digna no Brasil? Marcinho responde: “Com certeza não se trata somente do baixo salário. Para começar temos que ter bem claro que tanto a parte estrutural quanto a parte pedagógica da escola estão deficientes. Na parte estrutural, as escolas deveriam se adaptar às novas demandas da sociedade e romper com o muro que as cerca. É preciso resgatar o respeito de outrora para com os professores, pois a sociedade passou de certa forma, a desvalorizar o mesmo e isto se reflete também na questão salarial. Outro ponto para o qual sempre chamo a atenção é a necessidade de uma reforma urgente no currículo disciplinar, tanto os alunos quanto os professores estão sufocados com o modelo que temos hoje na educação”.

É com esse professor jovem, cheio de força e fé que o Espaço da Gente parabeniza a todos os professores. Encerramos com uma frase citada por Márcio que reflete muito o que é ser professor e, nesse sentido, que busquemos sempre a esperança na Educação que não pode acabar nunca! “Ser professor é ensinar aprendendo e aprender ensinando”. (Paulo Freire).

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