Danilo Vizibeli*

pele

Pele: maior órgão do corpo humano que o reveste e não faz com que vísceras, veias, músculos, ossos e cartilagens fiquem à mostra. Segunda pele: o orgulho, às vezes ferido.

Tenho pensado na simbologia da pele. Tenho pensado na espessura de minha segunda pele: o orgulho, ferido ainda.

Quando vamos envelhecendo, a pele começa a ficar mais grossa, enrugada, parece esfoliada… São experiências… Hoje, há o botox, que estica, mas a pessoa fica com a pele do rosto um pouco esticada, e no estilo “Barbie”, não é mais uma pele tão natural. É uma segunda pele.

A filósofa Viviane Mosé em seu poema “Tempo” diz assim: “Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele/ soprando sulcos na pele, soprando sulcos?/ O tempo andou riscando meu rosto com uma navalha fina/ Sem raiva, nem rancor/ O tempo riscou meu rosto com calma/ (Eu parei de lutar contra o tempo/ ando exercendo instantes/ acho que ganhei presença)

Eu, porém, larguei de lutar contra as pessoas, acho que ganhei “presentes”. Prefiro lutar contra mim mesmo, em minha melhoria. Quando pessoas não me fazem bem, tento dizer a elas, mas o que fazer se nada adianta? Talvez, eu seja o errado, e assim prefiro me afastar. Dessa forma, diminuo um pouco a espessura da minha segunda pele – o orgulho, só pra lembrar – e passo um pouquinho de protetor solar – a humildade – na minha pele original – o caráter.

Disse a sábia professora e orientadora educacional Marli Aparecida Ferreira que temos que deixar as ansiedades de lado e viver observando a natureza. Assim como há as estações do ano, nossa vida também é marcada de momentos e às vezes tormentos. Porém, para aquele que sabe onde quer chegar tudo fica um pouco mais fácil.

Nesse refletir sobre a pele, estive pensando, nesses dias de manifestações, em releitura dos cara-pintadas, sobre os revestimentos que colocamos em nossa pele. Passo a tomar a partir de agora, a pele num sentido mais amplo. Numa composição de Arnaldo Antunes e Pepeu Gomes, conhecida na voz de Zélia Duncan, expressa-se: “Alma!/ Deixa eu ver sua alma/ A epiderme da alma/ Superfície!/ Alma!/ Deixa eu tocar sua alma/ Com a superfície da palma/ Da minha mão/ Superfície!…”

Somos seres superficiais, com uma pele fininha, sensível a qualquer arranhão ou somos seres revestidos com a carapaça da coragem? Nesse ir e vir de manifestações, em que muitos contestadores usaram uma máscara bem típica do sistema capitalista, Marli disse-me: “A gente manifesta é com a cara pintada, não com a cara tapada”.

Temos então duas escolhas: ou cobrir num véu escurecido, assim como fazem as muçulmanas com a burca, ou deixar transparecer aquilo que realmente somos: pele marcada, com cicatrizes e espinhas, no meu caso.

Por muito tempo, principalmente na adolescência, tive muita vergonha das minhas espinhas. Hoje, vejo que elas fazem parte da minha identidade. Tento combatê-las, por estética, mas não seria o Danilo, marcado com acúleos meus, como digo em um poema, se não fossem elas.

Tem gente que vai às ruas manifestar, pinta o rosto e põe nariz de palhaço. Mas não se enxerga que é ela o verdadeiro palhaço. Pois, não há como ter duas bandeiras – numa época em que se fala tanto do partidarismo. Há que se lutar, há que ter ideologia. Contudo, não ideologias vazias no tipo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Mostra-me tua pele. Mostra-me quem és e assim direi se sou teu amigo. Se não for, também não serei teu inimigo, mas apenas um intercessor aos altos céus pela complacência de uma pele que desvanece. Sejamos peles de humanos com suas incongruências, mas sejamos a pele de um idoso que mesmo marcada, comporta um tom de “camurça”, veludo. Às vezes aparecem até uns pelinhos brancos na face, que representa a solidez de ideais, conquistada com o tempo e a vida – “mestra suprema de todas as disciplinas” – para citar Saramago.

Dedico este texto à Marli Aparecida Ferreira Soares e às alunas da UNABEM que me mostraram todo o conhecimento acima descrito.

*Danilo Vizibeli é Mestre em Linguística e Jornalista.

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