Autores integrantes do circuito nacional da Literatura e outros tantos nomes ainda residentes em Passos marcam a história do município através das Letras

Danilo Vizibeli*

Os velhos tempos da ditadura. Nas casas passenses eram jogados duas vezes por semana os exemplares de “O Sudoeste”, o jornal do Pelegrino, com suas oficinas a todo vapor na esquina da Barão de Passos e Coronel João de Barros. Também marcou época na Literatura passense os nove exemplares da Revista Protótipo: gente engajada disseminando suas ideias.

Alexandre Marino, natural da cidade, nascido em 1956, foi um dos fundadores da revista em 1972. Com a veia literária e crítica despertou-se a simpatia dos professores e a implicância dos militares da cidade. Formado em Comunicação Social, o autor publica contos e poemas em revistas e jornais de literatura de várias partes do país. Um dos seus últimos livros “Arqueolhar” teve um lançamento especial em Passos no ano de 2006. As lembranças da infância podem ser sentidas pelo olhar direto à capa do livro: o palhacinho dos velhos tempos de infância. Alexandre Marino figura ao lado de Antônio Barreto e Gilberto Abreu dentro de nomes influentes na literatura nacional. Na marca da tradição, as lembranças passenses e os encantamentos levados na memória da cidade amada.

Com todas as letras, Passos escreve uma história de sucesso nas prateleiras do saber. As gráficas da cidade não cansam de abrir todos os dias novos projetos editoriais de criações dos autores passenses. Além destas pessoas que trabalham diretamente com Literatura estão os teatrólogos, os artistas, músicos e até mesmo os estudantes universitários sempre com a palavra nos dedos e na mente que é passada aos leitores.

Menina valente e guerreira, transgredindo todas as regras possíveis, Marise Pacheco aos 14 anos escrevia para o jornal “O Sudoeste”. A “Coluna Feminina” era de sua responsabilidade. “Com 18 anos resolvi mudar para São Paulo e lá me engajei nos movimentos literários que estavam acontecendo. Em meados de 1978 começaram a surgir os produtores independentes com a influência da classe poética. Era um momento delicado da política do país em que não se tinha liberdade nenhuma para expressar. Éramos revolucionários”, relembra saudosamente Marise.

Marise Pacheco, foto publicada em 2008, no jornal Fala José (E.E. São José - Passos/MG(
Marise Pacheco, foto publicada em 2008, no jornal Fala José (E.E. São José – Passos/MG(

No Grupo Sangue Novo – um dos grupos mais importantes do movimento literário nacional – a oportunidade do contato com vários escritores e poetas do país. “Vendíamos nossos livros nos bares, editávamos com mimeógrafo usando a gráfica da universidade, lá da USP. Organizamos as passeatas poéticas, porque não podia ter reunião de pessoas, inventamos um mote que não tivesse fundo político e em 1978 pedíamos: ‘Anistia para o prazer!’”, recorda Marise destacando que a liberação era superior à política. Segundo ela era a liberação do ser na sua essência.

Dos tristes tempos da ditadura a escritora tem também tristes lembranças. Ela conta que não sofreu nenhuma perseguição diretamente, mas pôde presenciar atos violentos de tortura. “Em Passos presenciei uma vez uma cena forte na delegacia. Eram vários militares em cima de um pobre coitado. Com o pseudônimo de Sombra, escrevi no jornal que os guardas deviam fazer tortura com mais discrição. Veio auditoria de Belo Horizonte, mas quando viram que era uma moleca que tinha escrito aquilo nem acreditaram e deixaram a gente em paz”, descreve a literata.

Na produção de Marise estão três obras publicadas: Imagens, Cutuca meu bem cutuca e Safadinhas – todas de poemas considerados integrantes da cultura alternativa denunciando as injustiças e as contradições do ser humano. A passense planeja ainda para publicação “O Último Livro” e também a obra “Depois do Último”. “Aproveito os dizeres de André Guide: ‘tudo já foi dito mais de uma vez, mas como ninguém escuta a gente precisa falar de novo’”, enfatizou Marise.

Junto com Marise atuando nos cenários da União Passense de Estudantes (UPES) estava Marco Túlio Costa, natural de Formiga, mas passense de coração desde os 11 anos de idade. Os dois fizeram parte da Revista Protótipo – a mesma que lançou no mundo a escrita de Alexandre Marino. Marco Túlio conta que, pequeno, ainda não tinha a mínima noção de que tinha interesse pela Literatura. Sabia que era uma forma de expressão, mas nada além disso. “Cheguei a Passos com 11 anos e antes disso eu já escrevia. Rascunhava em folhas de caderno as quais meu pai guarda até hoje. Minha primeira historinha foi “Pedinho em Xadrezópolis’”. O gosto pelas histórias infantis faz parte do repertório do autor. Sua primeira publicação como livro foi aos 26 anos de idade com o “Mágico Desinventor” que hoje possui até tradução em espanhol. “Minha desenvoltura com a escrita só acontecia porque eu lia bastante. Eu tinha uma biblioteca em casa e existia uma admiração pela escrita. A Literatura era também uma diversão”, destaca Marco Túlio.

O MÁGICO DESINVENTOR - primeira obra publicada de Marco Túlio Costa
O MÁGICO DESINVENTOR – primeira obra publicada de Marco Túlio Costa

Escrever para crianças, jovens ou adultos? Para Marco Túlio Costa o importante é escrever de forma agradável, mas sempre com perfeição estética. “Eu tenho livros de contos adultos como ‘Aventuras dos Filhos na Barriga da Noite’ e vários romances ainda não publicados. Toda forma me satisfaz bastante. Meu primeiro compromisso é comigo mesmo: tem que haver um prazer intelectual em realizar a obra. Se ela vem como obra infantil, juvenil ou adulto pra mim tanto faz”, esclarece.

O Brasil é talvez um dos países que tem menos leitores com uma taxa de leitura de livros por ano muito baixa. Todos os entrevistados concordam que Passos não está longe destes cenários, mas tem uma influência muito positiva na área da Literatura. Para Marco Túlio, o problema está na disponibilização dos livros. “Existem projetos como um dia vi na TV o jegue-livro, outro projeto em Brasília onde são disponibilizados livros nos pontos de ônibus, as pessoas leem e ainda devolvem. Quando vejo os livros já velhos de tanto serem lidos na Casa da Cultura sinto um prazer enorme. O trabalho de Regina Piotto na produção da leitura também é muito interessante. Ela já usou algumas das minhas obras e fico muito satisfeito com isso”, ressaltou.

Para os próximos 150 anos de Passos, Marise Pacheco e Marco Túlio Costa gostariam que fosse escrita uma história ainda mais promissora e rica em conhecimentos novos. “Desejo sabedoria para a classe dominante e um pouco mais de piedade dessas pessoas. Piedade no sentido de consciência. A classe que domina tem a obrigação de dar mais porque tem o poder nas mãos”, afirmou Marise. Marco Túlio por sua vez concorda com a autora e tem a opinião firme de que a desumanização da sociedade é o grande problema que até merece um estudo sociológico. Ele deseja que Passos tenha mais acesso aos livros e que os jovens sejam incentivados a escrever suas trajetórias não só para a terra natal, mas para o Brasil. “Uma sociedade leitora é importante porque além de mais sensível às questões humanas é mais crítica. Se eu pudesse ser o Mágico Desinventor transformaria a sociedade em uma sociedade humanizada através da leitura”, concluiu.

*Escrito em 2008

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