Depois da cena de ontem à noite na novela “Amor à Vida” na qual foi revelado que o personagem Félix jogou a filha recém-nascida da irmã Paloma em uma caçamba de lixo vieram à minha cabeça diversas reflexões que me impulsionam a escrever este texto. Posso ser condenado pelo que vou dizer e o texto pode gerar muitas polêmicas, mas depois de uma cena daquelas não podemos nos calar e deixar a maravilhosa reflexão sobre a Família e o Ser Humano passar de lado.

Outro dia eu postei no Facebook um comentário dizendo que eu estava feliz com a condenação, ou melhor, com a prisão, dos réus do mensalão. Um amigo, o Elder Cardoso, me disse que a gente não pode ficar feliz com qualquer irmão nosso que esteja em uma situação ruim.

felix-bolado

Pensando nisso, vejo que “Amor à Vida” começou de uma forma muito pejorativa, colocando sempre o sexo em primeiro lugar, com vilanias, sujeiras, promiscuidade, destruindo a família por completo. No capítulo do qual estamos falando, todo esse cerco de podridão que as novelas brasileiras vêm incutindo diariamente na mente de nós telespectadores foi ainda reforçado com a destruição total dos valores e sentimentos familiares. Só que não podemos fechar os olhos de que a situação retratada na trama escrita por Walcyr Carrasco é uma realidade que acomete muitos lares brasileiros.

Mas o propósito desta minha reflexão se dirige especialmente à condenação que todos estão fazendo ao Félix. Ele sim cometeu um crime. Mas o caráter da personagem é fruto de sentimentos feridos. Félix foi destruído desde sua infância e deu no que deu. Não defendo o crime que ele cometeu, mas um pai como o César que obriga o filho a negar sua sexualidade por machismo espera o que do filho? Está certo que muitos homossexuais passaram pela mesma situação de Félix ou até situações piores e nem por isso se tornaram criminosos. Mas em se tratando do ser humano temos uma complexidade enorme e cada um reage de uma maneira. Félix reagiu pelo crime e porque pensou que o dinheiro e poder eram a única forma de assumir a sua identidade.

Ao final da cena Paloma vira para o Félix e diz que ele destruiu a família dela. E eu digo que quem destruiu a família Cury, foi o César Cury que inclusive levou ela, Paloma, filha de outro relacionamento para viver no lar instituído como família. E a Pilar? Agora se nega a aceitar o filho criminoso. E depois disso temos um comovente momento no qual Márcia, que teria sido babá de Félix, chega perto dele e diz que ele pode contar com ela no que precisar. A Márcia sim foi a mãe do Félix, porque enquanto ela cuidava dele, a Pilar só estava preocupada com o casamento dela, com o status de mulher casada. E o Félix deu no que deu.

E depois de tudo, quando o Bruno e a Bernarda perguntam se César irá chamar a polícia e denunciar Félix, ele diz que isso mancharia a imagem do hospital. Ou seja, se é um crime, não teria que ser pago? E agora que a família já está mais do que destruída, não pode ter destruída a reputação e o hospital – signo de poder e lucratividade, porque sim o dinheiro é tudo?

Espero que no final da novela o Félix vá para a igreja do pastor e se converta, que a Paloma o perdoe e que ele ainda passe a aceitar e a gostar da Paulinha, pois Félix é um produto do meio. E teremos ainda muitos Félix na sociedade se passarmos a tratar os sentimentos das pessoas como algo que se pode ferir a todo custo, só porque talvez o filho tenha trejeitos.

Aluísio Azevedo deve estar se remexendo no túmulo, pois tons extremamente Naturalista emanam de “Amor à Vida”, mas ainda mais intensos do que a obra literária “O Cortiço”.

Anúncios